Folha de S. Paulo
Ministro usa guerra no Irã como pretexto para
pedir mais verbas
Reunir poderio bélico para dissuadir EUA de
ataque não é meta realista
O ministro da Defesa, José Mucio, se valeu da guerra no Irã para pedir mais recursos para as Forças Armadas. Na visão de Mucio, a escalada bélica no Oriente Médio mostra que o Brasil precisa ampliar seu poder de dissuasão militar. Investimos hoje 1% do PIB em defesa e, no entender do ministro, precisaríamos aplicar no mínimo 2%. Ele diz que há países gastando até 7% nessa rubrica.
Eu não poderia discordar mais. No mínimo, o
ministro escolheu o pretexto errado. Ampliar nosso poderio a ponto de dissuadir
os EUA de nos atacarem exigiria investir por décadas 100% do PIB. Não vai
acontecer. Nenhum país do mundo tem hoje bala na agulha para derrotar os
americanos num mano a mano militar convencional. E não acho que seja o caso de
apelar para bombas atômicas ou para a guerra química e biológica.
O que podemos ambicionar realisticamente em
termos de defesa é reunir poderio bélico para dissuadir nossos vizinhos de nos
atacarem. E, para isso, não precisamos investir muito mais do que o 1%. Vale
lembrar que, diferentemente de outras nações, não temos nenhum grande
contencioso territorial com ninguém. De todo modo, se o establishment militar
quiser mais dinheiro para projetos estratégicos, é só reduzir os gastos com
aposentadorias, que seguem lógica perdulária.
O fato de os EUA possuírem as mais
formidáveis Forças Armadas do planeta não garante que vençam todos os conflitos
em que se metem. Eles perderam há pouco a guerra no Afeganistão, um
"investimento" de 20 anos e US$ 2,3 trilhões. Se os EUA são
militarmente quase imbatíveis, são sensíveis política e economicamente. Um país
que tenha disposição para enfrentá-los por um longo tempo, mesmo sofrendo
grande devastação, acaba por esgotar a paciência do público americano e da Casa
Branca —especialmente se o conflito cobrar a vida de soldados dos EUA e gerar
algum ônus econômico.
A Venezuela preferiu não fazer essa aposta.
O Irã parece
ir pelo caminho oposto. Se a tolerância dos americanos a perdas é baixa, a
de Donald Trump é
menor ainda.
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