O Globo
Chega nesta semana às livrarias a segunda
parte da biografia de Lula escrita por Fernando Morais. O novo volume narra o
período entre a campanha das Diretas e a conquista do Planalto. É uma história
de persistência. O ex-metalúrgico perdeu três disputas presidenciais até vencer
a quarta, em 2002.
A escalada começou em 1989, na primeira eleição direta pós-ditadura. Forjado na luta sindical, o candidato do PT assustou as elites com ideias tachadas de radicais. Falava em reforma agrária, tabelamento de lucros, suspensão do pagamento da dívida externa.
Depois de superar Leonel Brizola por menos de
500 mil votos, Lula passou ao segundo turno contra Fernando Collor. Na reta
final, deixou-se abater por golpes abaixo da cintura. Os mais duros foram
desferidos por Miriam Cordeiro, mãe de sua filha Lurian, na propaganda de TV do
adversário.
Derrotado, Lula assistiu de camarote ao
escândalo que derrubou Collor. Depois recusou-se a participar do governo de
Itamar Franco e começou a costurar uma chapa com Tasso Jereissati, do PSDB. O
petista entrou em 1994 como franco favorito. “Durante os primeiros meses da
campanha, Lula era o virtual presidente da República, sem nada no horizonte que
pudesse ameaçar a vitória que parecia ao alcance da mão”, escreve Morais.
Tudo mudou com o lançamento de uma nova
moeda, que catapultaria a popularidade do ministro Fernando Henrique Cardoso.
“O Plano Real passou por cima da candidatura de Lula como um trem
descontrolado”, resume o biógrafo. Atordoados, os petistas tentaram
desacreditar o plano como “cruzado dos ricos” e “estelionato eleitoral”. A
aposta se mostrou desastrada, e o tucano venceu no primeiro turno.
O novo fiasco quase levou o ex-metalúrgico a
desistir do sonho presidencial. “Eu é que sei o sofrimento que foi”, desabafa
Lula a Morais. “Perdi e falei para mim mesmo: porra, não dá mais, vou desistir
disso”. Frustrado, ele se afastou da direção do partido e disse que não seria
mais candidato. Mudou de ideia para montar uma chapa com Brizola, seu antigo
rival na disputa pelos votos da esquerda.
A campanha de 1998 começou com o PT em
ebulição. Com a aliança em risco, Lula ordenou uma intervenção no diretório do
Rio para barrar a candidatura de Vladimir Palmeira e impor o apoio a Anthony
Garotinho, do PDT. “Não posso ser candidato pela terceira vez apenas para
marcar posição”, justificou. A economia patinava, mas FH manteve o real
sobrevalorizado e venceu de novo no primeiro tuno.
Em 2002, Lula abraçou o pragmatismo e
conduziu uma guinada do PT ao centro. Exigiu a contratação do marqueteiro Duda
Mendonça, uniu-se ao empresário José Alencar e beijou a cruz do mercado com a
“Carta ao povo brasileiro”. Morais reconstitui a reunião com Valdemar Costa
Neto que formalizou a aliança PT-PL, impensável nos dias de hoje. Mais tarde, o
acerto financeiro entre os dois partidos ficaria conhecido como a origem do
mensalão.
Na quarta tentativa, Lula finalmente chegou
lá. Sem disfarçar a admiração pelo biografado, o biógrafo conclui o livro em
tom épico: “Em mais de cem anos de República, pela primeira vez um operário
iria ocupar a Presidência do Brasil”.

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