sexta-feira, 13 de março de 2026

O Brasil deveria gastar mais em defesa? Por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Ministro usa guerra no Irã como pretexto para pedir mais verbas

Reunir poderio bélico para dissuadir EUA de ataque não é meta realista

O ministro da Defesa, José Mucio, se valeu da guerra no Irã para pedir mais recursos para as Forças Armadas. Na visão de Mucio, a escalada bélica no Oriente Médio mostra que o Brasil precisa ampliar seu poder de dissuasão militar. Investimos hoje 1% do PIB em defesa e, no entender do ministro, precisaríamos aplicar no mínimo 2%. Ele diz que há países gastando até 7% nessa rubrica.

Eu não poderia discordar mais. No mínimo, o ministro escolheu o pretexto errado. Ampliar nosso poderio a ponto de dissuadir os EUA de nos atacarem exigiria investir por décadas 100% do PIB. Não vai acontecer. Nenhum país do mundo tem hoje bala na agulha para derrotar os americanos num mano a mano militar convencional. E não acho que seja o caso de apelar para bombas atômicas ou para a guerra química e biológica.

O que podemos ambicionar realisticamente em termos de defesa é reunir poderio bélico para dissuadir nossos vizinhos de nos atacarem. E, para isso, não precisamos investir muito mais do que o 1%. Vale lembrar que, diferentemente de outras nações, não temos nenhum grande contencioso territorial com ninguém. De todo modo, se o establishment militar quiser mais dinheiro para projetos estratégicos, é só reduzir os gastos com aposentadorias, que seguem lógica perdulária.

O fato de os EUA possuírem as mais formidáveis Forças Armadas do planeta não garante que vençam todos os conflitos em que se metem. Eles perderam há pouco a guerra no Afeganistão, um "investimento" de 20 anos e US$ 2,3 trilhões. Se os EUA são militarmente quase imbatíveis, são sensíveis política e economicamente. Um país que tenha disposição para enfrentá-los por um longo tempo, mesmo sofrendo grande devastação, acaba por esgotar a paciência do público americano e da Casa Branca —especialmente se o conflito cobrar a vida de soldados dos EUA e gerar algum ônus econômico.

A Venezuela preferiu não fazer essa aposta. O Irã parece ir pelo caminho oposto. Se a tolerância dos americanos a perdas é baixa, a de Donald Trump é menor ainda.

 

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