Aposentadoria especial é distorção sem cabimento
Por O Globo
Quatro em cada dez aposentados brasileiros
saem da ativa antes da idade mínima válida para os demais
Uma das principais distorções da Previdência no Brasil é a concessão de aposentadoria a grupos específicos antes do prazo em vigor para todos os demais. É o caso de benefícios concedidos a trabalhadores rurais, professores e profissionais expostos a agentes nocivos. Eles respondem por 38,7% das aposentadorias por idade e tempo de contribuição no Brasil, como constatou reportagem do jornal Valor Econômico. Na esfera estadual brasileira, professores da educação básica são quatro em dez aposentados. Não há paralelo em nenhum país comparável ao Brasil.
Tome-se o exemplo da Grécia, país da Europa
mais generoso em matéria de aposentadorias especiais. Lá elas não chegam a 12%
do total. A média dos demais países do bloco europeu fica entre 5% e 8%, em
geral para casos que realmente se justificam (profissionais cuja expectativa de
vida é afetada pela atividade). Em vários, tem havido convergência entre as
regras adotadas para civis e militares. Por aqui, qualquer tentativa de reduzir
as benesses dos servidores das Forças Armadas costuma esbarrar em resistências
intransponíveis. “Enquanto em muitos países tem havido convergência, no Brasil
a reforma de 2019 e outras mudanças legislativas que a antecederam ampliaram as
diferenças em favor dos militares”, diz estudo do economista Rogério Nagamine
Costanzi, do Ipea.
A justificativa sensata para aposentadoria
antecipadas é compensar quem exerce atividade prejudicial à saúde, que diminui
a expectativa de vida. Mas é sempre difícil avaliar efeitos nocivos e
estabelecer relação de causa e efeito entre a profissão e a vida mais curta. No
fim, acaba pesando mais a capacidade de mobilização dos grupos de pressão. Não
é porque um trabalho exige fisicamente que haverá prejuízo à saúde ou à
expectativa de vida — trabalhadores rurais podem levar vida mais saudável que a
dos sedentários urbanos. Sem contar os avanços tecnológicos, que têm
transformado o dia a dia no campo, não apenas nas grandes propriedades. A
disseminação de máquinas agrícolas torna as atividades menos árduas e mais
produtivas. Tal transformação não se reflete nas leis. A reforma da Previdência
de 2019 avançou em várias frentes, mas manteve as distorções na aposentadoria
rural (continua valendo o limite de 60 anos para homens e 55 para mulheres,
ante 65 e 62 na cidade).
O caso dos professores também chama a
atenção. Embora o convívio com estudantes possa ser desgastante e trazer
prejuízo à saúde mental, não há comprovação de que o magistério afete de modo
negativo a longevidade. Ainda assim, a categoria desfruta aposentadoria
antecipada. De 1988 até 2019, não havia nem idade mínima para que se
aposentassem. Depois da reforma, passou a valer 60 anos para homens e 57 para
mulheres (cinco a menos), com regras de transição. Muitos estados e municípios
nunca adotaram a nova regra. Na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento
Econômico (OCDE), apenas seis países dão aposentadoria especial a professores.
Ao manter um leque amplo de profissões
beneficiadas com aposentadorias especiais, o Brasil acaba por incentivar uma
competição sem propósito. Todos querem entrar no grupo dos que se aposentam
mais cedo. É hora de acabar com essa insanidade. Mais um motivo para o Brasil
promover uma nova reforma da Previdência.
Fechamento de estações meteorológicas
prejudica previsão do tempo no país
Por O Globo
Desde 2020, Brasil perdeu 46% das unidades
convencionais, essenciais para séries que garantem qualidade
A rede de estações convencionais do Instituto
Nacional de Meteorologia (Inmet) tem diminuído nos últimos anos, afetando a
capacidade de previsão do tempo num momento em que o Brasil enfrenta, com
frequência e intensidade cada vez maiores, eventos climáticos extremos, como
resultado do aquecimento global. De 2020 para cá foram fechadas 83 unidades,
reduzindo o total de 180 para 97.
Neste início do ano, chuvas fortes atingiram,
segundo a Confederação Nacional de Municípios, 377 cidades, com enxurradas,
inundações, deslizamentos, mortes e milhares de desabrigados. Os maiores danos
ocorreram na Zona da Mata Mineira — em Juiz de Fora e Ubá, 72 pessoas morreram
e 4 mil foram desalojadas. Pois Minas Gerais foi justamente o estado em que
mais estações foram desativadas (17, pouco mais que as 15 da Bahia).
