Valor Econômico
Lula resiste à pressão da Corte sobre a PF e
ministros se inquietam com a mudança interna no pêndulo do poder
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva nunca
rompeu com Emílio Odebrecht. Os desdobramentos do envolvimento de seu filho
Fábio Luís Lula da Silva com Antonio Carlos Camilo Antunes, o “careca do INSS”,
sugerem que, além daquelas da Lava-Jato, Lula também colheu lições da relação
entre Emílio e seu filho, Marcelo Odebrecht.
Corria o segundo semestre de 2016 quando a Odebrecht começou a negociar o acordo de delação premiada. Marcelo queria ser o primeiro dos 77 delatores pela simples razão de que a primazia, num acordo cujo ativo mais valioso é a informação, lhe daria vantagem. Emílio não permitiu. O filho ameaçou implodir tudo, Emílio pagou pra ver, manteve-o no fim da fila e a delação seguiu seu curso.
Não foi o único embate. Marcelo queria ter um
representante no acordo de leniência, mas Emílio não aceitou. Não abria mão do
controle sobre todo o processo, da delação à leniência. Emílio desconfiava de
que a personalidade do filho, que reputava imperial, impediria o processo de
seguir seu curso.
O Brasil não é a Odebrecht, mas ecos deste
episódio começaram a aparecer, dez anos depois, quando, em dezembro de 2025,
Lula chamou o filho mais velho duas vezes ao Palácio da Alvorada. A conversa
seria relatada pelo próprio presidente, quase dois meses depois, ao UOL: “Olhei
no olho do meu filho e disse: Só você sabe a verdade. Se você tiver alguma
coisa, vai pagar o preço. Se não tiver, se defenda.”
Lula começava ali a operação de contenção de
danos daquilo que aconteceria um mês depois, a quebra de sigilo de seu filho
pela Polícia Federal e o pedido de seus achados pela CPI do INSS. Segundo Luiz
Vassalo e Aguirre Talento, do Estadão, Lulinha estaria, pela primeira vez,
disposto a assumir a viagem que teria feito a Portugal, com as despesas pagas
por Antunes, para perscrutar a parceria com uma fábrica de cannabis medicinal
que não prosperou.
Não saberia das relações de Antunes com o
INSS e nunca teria recebido dinheiro dele. Esta informação poderá ser
verificada na quebra de sigilo. Até mesmo pela CPI. A base governista tenta
evitá-la porque teme a espetacularização e prefere que a investigação seja
concentrada na ação relatada por André Mendonça, cuja atuação no caso é
elogiada pela defesa do filho do presidente, pela PF e por ministros deste
governo. Fábio Luís mora na Espanha e, segundo sua defesa, faz “consultorias”
para se manter no país.
Este parece ter sido o segundo capítulo da
operação que se desenrola a partir não apenas do pedido da CPI mas também da
postura errante do Supremo Tribunal Federal ante as investigações da Polícia
Federal sobre o banco Master. É uma maneira de o presidente anunciar, a quem
interessar possa, que, assim como seu filho vai responder por seus atos, todo
mundo, inclusive os ministros do STF, também podem fazê-lo.
O diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, é um
dos poucos colaboradores deste governo que despacham com o presidente sem
testemunhas. A proximidade motiva a cobrança, vinda da Corte, para que o
presidente contenha a PF. Ou pelo menos tente, como o fez o antecessor, Jair
Bolsonaro, que teve três diretores-gerais na instituição.
Durante o “Rumos 2026”, do Valor, indagado sobre as
investigações sobre o filho do presidente, Andrei Rodrigues disse que
investigaria quem preciso fosse, que ele escolheu os 14 diretores da PF e os 27
superintendentes, que não há interferência política nem “japonês da federal”,
numa referência velada a Newton Ishii, o agente da PF que ganhou fama na
Lava-Jato e acabou condenado e afastado da PF por envolvimento numa quadrilha
de facilitação de contrabando na fronteira entre Brasil e Paraguai.
Desde que entregou o relatório sobre o
ministro Dias Toffoli ao presidente do STF, Edson Fachin, Andrei Rodrigues tem
sido alvo de reclamações na Corte. Toffoli, que foi afastado da relatoria do
caso Master com a concordância unânime de seus colegas, estaria a pressionar
Fachin pela abertura de um inquérito contra Andrei e pelo afastamento dos policiais
federais envolvidos na produção daquele relatório.
Como Toffoli tem sido sucessivamente blindado
pelos colegas, tanto na responsabilidade pelo vazamento da reunião fechada dos
dez togados, quanto na convocação de seus irmãos pela CPI do crime organizado e
na quebra de sigilo da empresa da família, a abertura de um inquérito contra a
PF pode ter parecido um desdobramento natural, mas o gabinete de Fachin nega
qualquer pedido do gênero.
A pressão contra a PF não resolve todos os
problemas do STF porque a Corte agora tem um problema interno cuja solução não
parece evidente. André Mendonça proibiu o compartilhamento de informações
hierarquia acima da PF, mas a dinâmica de uma corporação que depende de
autorização superior para a liberação de efetivos e recursos envolvidos numa
investigação, coloca limites nesta vedação.
O ministro Gilmar Mendes fez malabarismo para
proibir o acesso da CPI ao sigilo da Maridt, mas não terá como interferir no
uso que Mendonça vier a fazer desta e de outras informações sobre colegas
envolvidos com o Master.
Lula enfrentará a artilharia contra o filho,
e o STF, a campanha de candidatos ao Senado movida pela caça aos togados. Na
véspera desta campanha, os ministros assistem ao pêndulo do poder se mover
dentro da Corte. É este o motor da crise que um togado define numa frase: “A
única meta possível para 2026 é parar de piorar.”

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.