quinta-feira, 26 de março de 2026

O choque do petróleo vai passar, a incerteza, não, por Eduardo Belo

Valor Econômico

Brasil vai enfrentar encarecimento da produção agrícola, pressão inflacionária e dificuldades para ajustar a política monetária

Se o pós-tarifaço já havia reconfigurado as bases do comércio internacional, o mundo que emerge após o ataque de Estados Unidos e Israel ao Irã inaugura mais uma era de instabilidade nas relações globais. Desta vez, a incerteza brota do custo da energia derivada de combustíveis fósseis. E não vai se dissipar facilmente.

Independentemente de quando e como a guerra termine, o estrago está feito.

A interrupção do fluxo de óleo e gás pelo estreito de Ormuz - por onde passam cerca de um quarto do comércio marítimo global de petróleo e quase 20% do gás natural liquefeito - desencadeou um choque de oferta histórico. Relatório da Agência Internacional de Energia (AIE) da semana passada classifica o episódio como a maior ameaça à segurança energética mundial já registrada, superando as crises do petróleo de 1973 e 1979 e a guerra na Ucrânia, em 2022.

A produção dos países do golfo Pérsico caiu mais de 10 milhões de barris por dia, enquanto o tráfego marítimo entrou em colapso com a falta de rotas alternativas. Refinarias e plantas de processamento foram atingidas. Produtos como diesel e querosene de aviação despontam como os mais vulneráveis - sendo alvo de preocupação especial do governo brasileiro, com tentativas de evitar a disparada nos preços.

O petróleo Brent, referência do mercado internacional, subiu em poucos dias de perto de US$ 60 o barril para mais de US$ 100. Oscila, mas permanece em torno desse nível. O mercado de derivados sinaliza altas ainda mais intensas.

A resposta emergencial - a liberação coordenada de 400 milhões de barris de estoques estratégicos pelos países da AIE - ajuda a evitar condições ainda mais severas neste início de crise, mas não resolve o problema da dependência de combustíveis fósseis, cuja produção, em boa parte, se concentra em uma região que sempre foi uma das mais explosivas do planeta.

Mesmo em um cenário de cessar-fogo relativamente rápido, a normalização dos mercados de óleo, derivados e gás tende a ser parcial e desigual. O petróleo, de logística mais flexível, poderia apresentar recomposição em alguns meses após o restabelecimento da segurança no estreito de Ormuz. O que não significa que os preços voltarão aos níveis anteriores à guerra nem que o fluxo será o mesmo de antes. Isso se a segurança de fato voltar ao estreito.

“O impacto sobre o preço da energia será duradouro”, comenta o José Júlio Senna, pesquisador do FGV Ibre, doutor em economia pela Universidade Johns Hopkins e ex-diretor do Banco Central.

O impacto econômico da crise tende a se disseminar rapidamente. No Brasil, as principais consequências virão na forma de mais inflação e de um provável freio no ritmo de ajuste da política monetária.

Senna já considerava otimista a redução de 3 pontos percentuais na taxa Selic esperada pelo mercado para este ano antes do conflito. Acreditava em algo entre 1,5 e 2 pontos. Agora começa a achar que pode ser menos ainda.

“A inflação deve tornar um pouco mais difícil a tarefa do Banco Central de reduzir a Selic como se esperava antes da guerra”, concorda Otaviano Canuto, ex-vice presidente do Banco Mundial e membro sênior do Policy Center for the New South.

No caso dos derivados de petróleo a situação é ainda mais drástica, devido aos danos na infraestrutura de refino da região do golfo Pérsico. Pior ainda, o gás natural pode levar dois anos, depois do fim do conflito, para retomar a normalidade, devido as particularidades da estrutura logística do produto, avalia Canuto. Pela região passa um quinto do gás natural liquefeito consumido no mundo.

“Não se podem esquecer outros impactos, como fertilizantes, que importam muito para o Brasil e que não é perfeitamente substituível por produtos de outras origens”, diz Canuto.

Grandes fornecedores de fertilizantes, como Rússia, de onde vem um quarto de todo insumo importado pelo Brasil, fecharam suas exportações. Canuto calcula que pode demorar um ano a um ano e meio para normalizar o fornecimento desses produtos. É quase certo que a próxima safra de verão será semeada pelo Brasil no segundo semestre sob o impacto de preços altos e escassez de fertilizantes. É de se esperar produção menor ou com custo maior. Ou ambas as situações.

O especialista em energia Edvaldo Santana, doutor em engenharia da produção, ex-diretor da Aneel e colunista do Valor, tem visão mais otimista. “Apesar da escalada inicial, acho que em 15 dias, depois de sinalizado o fim do conflito, o mercado voltaria ao equilíbrio, mas o preço, no começo, seria um pouco maior”, comenta.

Ele acredita em algo em torno de US$ 65 o barril do petróleo Brent, em vez de US$ 60. “O cenário de incerteza, porém, não seria dissipado de imediato, pois depende muito de Trump. É por isso que acho que, na faixa de preço acima, é mais provável que fique mais tempo no limite superior.”

Santana considera que a pressão sobre o mercado de combustíveis fósseis será maior que a da guerra na Ucrânia. “O mundo todo sentiu o impacto da guerra do Irã, não só a Europa.” E projeta como saldo da crise um novo ganho de protagonismo da energia nuclear, “mas adaptável à nova demanda, que são os data centers”. Passado o choque do petróleo, é possível que volte a ganhar fôlego o debate sobre a descarbonização energética.

A principal consequência do conflito talvez não seja o pico de preços do curto prazo, mas a consolidação de um novo patamar de risco e a busca por alternativas. Depois do ataque ao Irã, a incerteza passa a ser componente permanente na formação de preços de combustíveis fósseis, elevando o piso, e não só o teto, da cotação.

Mesmo que os barris deixem de custar mais de US$ 100, dificilmente retornarão ao cenário tranquilo dos US$ 60. O sistema energético global sairá da crise não apenas mais caro, mas também mais instável.

 

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