domingo, 29 de março de 2026

A guerra sem retórica para disfarçar o horror, por Dorrit Harazim

O Globo

É digno de nota o sucesso do governo de Benjamin Netanyahu em sumir do noticiário

Algumas mentes privilegiadas conseguem produzir ensaios imperecíveis sobre o viver humano. George Orwell foi uma delas. Costumeiramente celebrado pela distopia visionária de “1984”, publicada em 1949, é na coletânea de ensaios e correspondência escritos durante e após a Segunda Guerra Mundial que Orwell brilha pela clareza. O quarto volume dessa coletânea (em parte publicada no Brasil pela Pé da Letra e Edições 70) leva o título “In front of your nose: 1946-1950”. São textos críticos de invejável honestidade intelectual e amplo espectro temático. Como denominador comum, a defesa da verdade contra o totalitarismo. Tome-se um trecho do ensaio “Diante do seu nariz”, em que discute a capacidade humana de se iludir:

— Todos nós somos capazes de crer em coisas que sabemos ser falsas e, então, quando enfim comprovadas erradas, torcer despudoradamente os fatos para demonstrar que tínhamos razão. Intelectualmente, é possível prosseguir nesse processo por tempo indefinido. O único freio é que, mais cedo ou mais tarde, uma crença falsa choca-se contra uma realidade sólida, geralmente num campo de batalha.

Ou seja, na guerra. Orwell prossegue:

— Ao contemplar a esquizofrenia onipresente nas sociedades democráticas (as mentiras que precisam ser contadas para fisgar votos, o silêncio sobre questões maiores, as distorções da imprensa), torna-se tentador crer que, nos países totalitários, há menos impostura, mais confronto com os fatos. Lá, ao menos, os grupos no poder não dependem do favor popular e podem proclamar a verdade de modo cru e brutal. Göring podia dizer “Fuzis antes de manteiga”, enquanto seus pares democráticos precisavam embrulhar o mesmo sentimento em centenas de palavras hipócritas.

Tome-se a atual guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã, que há semanas parece querer se sustentar em duas vertentes ao mesmo tempo. Uma, a mais visível, feita de mísseis e drones, bombardeios ferozes, navios detonados, lençóis de petróleo em chamas, perigo, mortes em expansão. A outra, escondida atrás da retórica e musculatura maximalista dos combatentes, a malquerença de arcar com as consequências dos respectivos atos.

O regime de Teerã sob comando oficial do novo líder Supremo, Mojtaba Khamenei, que permanece invisível e cuja autoridade ninguém garante estar consolidada, mantém o poder de aterrorizar por meio de ameaças.

— De agora em diante — avisou o general iraniano Abolfazl Shekarchi, dirigindo-se às hordas de viajantes americanos às vésperas da pausa escolar de primavera que se inicia nesta semana — , vocês não estarão seguros em nenhum parque, local de recreação ou destino turístico do mundo.

Só não informou que locais específicos foram efetiva e exaustivamente mapeados.

Mas é em seu escurinho que toda guerra proporciona oportunidades paralelas de brutalidade. O regime dos aiatolás — dado como claudicante após sua liderança ter sido dizimada no primeiríssimo dia da operação Fúria Épica — encontrou tempo, fôlego e poder para executar na forca três jovens manifestantes de oposição. Um deles, o atleta Saleh Mohammadi, de 19 anos, era a estrela ascendente do país em mundiais de luta livre. Fora preso durante os sangrentos protestos de janeiro último, que fizeram mais de 7 mil mortos abatidos a frio pelas forças de segurança.

Como o enforcamento ocorreu na prisão de Qom, e não em praça pública, foi pouco noticiado. Não rendeu a espetaculosa imagem que lhe garantiria destaque. Segundo a Anistia Internacional, os três jovens foram julgados a portas fechadas, sem garantias legais, e suas confissões foram obtidas sob tortura.

Do lado israelense, a brutalidade paralela à guerra principal tem escala de apagamento cultural, limpeza étnica, anexação territorial. Seja em Gaza, Jerusalém Oriental, na Cisjordânia ocupada ou no Líbano, o apagamento da vida palestina tem sido sem freios, como que aproveitando o caos generalizado na região. É digno de nota o sucesso do governo de Benjamin Netanyahu em sumir do noticiário — a ponto de parecer que apenas os Estados Unidos estão envolvidos no ataque ao Irã.

Em relação ao Líbano, começa a tomar corpo o movimento Desperte, ó Norte, liderado pelo professor Hagai Ben-Artzi, cunhado de Netanyahu, a favor da ocupação definitiva da faixa de 30 quilômetros que vai do Rio Litani até a fronteira sul com Israel. A logomarca do movimento consiste de um cedro, árvore símbolo do Líbano, com uma Estrela de Davi acoplada.

Está tudo diante do nosso nariz.

 

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