segunda-feira, 23 de março de 2026

Críticas de Lula ao BC partem de mau conselho, por Alex Ribeiro

Valor Econômico

Críticas de Lula partem de um diagnóstico, nos círculos palacianos, de que o BC é um dos responsáveis pela queda da popularidade do presidente

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou, na semana passada, o corte de apenas 0,25 ponto percentual na taxa básica de juros, para 14,75% ao ano. Ele queria 0,5 ponto. Não é o único ataque ao Banco Central, presidido por Gabriel Galípolo, que, durante o período eleitoral, tende a ficar mais isolado.

A queixa de Lula não foi improvisada. Ela parte de um diagnóstico, que surgiu nas reuniões palacianas com a ala política e representantes da equipe econômica, de que o BC é um dos responsáveis pela queda da popularidade do presidente e pelo avanço do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) nas pesquisas para as eleições deste ano.

O erro de diagnóstico ficou claro já na sexta-feira, com a forte alta dos juros futuros, subida do dólar e queda da Bolsa. Os mercados começaram a precificar chances de altas de juros nos Estados Unidos, Europa e Inglaterra, em virtude das incertezas causadas pela guerra no Oriente Médio.

Na semana passada, com o corte de 0,25 ponto percentual na taxa Selic, de 15% ao ano para 14,75% ao ano, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central aplicou a cartilha básica para momentos como o atual: não fazer movimentos bruscos para não adicionar mais incerteza e estimular ainda mais volatilidade nos preços.

Até esse novo choque internacional, o Banco Central caminhava para uma baixa de 0,5 ponto percentual na Selic. Mas o acirramento da guerra - e o bloqueio do Estreito de Ormuz - fez o mercado reprecificar o corte de juros para 0,25 ponto.

Se o Copom tivesse cortado os juros em 0,5 ponto, seguindo a vontade do presidente Lula, a crise não seria apenas no Oriente Médio. Passaria a ser também nossa. O Copom teve a atitude prudente, por outro lado, de não manter os juros básicos inalterados na semana passada - isso, provavelmente, também intensificaria o encerramento de posições de quem apostava na queda da Selic e, com isso, seria fabricada uma crise aqui dentro.

Quem entendeu o que está acontecendo é o Tesouro Nacional, que recomprou dezenas de bilhões de reais em títulos públicos. Nos últimos meses, investidores estrangeiros e nacionais reforçaram a aposta na queda da Selic. Com a guerra, esse cenário ficou mais incerto - e havia uma corrida para encerrar posições num mercado que tinha uma só direção.

O Tesouro, corretamente, não deu saída para o mercado num primeiro momento, o que significa que os investidores sofreram algumas perdas, e os juros negociados em mercado migraram para um nível mais alto para precificar corretamente os riscos. Sua entrada, com os leilões de recompra de títulos, ocorreu quando o mercado começou a ficar disfuncional.

Não há nenhuma inovação nessa forma de atuar. Nos períodos de crise, o Banco Central e o Tesouro devem agir sobretudo para garantir o bom funcionamento do mercado, mas sem afetar preços. O Copom deve se mexer com cautela até que o quadro fique mais claro e seja possível averiguar se a dose de juros é adequada à situação.

Um corte mais forte de juros neste momento passaria a mensagem de que o Tesouro e o próprio Banco Central estão atuando no mercado para permitir juros mais baixos na marra. Nessas circunstâncias, o próprio mercado ampliaria as apostas contra o real. Em vez de R$ 5,3085, como fechou na sexta-feira, a cotação rumaria para o patamar de R$ 6,00.

O fato de o Copom ter dosado a queda de juros na semana passada não significa necessariamente que não há espaço para os juros caírem mais. O comitê deixou as opções em aberto para a próxima reunião, que ocorre no fim de abril, dependendo do que ocorrer até lá. Mas há uma certeza: se tivesse feito uma barbeiragem agora, aí, sim, o espaço para queda da taxa básica de juros seria menor.

Não é só uma certa incapacidade de ler o cenário econômico que chama a atenção no diagnóstico dos círculos palacianos. O argumento de que o Banco Central é o responsável pela queda da popularidade e pelas dificuldades eleitorais de Lula simplesmente não é apoiado pelos fatos concretos.

A queda da inflação, no ano passado, foi um dos principais fatores da recuperação da popularidade. Permitiu ganhos reais de renda, depois de a forte alta de preços de alimentos ter afetado sobretudo os mais pobres. Isso se reflete nos dados das pesquisas de opinião, que mostram que a situação da economia hoje não é o tema mais citado pelos eleitores.

O Banco Central, pelo menos por enquanto, está sendo bem-sucedido em fazer um pouso suave da economia, que crescia acima de sua capacidade e provocava pressões generalizadas de custos. O desemprego segue no menor patamar da série histórica. É verdade que a tendência é que o mercado de trabalho apresente algum enfraquecimento, mas isso é algo que os economistas vêm prevendo há vários trimestres e, até agora, não aconteceu.

O Brasil não é o único país que apresenta um mercado de trabalho forte, com certa imunidade aos juros altos, mas isso não quer dizer que o Banco Central não tenha méritos. Os juros estavam em 15% ao ano, maior patamar em duas décadas, mas sempre foram menores do que seus modelos de projeção de inflação indicavam ser necessário para colocar a inflação na meta de 3% no chamado horizonte relevante de política monetária.

Na prática, o Banco Central optou por uma política monetária mais cautelosa, de manter juros altos por muito tempo, em vez de um pico ainda mais elevado na taxa - que poderia resolver mais rapidamente o problema da inflação, mas aumentaria o risco de recessão. Por enquanto, a estratégia está dando certo.

Até agora, as críticas ao BC vinham do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e tinham mais a ver com as tensões entre a política fiscal e a política monetária. A Fazenda, historicamente, sempre preferiu juros baixos, e isso não é exclusividade da gestão Haddad. As críticas ganham cores políticas agora que Haddad vai disputar o governo de São Paulo e é sucedido pelo secretário-executivo, Dario Durigan.

O BC é independente, parece bem fechado em torno de sua estratégia para a política monetária e não tem chances de ceder a pressões políticas. Ainda assim, a cada ataque público do presidente, um pouco de sua credibilidade fica afetada - e maiores são os custos para a política monetária colocar a inflação na meta.

 

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