sexta-feira, 13 de março de 2026

Cony aos incríveis 100, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Ele via a morte como uma pândega. O homem que se dizia terminal parecia cada vez mais inaugural

Ativo até o fim, aos 92 anos, Cony seria o primeiro a desmoralizar o seu próprio centenário

Já contei esta história. Em 2012, coordenando um ciclo no Sesi, em São Paulo, sobre o centenário de Nelson Rodrigues, convidei Carlos Heitor Cony a participar de um dos debates. Cony, com 86 anos, tinha um câncer linfático crônico, cujo tratamento lhe provocava um enfraquecimento que o obrigava à cadeira de rodas. Mas sua cabeça continuava atilada, surpreendente e com a molecagem intacta. Aceitou e tomou o avião no Santos-Dumont.

Ao chegar de carro ao prédio da avenida Paulista, onde se daria o debate, Cony foi recebido na garagem pelas moças da produção. Elas o observaram ser descido a custo do veículo e colocado na cadeira de rodas. Uma delas perguntou, aflita: "Está tudo bem, Dr. Cony?". E Cony, grave, quase tumular: "Não passo desta noite".

Deu-se um alarido. Elas acreditaram e acharam que ele podia morrer ali mesmo, na porta dos elevadores, ou no meio do evento. Uma quase começou a chorar. Tive de me meter e dizer que Cony estava brincando, que estava ótimo, nada aconteceria. E, de fato, não só nada aconteceu como Cony roubou a noite na mesa do debate, usando Nelson Rodrigues como pretexto para falar de jornalismo, censura, coragem, liberdade de opinião —o que, de certa forma, era a história dele próprio.

Cony parecia ver a morte como uma pândega. Em começos dos anos 90, recém-saído de um câncer de próstata mais do que resolvido, ele às vezes aparteava a si próprio para dizer: "Você sabe, Ruy. Sou um homem terminal". Minha ignorância a respeito de câncer me fazia achar que ele estava falando sério. Mas os anos se passavam e o homem terminal parecia cada vez mais inaugural. Em 1995, seu romance "Quase Memória", o primeiro em mais de 20 anos de silêncio no gênero, devolveu-o com estrondo à literatura e o fez atravessar, vivíssimo, as muitas noites de que dizia que "não passaria".

Cony morreu em 2018, às vésperas dos 92 anos, ativo até demais. Custo a crer que, neste sábado (14), ele faria 100. Por um motivo: Cony seria o primeiro a desmoralizar o seu próprio centenário.

 

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