domingo, 29 de março de 2026

Diretas já, por Merval Pereira

O Globo

Está na hora de colocar para fora do poder os políticos que foram cooptados pelo crime organizado.

Como a maioria dos casos que acontecem na política do Rio de Janeiro nas últimas dezenas de anos, o da eleição do governador-tampão para terminar o mandato do governador inelegível Claudio Castro é cheio de contradições e reviravoltas. O que parecia uma questão simples de resolver, pois as provas de corrupção do governador eram irrefutáveis, transformou-se em uma chance política de remover os grupos criminosos que dominam o Estado do Rio antes mesmo da eleição marcada para outubro.

Sendo a eleição direta, como defende a maioria dos especialistas, a oposição, vencendo, assumirá o governo e poderá concorrer à reeleição no cargo. Perderá praticamente um mandato governamental, mas antecipará a limpeza necessária. Se o atual grupo que domina o estado prevalecer na eleição direta, não há o que fazer a não ser admitir o apodrecimento das estruturas da política regional. Não se trata de uma disputa apenas hermenêutica, mas moralizadora como passo inicial para restaurar a predominância do estado de direito sobre o estado criminoso que já avançou excessivamente seus tentáculos sobre o poder político fluminense.

A tentativa de golpe dado pelo governador condenado por abuso de poder político e econômico ao renunciar ao cargo um dia antes da decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) ficou evidente, e não é aceitável que em uma democracia a autoridade judicial seja superada por uma jogada ilegal que beneficiará o mesmo grupo que governava o estado e foi punido com a condenação do seu chefe. O prosseguimento do golpe deu-se com desfaçatez no dia seguinte, ao tentarem nomear o presidente da Assembleia Legislativa em uma eleição fajuta que acabou sendo anulada por desvios incontornáveis.

Não é possível que a mesma Justiça que puniu duas vezes o grupo criminoso que tomou conta do governo do Rio nos últimos anos vá se deixar enredar por um terceiro golpe, a eleição indireta a ser realizada sob o controle deles que apoiavam o governador condenado e o presidente da Assembleia preso por ligações com o crime organizado. É longa a relação de governadores do estado do Rio que foram presos ou cassados por problemas de corrupção, e já está na hora de colocar para fora do poder os políticos que foram cooptados pelo crime organizado.

O momento é propicio a uma medida de saneamento político do Estado, sem que seja necessário mais tarde, como já aconteceu em outras ocasiões, que uma intervenção federal venha tentar resolver os problemas de segurança pública que impedem o Rio de alcançar o futuro de desenvolvimento social e econômico que merece. A decisão por uma eleição direta para o governo-tampão é a melhor maneira de resolver esse dilema que vive o Estado desde que a Capital do país foi transferida para Brasília sem o devido apoio ao novo Estado que surgiu da junção do Rio com a Guanabara.

A liminar que o ministro Cristiano Zanin deu suspendendo a eleição indireta tem a possibilidade de ser julgada no plenário presencial, juntamente com a outra decisão, no plenário virtual que, embora já tenha maioria a favor das regras de uma possível eleição indireta, não se encerrou e não tratou do mérito da eleição direta, colocada na discussão em bom momento pelo ministro Alexandre de Moraes. Já existindo quatro votos em dez a favor da eleição direta, basta que dois ministros que já votaram mudem seus votos, diante dos fatos novos surgidos. Estão nesse caso os ministros Luis Fux, a ministra Carmem Lucia, presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que está sendo afrontado pelos sucessivos golpes do grupo afastado do poder, o ministro Dias Toffoli e o presidente Edson Facchin.

 

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