terça-feira, 24 de março de 2026

Desistência de Ratinho Jr. é reconhecimento de que chances da terceira via são diminutas, por Joel Pinheiro da Fonseca

Folha de S. Paulo

Mais um ciclo eleitoral vem e o Brasil continua preso na polarização de lulismo e bolsonarismo

Lula e Flávio são a expressão da nossa democracia, em que poucos eleitores sabem os projetos de seus candidatos

desistência de Ratinho Jr. da corrida presidencial é o reconhecimento de que as chances da terceira via são diminutas. De que vale o desgaste para terminar com 5%? Mais um ciclo eleitoral vem e o Brasil continua preso na polarização de lulismo e bolsonarismo (ou seus ungidos).

Isso contraria muitas intuições de como o eleitor escolhe, ou deveria escolher. Uma ideia muito difundida é a seguinte: o eleitor tem suas preferências de projetos de lei e políticas públicas. Os candidatos apresentam seus planos. Com as propostas em mãos, o eleitor escolhe o candidato que mais se aproxima de suas preferências. Se, futuramente, aparecer um novo candidato cujas propostas são ainda mais próximas das suas, ele mudará seu voto. Será que Flávio e Lula têm as melhores propostas?

No mundo real, contudo, poucos sequer sabem os projetos de seus candidatos. O mais comum é o fenômeno oposto: o eleitor tem o seu político preferido, a quem ele vai seguir como a um líder; e é ele próprio, eleitor, que mudará suas preferências para melhor se adequar ao que o líder faz. Em uma pesquisa feita entre 13 e 16 de junho de 2025 —antes dos primeiros bombardeios americanos ao Irã—, apenas 23% dos Republicanos eram favoráveis ao envolvimento americano no conflito Israel-Irã. Menos de um ano depois, numa pesquisa nacional da Universidade Quinnipiac entre 6 a 8 de março, 85% dos Republicanos apoiavam ação militar contra o Irã que Trump já havia iniciado.

Pesquisa após pesquisa mostra que, no que diz respeito a políticas públicas, a divergência dos eleitores não é tão grande assim. Pois não é isso que está em disputa, e sim um ponto mais elementar: quem terá o poder. Mas a polarização não se dá aí, e sim na identificação de um grupo a que pertenço e, portanto, de um outro grupo a quem me oponho. Amigos e inimigos, nós e eles.

Nossa lembrança de tempos menos polarizados é a lembrança de um tempo em que apenas uma pequena elite cultural tinha voz pública, no meio restrito da mídia de massas. A discussão se dava nos termos dela, não do povo, que assistia inerte. Hoje, somos todos participantes ativos dessa guerra tribal em larga escala.

ideia de democracia pintada por Habermas —um espaço público em que indivíduos discutem suas diferentes ideias, e no qual o melhor argumento ganha—, embora um ideal sempre a nos inspirar, está muito distante da realidade do que é uma democracia. Foi a percepção dessa distância que levou o jovem Platão —ou pelo menos é o que ele relata em sua Carta 7—, após a decepção com sua incapacidade de intervir na política de Atenas, a concluir que "não haverá fim aos males da humanidade até que aqueles que buscam a filosofia correta e verdadeira recebam o poder soberano nos Estados, ou até que aqueles no poder se tornem verdadeiros filósofos".

E, no entanto, contra Platão e a favor de Habermas, é justamente na democracia, nessa gritaria irracional de propaganda, retórica, sofistas e conflitos tribais, que a humanidade mais progride. No longo prazo, os avanços ficam, os erros tendem a se enfraquecer. Os reinados eternos de filósofos iluminados, ao contrário, tendem a estagnar. Alguns sonham, hoje, com 2030, quando nem Lula nem Bolsonaro serão candidatos. A humanidade, contudo, continuará a mesma.

 

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