O encolhimento da rede afeta a base de dados
que sustenta as previsões do tempo. É certo que, além das 97 estações
convencionais, o Inmet conta com 639 automáticas. Mas 198 delas estão
inoperantes. E, mesmo mais numerosas, elas não substituem as convencionais, que
contam com instrumentos mais robustos, não precisam de aferição e manutenção
frequentes.
Os modelos de previsão do tempo dependem de
longas séries de dados colhidos sem interrupção, por isso a preferência pelas
estações convencionais, onde tudo é vigiado de perto. “Estações convencionais
são fundamentais porque formam séries históricas essenciais para testar e
validar modelos”, afirma a meteorologista Márcia Akemi Yamasoe, do Instituto de
Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP. Um tipo de estação
não substitui o outro. Os dois se complementam, de acordo com o presidente da
Sociedade Brasileira de Meteorologia, Romulo da Silveira Paz.
Um problema das estações convencionais é que
a aposentadoria de servidores do Inmet reduz a equipe de coletores de dados.
Uma que funcionava em São Simão (SP) desde 1920 foi fechada em2025, porque a
última funcionária se aposentou. Se houvesse uma política de recursos humanos
sensata, o problema não existiria. Mas a governança fragmentada da meteorologia
brasileira não ajuda.
O Inmet foi criado no século XIX, voltado para necessidades do produtor rural, e até hoje está subordinado ao Ministério da Agricultura e Pecuária. É natural que os gargalos na coleta de dados meteorológicos sejam tratados com prioridade menor. A coleta e o processamento de dados de satélites meteorológicos estão a cargo do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. O modelo brasileiro contrasta com o dos Estados Unidos, onde a Administração Nacional de Oceanos e Atmosfera (NOAA) coordena previsão do tempo, satélites, pesquisa do clima e monitoramento de oceanos e atmosfera. O Brasil tem o que aprender com o modelo americano. Se houvesse um mínimo de coordenação, a rede de estações meteorológicas atenderia melhor às necessidades do país.
Farra fiscal eleva gastos das famílias com
juros
Por Folha de S. Paulo
Encargos financeiros chegam a 29% dos
orçamentos domésticos, mesmo com avanço da massa salarial
Ciclos econômicos também deterioram a
qualidade do crédito; reformas e cuidados básicos atenuariam fenômeno
No trimestre final do ano passado, a parcela
dos rendimentos das famílias dedicada ao pagamento de juros e
amortização de seus débitos bancários superou os
29%, na média, cifra inédita em 20 anos. É notável que o peso do
endividamento nos orçamentos domésticos tenha crescido em anos como os
recentes, de alto crescimento da massa de salários.
O nível de endividamento em si mesmo não é
necessariamente indício de problemas. O aumento da proporção dos empréstimos em
relação ao tamanho da economia,
do PIB,
pode ser um sinal de democratização do crédito, acesso ao financiamento de bens
mais caros e mesmo de atividade empreendedora.
O aumento do custo do serviço da dívida, no
entanto, pode ser sintoma de deficiências.
No Brasil, é necessária mais cautela, dado o
nível das taxas de juros, insuportavelmente elevado por problemas estruturais,
como baixa taxa de poupança nacional, insegurança jurídica e irresponsabilidade
fiscal —hoje em grau particularmente elevado sob Luiz
Inácio Lula da
Silva (PT).
Além do mais, os ciclos econômicos, de intensidade
e frequência exageradas no país, deterioram também a qualidade do crédito e a
condição financeira de famílias e empresas. O caso recente de aumento do custo
do serviço da dívida é outro exemplo de reflexo de um ciclo em parte
insustentável, pois artificial, de crescimento de curto prazo.
Em 2024 já apareciam sinais de economia
aquecida em excesso. De resto, o real passava por outra onda de desvalorização,
em parte devida à percepção de piora fiscal e ao afrouxamento das metas
oficiais de ajuste.
O Banco Central havia
reduzido sua taxa, a Selic,
de 13,75% anuais, a partir de agosto de 2023, para 10,5%, em maio de 2024. Em
setembro daquele ano, o BC teve de voltar a elevar os juros.
