terça-feira, 24 de março de 2026

Ruim, mas deve piorar, por Jorge J. Okubaro

O Estado de S. Paulo

Se o diretor-geral da AIE prevê que a crise atual do petróleo pode ser a pior da história, pode-se imaginar o que está a rondar a economia mundial

“A maior ameaça à segurança energética global da história.” Foi assim que, em entrevista ao jornal britânico Financial Times na semana passada, o diretor-executivo da Agência Internacional de Energia (AIE), Fatih Birol, avaliou os impactos sobre a economia mundial da guerra entre os Estados Unidos-Israel e o Irã. Segundo Birol, dirigentes políticos e agentes dos principais mercados mundiais estão subestimando a dimensão da crise causada pelo fato de que, na prática, com o fechamento do estreito de Ormuz, cerca de um quinto do petróleo consumido no mundo está retido na área do conflito.

A declaração talvez assuste quem conhece a história relativamente recente do mercado mundial de petróleo e gás. Em outubro de 1973, os integrantes da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), mais Egito e Síria, declararam embargo ao fornecimento do óleo para os países que haviam apoiado Israel na chamada guerra do Yom Kippur. Em 6 de outubro, dia do Yom Kippur (feriado israelense), tropas da Síria e do Egito tentaram retomar terras que Israel ocupava desde a guerra de 1967, mas foram repelidas. O preço do petróleo quadruplicou, passando de US$ 3 para US$ 12 o barril.

Esse ficou conhecido como o primeiro choque do petróleo. O segundo ocorreu em 1979, quando o governo corrupto do xá do Irã, Reza Pahlavi, foi deposto e em seu lugar assumiu o aiatolá Khomeini, que impôs um governo islâmico conservador e desorganizou o setor de petróleo do país, que é grande produtor mundial. Em pouco mais de um ano, o preço do barril do óleo passou de US$ 13 para US$ 34.

Em sete anos, o preço do petróleo foi multiplicado por 11. Dá para imaginar como isso afetou o mundo. No Brasil, medidas duras foram adotadas, como limite de velocidade de 80 quilômetros por hora nas rodovias e proibição de venda de combustíveis aos fins de semana. Para assegurar o funcionamento da economia, o governo do general Ernesto Geisel optou pela criação de um programa que reduzisse com a presteza e a intensidade necessárias à dependência nacional do petróleo importado (a produção interna mal supria 15% da demanda). Assim, em 1975, foi criado o Programa Nacional do Álcool (Proálcool), que levaria o Brasil à posição de destaque mundial na utilização de fontes de energia renováveis e de baixo teor de carbono.

Com a segunda crise, para conter a inflação, o então presidente do Federal Reserve (banco central norte-americano), Paul Volcker, elevou os juros internos, já altos, de 10,94% para 19,01%. O impacto mundial foi imediato. Nações devedoras, como o Brasil, começaram a quebrar em 1982, dando origem à crise da dívida dos países em desenvolvimento, com forte impacto sobre sua vida econômica. Esses países pagaram alto custo por muito tempo: inflação, baixo crescimento, perda de renda.

Se, ainda assim, o diretorgeral da AIE prevê que a crise atual do petróleo pode ser a pior da história, pode-se imaginar o que está a rondar a economia mundial. Efeitos imediatos são visíveis. O barril do petróleo chegou a ser vendido a US$ 120 na semana passada, cerca de 40% mais caro do que antes do início da guerra. Não há sinais de estabilização ou de retorno gradual à situação anterior. Empresas aéreas enfrentam ameaça de escassez e da alta do combustível de aviação. Derivados de petróleo sobem. Transportes ficam mais caros. Preços de insumos essenciais da agricultura, como adubos, explodem e ameaçam o preço da comida em todo o mundo. Produtos petroquímicos utilizados por diferentes indústrias igualmente encarecem.

“Praticamente todos acabarão prejudicados pelos efeitos sobre a inflação, a demanda e a distribuição de renda”, advertiu na semana passada o principal colunista do Financial Times, Martin Wolf. O impacto já chegou aqui. No Brasil, o Banco Central, por prudência, avisou que “o processo de calibração da Selic” vai depender da evolução da guerra no Oriente Médio, o que exige “cautela”. Assim, em vez de cair meio ponto porcentual, a Selic foi reduzida em apenas 0,25 ponto, para decepção de quem precisa de crédito, empresa ou consumidor.

Onde isso vai chegar? É a pergunta que se fazem pessoas responsáveis, antevendo algo sombrio no horizonte. Mas o que estará pensando o grande responsável por esse novo cenário mundial? Provavelmente, sua única preocupação agora seja salvar sua própria pele, do ponto de vista político. Donald Trump, esse é o nome dele, parece perdido. Vocifera contra antigos aliados, chamando a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) – criada sobretudo por inspiração dos Estados Unidos para isolar militarmente a antiga União Soviética – de “covarde” por se recusar a apoiá-lo nessa aventura militar por ele iniciada sem objetivo claro. Faz ameaças vagas e corrói a confiança de que os Estados Unidos gozavam junto a seus aliados. Mas, ainda que precise, Trump não sabe como acabar o desastre que iniciou. Pior para o mundo. •

 

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