terça-feira, 3 de março de 2026

Contra os ataques americanos, Irã ameaça as bombas de gasolina nos EUA, por Humberto Saccomandi

Valor Econômico

Reação de Teerã sinaliza que o país já começou a usar o petróleo como arma, ameaçando Trump onde mais poderá lhe doer: nas urnas

Donald Trump se vangloriou dos preços baixos dos combustíveis nos EUA, no seu recente discurso sobre o Estado da União. Isso mostra como a gasolina barata é um ativo precioso para o presidente, especialmente num período de campanha eleitoral. A reação do Irã ao ataque americano sinaliza que o país já começou a usar o petróleo como arma, ameaçando Trump onde mais lhe poderá doer, nas urnas. A guerra pode logo se tornar uma disputa entre o que causa mais dano: as bombas americanas que estão caindo no Irã ou o preço subindo nas bombas de gasolina dos EUA.

O preço do petróleo tipo Brent subiu mais de 6,68% nesta segunda-feira. Mas já aumentou cerca de 22% desde meados de janeiro, quando Trump começou a ameaçar o Irã. Nos EUA, mudanças nos preços do petróleo costumam ser repassadas rapidamente aos consumidores. Os preços do gás natural, outra importante commodity energética exportada pelo Oriente Médio, também tiveram forte alta ontem. As bolsas pelo mundo caíram, pelo temor de que o conflito se agrave e afeta a economia global.

A cotação do petróleo é possivelmente a principal ferramenta de pressão à disposição do governo iraniano. Como o país pode influenciar esse preço? Principalmente de duas maneiras. A primeira é ameaçando fechar o Estreito de Ormuz, por onde passam diariamente cerca de 20% do petróleo consumido globalmente. A segunda é ameaçando a estrutura petrolífera dos países vizinhos.

Em junho de 2025, quando os EUA e Israel atacaram o Irã, o país reagiu timidamente, indicando que não desejava uma escalada do conflito. E, sobretudo, Teerã evitou usar o petróleo como arma. A cotação disparou, até atingir o pico de US$ 77,55 o barril, mas caiu rapidamente logo em seguida.

Desta vez está sendo diferente. Segundo o Maritime Trade Operations Centre do Reino Unido, três navios foram atacados na região, sendo que dois deles foram atingidos. Ninguém assumiu a autoria dos ataques, mas o Irã alertou navios a não tentaram cruzar o Estreito de Ormuz. O tráfego estaria paralisado.

Além disso, Teerã atacou com mísseis e drones vários países da região: Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Kuait, Catar, Bahrein e Iraque (Curdistão). São todos produtores de petróleo e/ou gás natural. Assim, o governo iraniano demonstrou ser capaz de atingir alvos nesses países. A destruição de instalações petrolíferas vitais, como centrais de processamento e terminais de exportação, poderia convulsionar o mercado de petróleo por um bom tempo.

Com esses ataques, o Irã aglutina os países árabes vizinhos contra si, o que é um risco. Porém, faz também com que esses países sofram economicamente e pressionem os EUA a encerrar a operação militar contra Teerã. O espaço aéreo e aeroportos do Golfo Pérsico foram fechados. Milhares de voos estão sendo cancelados. Vários governos pelo mundo estão recomendando que seus cidadãos deixem a região.

Países que dependem de energia importada, como os europeus, a China e a Índia, também vão sofrer com o petróleo e o gás mais caros. Eles certamente buscarão demover o governo americano de continuar com os ataques ao Irã por muito tempo.

Mas o foco principal dos iranianos deve ser as bombas de gasolina nos EUA. A economia é o tema mais importante das eleições deste ano para o Congresso americano, em especial a crise do custo de vida (affordability é a palavra do momento no país). Altas nos combustíveis são rapidamente repassadas aos preços de produtos e serviços, o que pode gerar um repique da inflação. Uma alta da inflação ameaçaria a redução dos juros.

O preço da gasolina está em alta desde janeiro nos EUA, revertendo tendência de queda que vinha de setembro. Parte desse aumento é sazonal, mas a alta do petróleo também vem ajudando a puxar preços. O galão de gasolina superou ontem US$ 3 dólares, pela primeira vez desde novembro. O preço continua abaixo do de um ano atrás, mas analistas preveem que deve continuar subindo.

Nada disso melhorará o humor dos eleitores americanos, cuja maioria já desaprova a condução da economia por Trump. Segundo pesquisa Reuters/Ipsos do fim de semana, 43% dos americanos condenaram o ataque ao Irã, 27% aprovaram e 30% não tinham opinião. Esses indecisos podem se voltar contra Trump caso os preços dos combustíveis subam.

Os EUA buscam declaradamente uma troca do regime iraniano. Já o Irã parece ameaçar Trump com uma troca no comando do Congresso americano. Washington pode estar apostando que os iranianos não ousarão ir às últimas consequências ou que não terão armamento suficiente para isso. Teerã vai tentar nestes dias demonstrar o contrário, que o regime acuado fará qualquer coisa para se manter no poder. Quem vai piscar primeiro?

 

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