O custo do crédito bancário livre para
pessoas físicas passou a subir. O peso da amortização em relação aos rendimentos
familiares ficou maior. Ao longo de 2025, subiu a inadimplência —alguns
analistas sugerem a hipótese de que isso também tenha sido causado pela inexperiência
da população recentemente bancarizada em lidar com o crédito.
O aumento do peso do serviço da dívida
deveu-se na maior parte aos juros nas alturas, indicam as estatísticas do Banco
Central. Além do mais, em relação à renda total das famílias, o aumento
relativo do serviço foi maior do que o do endividamento.
A inadimplência talvez venha a cair nos
próximos meses, com as renegociações de dívidas bancárias. Se a guerra entre os
EUA e o Irã não o impedir, as taxas de juros devem cair, assim como o peso do
endividamento, se não houver desaceleração maior no mercado de trabalho.
Variações cíclicas são comuns em qualquer
economia. No Brasil, as flutuações são mais intensas e frequentes. Reformas e
cuidados macroeconômicos rudimentares atenuariam tais ciclos.
Gatilho da violência doméstica, álcool exige
regulação
Por Folha de S. Paulo
Média de 70 ocorrências diárias em SP expõe a
importância de sobretaxar bebidas e ampliar campanhas educativas
A exemplo do que se faz com sucesso na
indústria tabagista, publicidade deve ser restrita e trazer alertas
Um dos efeitos mais perversos do uso abusivo
do álcool, de longe a droga mais consumida no país, é servir de
gatilho para os já predispostos à violência
doméstica: pode reduzir o autocontrole e aumentar a impulsividade;
facilitar interpretações equivocadas, como ciúmes ou ameaças imaginárias;
escalar qualquer discussão banal para agressões verbais e físicas.
Essa associação explosiva ganha contornos
dramáticos em levantamento do
Instituto Sou da Paz e da ACT Promoção da Saúde, com base em dados obtidos via
Lei de Acesso à Informação.
Entre 2023 e 2024, os pesquisadores
identificaram 50.805 ocorrências de violência doméstica
envolvendo consumo de álcool apenas no estado de São Paulo —uma média de 70
casos por dia.
Em sua maioria, o roteiro se assemelha: os
ataques são concentrados aos fins de semana, no período noturno, dentro de casa
e, como imaginado, praticados por homens; mulheres são as principais vítimas,
mas crianças e idosos também podem ser alvos.
O álcool é um psicoativo legalizado —e assim
deve permanecer; os quase 14 anos de Lei Seca nos EUA provocaram consequências
desastrosas, com produção clandestina, crises sanitárias e
fortalecimento do crime organizado.
Legalização, contudo, não implica
permissividade. Associadas a campanhas educativas massivas, as restrições
precisam permanecer rigorosas.
A começar pela proibição efetiva da venda
para menores, nem sempre observada, e por limites a
horários de funcionamento de bares, que já colheram bons resultados
ao reduzir taxas de homicídio em regiões violentas.
A tributação
elevada de bebidas alcoólicas, tema que constará da regulamentação
da reforma dos
impostos, deve evitar preços irrisórios e desincentivar o consumo,
além de angariar recursos para o sistema de saúde pública.
Por fim, as restrições à
publicidade precisam ser reexaminadas com regularidade —hoje há
brechas legais para cerveja e parte dos vinhos e forte dependência da
autorregulação do Conar, organização privada que fiscaliza a ética
publicitária.
Cumpre avaliar a eficácia de alertas como
"se beber, não dirija" e "beba com moderação". À indústria
tabagista, por exemplo, foram aplicados com sucesso mensagens duras sobre as
consequências do consumo.
Abominável por si só, a associação do etilismo à violência doméstica também pode impulsionar desestruturação familiar, crises psicossociais duradouras e risco considerável de repetição de padrão na próxima geração.
Trump piscou
Por O Estado de S. Paulo
Recuo de Trump de seu ultimato ao Irã, sob o
argumento de que houve avanços em negociações – que Teerã nega –, indica que a
guerra está causando mais prejuízos do que ele é capaz de justificar
O ultimato foi claro. O recuo, ainda mais.
Após ameaçar, no sábado, “obliterar” a infraestrutura energética do Irã caso o
país não reabrisse o Estreito de Ormuz em 48 horas, Donald Trump suspendeu
ontem a ofensiva por cinco dias, alegando avanços diplomáticos – que Teerã logo
desmentiu. Trump quis vender progresso, mas só expôs seus limites.
