Folha de S. Paulo
As comissões parlamentares de inquérito estão
sendo gradativamente esvaziadas e desmoralizadas
A desconstrução em parte é obra dos próprios
políticos, em parte culpa das interferências por interesses ocultos
Pode ser coincidência ou mera impressão, mas
que determinadas atitudes de ministros do Supremo e dos presidentes da Câmara e
do Senado espalham
um aroma de operação abafa no ar de Brasília, isso
é evidente.
No STF anulam-se quebras de sigilo aprovadas em comissões de inquérito e liberam-se convidados e convocados de comparecer a CPIs enquanto no Congresso o deputado Hugo Motta (Republicanos) e o senador Davi Alcolumbre (União Brasil) interditam a prorrogação da CPMI do INSS e impedem investigações sobre o Banco Master.
Os argumentos apresentados têm lá seus
fundamentos, mas o resultado prático é que a prerrogativa dos parlamentares de
fazer investigações no âmbito político está sendo cassada. Muito se diz sobre a
perda de utilidade de comissões de inquérito, usadas como meio de exibicionismo
e outras razões mais gravosas.
É verdade, mas essa deformidade não será
corrigida a poder da imposição de restrições que paralisam os trabalhos e
aprisionam as CPIs na condição de mero circo. Quando parlamentares sérios são
impedidos de fazer o que lhes confere a Constituição,
uma das funções do Poder Legislativo é revogada pela falta de uso.
Pode ser só impressão, mas parece que há
interesses escusos no descrédito das comissões de inquéritos. Se há os
baderneiros que tumultuam o ambiente, que o comando do Parlamento tome
providências contra eles. Ou a gritaria, a pancadaria e os abusos não
configuram quebra de decoro?
Não fosse a visibilidade dessas comissões,
não teríamos a cassação dos anões do Orçamento, a descoberta do Fiat Elba que
derrubou Fernando Collor, as condenações do mensalão a partir dos depoimentos
na CPI dos Correios. São
exceções e, como tais, justificam a regra desse tipo de investigação.
Poderia ser, mas não é coincidência que
daqueles tempos para cá não tenhamos visto efetividade nos inquéritos
parlamentares. Em parte, por culpa dos próprios; em grande parte —talvez a
maior— devido a interferências travestidas de respeito ao devido processo
legal.

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