O Globo
É digno de nota o sucesso do governo de
Benjamin Netanyahu em sumir do noticiário
Algumas mentes privilegiadas conseguem produzir ensaios imperecíveis sobre o viver humano. George Orwell foi uma delas. Costumeiramente celebrado pela distopia visionária de “1984”, publicada em 1949, é na coletânea de ensaios e correspondência escritos durante e após a Segunda Guerra Mundial que Orwell brilha pela clareza. O quarto volume dessa coletânea (em parte publicada no Brasil pela Pé da Letra e Edições 70) leva o título “In front of your nose: 1946-1950”. São textos críticos de invejável honestidade intelectual e amplo espectro temático. Como denominador comum, a defesa da verdade contra o totalitarismo. Tome-se um trecho do ensaio “Diante do seu nariz”, em que discute a capacidade humana de se iludir:
— Todos nós somos capazes de crer em coisas
que sabemos ser falsas e, então, quando enfim comprovadas erradas, torcer
despudoradamente os fatos para demonstrar que tínhamos razão. Intelectualmente,
é possível prosseguir nesse processo por tempo indefinido. O único freio é que,
mais cedo ou mais tarde, uma crença falsa choca-se contra uma realidade sólida,
geralmente num campo de batalha.
Ou seja, na guerra. Orwell prossegue:
— Ao contemplar a esquizofrenia onipresente
nas sociedades democráticas (as mentiras que precisam ser contadas para fisgar
votos, o silêncio sobre questões maiores, as distorções da imprensa), torna-se
tentador crer que, nos países totalitários, há menos impostura, mais confronto
com os fatos. Lá, ao menos, os grupos no poder não dependem do favor popular e
podem proclamar a verdade de modo cru e brutal. Göring podia dizer “Fuzis antes
de manteiga”, enquanto seus pares democráticos precisavam embrulhar o mesmo
sentimento em centenas de palavras hipócritas.
Tome-se a atual guerra dos Estados Unidos e
Israel contra o Irã, que há semanas parece querer se sustentar em duas
vertentes ao mesmo tempo. Uma, a mais visível, feita de mísseis e drones,
bombardeios ferozes, navios detonados, lençóis de petróleo em chamas, perigo,
mortes em expansão. A outra, escondida atrás da retórica e musculatura
maximalista dos combatentes, a malquerença de arcar com as consequências dos
respectivos atos.
O regime de Teerã sob comando oficial do novo
líder Supremo, Mojtaba Khamenei, que permanece invisível e cuja autoridade
ninguém garante estar consolidada, mantém o poder de aterrorizar por meio de
ameaças.
— De agora em diante — avisou o general
iraniano Abolfazl Shekarchi, dirigindo-se às hordas de viajantes americanos às
vésperas da pausa escolar de primavera que se inicia nesta semana — , vocês não
estarão seguros em nenhum parque, local de recreação ou destino turístico do
mundo.
Só não informou que locais específicos foram
efetiva e exaustivamente mapeados.
Mas é em seu escurinho que toda guerra
proporciona oportunidades paralelas de brutalidade. O regime dos aiatolás —
dado como claudicante após sua liderança ter sido dizimada no primeiríssimo dia
da operação Fúria Épica — encontrou tempo, fôlego e poder para executar na forca
três jovens manifestantes de oposição. Um deles, o atleta Saleh Mohammadi, de
19 anos, era a estrela ascendente do país em mundiais de luta livre. Fora preso
durante os sangrentos protestos de janeiro último, que fizeram mais de 7 mil
mortos abatidos a frio pelas forças de segurança.
Como o enforcamento ocorreu na prisão de Qom,
e não em praça pública, foi pouco noticiado. Não rendeu a espetaculosa imagem
que lhe garantiria destaque. Segundo a Anistia Internacional, os três jovens
foram julgados a portas fechadas, sem garantias legais, e suas confissões foram
obtidas sob tortura.
Do lado israelense, a brutalidade paralela à
guerra principal tem escala de apagamento cultural, limpeza étnica, anexação
territorial. Seja em Gaza, Jerusalém Oriental, na Cisjordânia ocupada ou no
Líbano, o apagamento da vida palestina tem sido sem freios, como que
aproveitando o caos generalizado na região. É digno de nota o sucesso do
governo de Benjamin Netanyahu em sumir do noticiário — a ponto de parecer que
apenas os Estados Unidos estão envolvidos no ataque ao Irã.
Em relação ao Líbano, começa a tomar corpo o
movimento Desperte, ó Norte, liderado pelo professor Hagai Ben-Artzi, cunhado
de Netanyahu, a favor da ocupação definitiva da faixa de 30 quilômetros que vai
do Rio Litani até a fronteira sul com Israel. A logomarca do movimento consiste
de um cedro, árvore símbolo do Líbano, com uma Estrela de Davi acoplada.
Está tudo diante do nosso nariz.

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