Desde o início da guerra, a condução
americana oscila entre declarações de vitória iminente, promessas de escalada e
sinais de desengajamento. Os objetivos mudam conforme os acontecimentos: conter
o programa nuclear, destruir capacidades militares, forçar uma mudança de
regime, impor rendição. O que se vê é uma campanha militar eficaz em termos
táticos, mas carente de um eixo político que a organize.
A ambiguidade cobra seu preço porque a guerra
não se desenrola apenas no campo de batalha. Ao fechar o Estreito de Ormuz, o
Irã encontrou uma forma eficiente de compensar sua inferioridade militar. Não
precisa vencer; basta perturbar. O bloqueio nem sequer precisa ser total: a
mera incerteza já é suficiente para afastar navios, elevar prêmios de seguro,
pressionar preços e contaminar as expectativas em cadeia. O custo de causar
disrupção é baixo, e o de restaurar a normalidade é alto e crescente.
À medida que esse conflito assimétrico se
prolonga, a margem de manobra americana se estreita. A pressão sobre mercados,
aliados do Golfo e o eleitorado doméstico decorre não exatamente de um fracasso
militar, mas de uma realidade estratégica mais incômoda e difícil de superar:
domínio aéreo não garante controle sobre as consequências econômicas e
políticas do conflito. Para as monarquias árabes, expostas a ataques e
dependentes do fluxo contínuo de energia, a guerra é uma ameaça direta à sua
estabilidade. Esses países não podem se dar ao luxo de uma guerra aberta nem de
uma paz instável. Para Washington, que prometeu ordem, a guerra passou a
produzir instabilidade.
O recuo de Trump não inaugura uma fase
diplomática. Ele é um reflexo desse impasse. Não se trata propriamente de
prudência tática, mas do reconhecimento de um limite político: há um ponto a
partir do qual os custos deixam de ser justificáveis. O cálculo do regime
iraniano é simples: quanto mais o conflito se prolonga, mais ele pressiona
preços, alianças e expectativas internas. Para os Estados Unidos, o que parecia
uma campanha de duração limitada e fadada ao sucesso começa a adquirir os
contornos de um problema político multifacetado – difícil de explicar, mais
difícil ainda de sustentar.
O problema é que nenhuma das alternativas
disponíveis oferece uma saída satisfatória. Negociar exigiria concessões que
nenhuma das partes parece disposta a fazer. Encerrar a guerra agora deixaria
intactos os instrumentos de pressão iranianos – do programa nuclear ao veto
energético. Prolongar a campanha elevaria custos sem assegurar resultados
decisivos. Escalar ampliaria riscos regionais e poderia aprofundar o choque
econômico global. Não há escolha sem ônus estratégico relevante.
E mesmo a escolha não resolve tudo.
Washington não decide sozinho o ritmo ou o desfecho do conflito. Israel tem
seus próprios objetivos e horizonte político. O Irã, acuado, tem incentivos
para prolongar a crise e demonstrar capacidade de infligir custos. Os aliados
árabes, diretamente expostos, oscilam entre apoio e cautela. A guerra é cada
vez menos um instrumento de decisão unilateral e cada vez mais um sistema de
pressões cruzadas.
Daí o paradoxo que se impõe. Os Estados
Unidos e Israel avançaram no desmonte das capacidades militares iranianas.
Ainda assim, a posição estratégica de Washington se tornou mais delicada. A
consequência é uma vitória tática que convive com uma crescente vulnerabilidade
estratégica. Quanto mais a campanha progride, mais difícil se torna
justificá-la, e, por conseguinte, encerrá-la em termos favoráveis.
O recuo recente não prenuncia o fim da
guerra. Indica algo mais relevante: a percepção de que seus custos já
ultrapassam o que pode ser politicamente administrado. Em conflitos como esse,
iniciar é uma escolha clara. Já terminar, é cada vez menos.
Pacto democrático pela vida das crianças
Por O Estado de S. Paulo
Unicef mostra que a mortalidade infantil no
Brasil chegou ao menor patamar em 34 anos. Isso só se tornou possível porque o
problema foi enfrentado como política de Estado, e não de governos
A taxa de mortalidade infantil no Brasil está
no seu nível mais baixo em mais de três décadas, segundo um relatório do Fundo
das Nações Unidas para a Infância (Unicef). O número de crianças que morriam
antes de completar 28 dias de vida a cada mil nascimentos caiu de 25,1 em 1990
para 7,1 em 2024. Já o número de crianças que não chegavam ao quinto ano de
vida a cada mil nascimentos recuou, no mesmo período, de 62,8 para 14,2.
