Folha de S. Paulo
Mais um ciclo eleitoral vem e o Brasil continua
preso na polarização de lulismo e bolsonarismo
Lula e Flávio são a expressão da nossa
democracia, em que poucos eleitores sabem os projetos de seus candidatos
A desistência
de Ratinho Jr. da corrida presidencial é o reconhecimento de
que as chances da terceira via são diminutas. De que vale o desgaste para
terminar com 5%? Mais um ciclo eleitoral vem e o Brasil continua preso na
polarização de lulismo e bolsonarismo (ou seus ungidos).
Isso contraria muitas intuições de como o eleitor escolhe, ou deveria escolher.
Uma ideia muito difundida é a seguinte: o eleitor tem suas preferências de
projetos de lei e políticas públicas. Os candidatos apresentam seus planos. Com
as propostas em mãos, o eleitor escolhe o candidato que mais se aproxima de
suas preferências. Se, futuramente, aparecer um novo candidato cujas propostas
são ainda mais próximas das suas, ele mudará seu voto. Será que Flávio
e Lula têm as melhores propostas?
No mundo real, contudo, poucos sequer sabem
os projetos de seus candidatos. O mais comum é o fenômeno oposto: o eleitor tem
o seu político preferido, a quem ele vai seguir como a um líder; e é ele
próprio, eleitor, que mudará suas preferências para melhor se adequar ao que o
líder faz. Em uma pesquisa feita entre 13 e 16 de junho de 2025 —antes dos
primeiros bombardeios americanos ao Irã—, apenas 23% dos Republicanos eram
favoráveis ao envolvimento
americano no conflito Israel-Irã. Menos de um ano depois, numa
pesquisa nacional da Universidade Quinnipiac entre 6 a 8 de março, 85% dos
Republicanos apoiavam ação militar
contra o Irã que Trump já havia iniciado.
Pesquisa após pesquisa mostra que, no que diz respeito a políticas públicas, a
divergência dos eleitores não é tão grande assim. Pois não é isso que está em
disputa, e sim um ponto mais elementar: quem terá o poder. Mas a polarização
não se dá aí, e sim na identificação de um grupo a que pertenço e, portanto, de
um outro grupo a quem me oponho. Amigos e inimigos, nós e eles.
Nossa lembrança de tempos menos polarizados é a lembrança de um tempo em que
apenas uma pequena elite cultural tinha voz pública, no meio restrito da mídia
de massas. A discussão se dava nos termos dela, não do povo, que assistia
inerte. Hoje, somos todos participantes ativos dessa guerra tribal em larga
escala.
A ideia de
democracia pintada por Habermas —um espaço público em que
indivíduos discutem suas diferentes ideias, e no qual o melhor argumento
ganha—, embora um ideal sempre a nos inspirar, está muito distante da realidade
do que é uma democracia. Foi a percepção dessa distância que levou o jovem
Platão —ou pelo menos é o que ele relata em sua Carta 7—, após a decepção com
sua incapacidade de intervir na política de Atenas, a concluir que "não
haverá fim aos males da humanidade até que aqueles que buscam a filosofia
correta e verdadeira recebam o poder soberano nos Estados, ou até que aqueles
no poder se tornem verdadeiros filósofos".
E, no entanto, contra Platão e
a favor de Habermas, é justamente na democracia, nessa gritaria irracional de
propaganda, retórica, sofistas e conflitos tribais, que a humanidade mais
progride. No longo prazo, os avanços ficam, os erros tendem a se enfraquecer.
Os reinados eternos de filósofos iluminados, ao contrário, tendem a estagnar.
Alguns sonham, hoje, com 2030, quando nem Lula nem
Bolsonaro serão candidatos. A humanidade, contudo, continuará a mesma.

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