domingo, 29 de março de 2026

Como se faz um presidente, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Chega nesta semana às livrarias a segunda parte da biografia de Lula escrita por Fernando Morais. O novo volume narra o período entre a campanha das Diretas e a conquista do Planalto. É uma história de persistência. O ex-metalúrgico perdeu três disputas presidenciais até vencer a quarta, em 2002.

A escalada começou em 1989, na primeira eleição direta pós-ditadura. Forjado na luta sindical, o candidato do PT assustou as elites com ideias tachadas de radicais. Falava em reforma agrária, tabelamento de lucros, suspensão do pagamento da dívida externa.

Depois de superar Leonel Brizola por menos de 500 mil votos, Lula passou ao segundo turno contra Fernando Collor. Na reta final, deixou-se abater por golpes abaixo da cintura. Os mais duros foram desferidos por Miriam Cordeiro, mãe de sua filha Lurian, na propaganda de TV do adversário.

Derrotado, Lula assistiu de camarote ao escândalo que derrubou Collor. Depois recusou-se a participar do governo de Itamar Franco e começou a costurar uma chapa com Tasso Jereissati, do PSDB. O petista entrou em 1994 como franco favorito. “Durante os primeiros meses da campanha, Lula era o virtual presidente da República, sem nada no horizonte que pudesse ameaçar a vitória que parecia ao alcance da mão”, escreve Morais.

Tudo mudou com o lançamento de uma nova moeda, que catapultaria a popularidade do ministro Fernando Henrique Cardoso. “O Plano Real passou por cima da candidatura de Lula como um trem descontrolado”, resume o biógrafo. Atordoados, os petistas tentaram desacreditar o plano como “cruzado dos ricos” e “estelionato eleitoral”. A aposta se mostrou desastrada, e o tucano venceu no primeiro turno.

O novo fiasco quase levou o ex-metalúrgico a desistir do sonho presidencial. “Eu é que sei o sofrimento que foi”, desabafa Lula a Morais. “Perdi e falei para mim mesmo: porra, não dá mais, vou desistir disso”. Frustrado, ele se afastou da direção do partido e disse que não seria mais candidato. Mudou de ideia para montar uma chapa com Brizola, seu antigo rival na disputa pelos votos da esquerda.

A campanha de 1998 começou com o PT em ebulição. Com a aliança em risco, Lula ordenou uma intervenção no diretório do Rio para barrar a candidatura de Vladimir Palmeira e impor o apoio a Anthony Garotinho, do PDT. “Não posso ser candidato pela terceira vez apenas para marcar posição”, justificou. A economia patinava, mas FH manteve o real sobrevalorizado e venceu de novo no primeiro tuno.

Em 2002, Lula abraçou o pragmatismo e conduziu uma guinada do PT ao centro. Exigiu a contratação do marqueteiro Duda Mendonça, uniu-se ao empresário José Alencar e beijou a cruz do mercado com a “Carta ao povo brasileiro”. Morais reconstitui a reunião com Valdemar Costa Neto que formalizou a aliança PT-PL, impensável nos dias de hoje. Mais tarde, o acerto financeiro entre os dois partidos ficaria conhecido como a origem do mensalão.

Na quarta tentativa, Lula finalmente chegou lá. Sem disfarçar a admiração pelo biografado, o biógrafo conclui o livro em tom épico: “Em mais de cem anos de República, pela primeira vez um operário iria ocupar a Presidência do Brasil”.

 

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