Não são nada triviais essas conquistas do
Brasil: houve uma queda de 72% na taxa de mortalidade neonatal e de 77% na taxa
de mortalidade entre os menores de 5 anos de idade. E o País registrou ainda
taxas abaixo das médias mundiais, de 17,2, no caso de mortalidade neonatal, e
de 37,4, entre os menores de 5 anos.
Ou seja, além de apresentar um desempenho
positivo em relação ao seu próprio passado, o Brasil também obteve êxito diante
dos indicadores globais. Não à toa, o País já bateu a meta de redução da
mortalidade infantil traçada pela ONU para 2030 pelos Objetivos de
Desenvolvimento Sustentável (ODS), de 12 mortes a cada mil nascidos vivos no
caso de mortalidade neonatal e de 25 por mil no caso de mortalidade entre os
menores de 5 anos.
Nada disso é fruto do acaso. A queda da
mortalidade infantil no Brasil decorre de uma acertada decisão das famílias, da
sociedade e do Estado brasileiro de elegerem a proteção da infância como uma
prioridade absoluta. Isso significa que a questão foi tratada mais ou menos com
a mesma seriedade por vários governos de diferentes colorações ideológicas,
tornando-se efetiva política de Estado. Não à toa, os bons indicadores
coincidem com as transformações recentes do País.
A Constituição federal, de 1988, e o Estatuto
da Criança e do Adolescente (ECA), de 1990, expressam muito bem essa escolha
política. E, com base nas diretrizes dos dois principais marcos legais de
proteção da infância, pode-se dizer que os avanços do Brasil são fruto da
democracia.
Foi principalmente a partir do governo
Fernando Henrique Cardoso que o Brasil abraçou a missão de cuidar das crianças
desde a gestação. Ao longo dos anos, esse compromisso foi mantido nos governos
do PT, de Michel Temer e de Jair Bolsonaro. Foram as políticas de Estado que
permitiram ao Brasil colher tantos feitos hoje.
São todas políticas públicas bem desenhadas e
executadas que atravessaram gestões. Entre elas estão a universalização da
saúde, o acesso ao pré-natal, as campanhas de vacinação e o estímulo à
amamentação. Além disso, houve a universalização da educação, com a obrigação
dos pais de matricularem seus filhos na escola, onde as crianças aprendem e se
alimentam. Não menos importante, houve o efeito de programas sociais de
transferência de renda que exigem frequência escolar e caderneta de vacinação
em dia.
Apesar de poder comemorar, o Brasil não pode
baixar a guarda. A chefe de Saúde e Nutrição do Unicef no Brasil, Luciana
Phebo, afirmou ao Estadão que
o País é um exemplo positivo para o mundo, mas precisa ainda fazer muito mais,
haja vista que as desigualdades regionais persistem. Para se ter uma ideia, a
taxa de mortalidade neonatal no Norte é de 19,7 crianças a cada mil bebês
nascidos vivos.
Ainda continuam morrendo crianças com idade
neonatal em decorrência de prematuridade, anomalias congênitas e complicações
no parto. E isso poderia ser mitigado com um acompanhamento pré-natal com mais
consultas. Até os 5 anos de idade, as doenças infecciosas ainda matam: ou seja,
é preciso melhorar a cobertura vacinal, após um período de disseminação
irresponsável de discursos antivacinas.
As vitórias já acumuladas e os desafios
persistentes indicam que o Brasil salvou e pode salvar ainda muito mais vidas. Prova
disso é que o número de mortes de recém-nascidos caiu de cerca de 92 mil, em
1990, para menos de 19 mil, em 2024. O País tem expertise para acelerar a queda
da mortalidade neonatal e entre as crianças com até 5 anos, dissipando, assim,
as desigualdades regionais.
Lei bem feita não cai
Por O Estado de S. Paulo
Câmara de SP e Prefeitura mudam zoneamento de
modo duvidoso e agora reclamam da Justiça
A Prefeitura de São Paulo e a Câmara Municipal
parecem culpar o Ministério Público (MPSP) e o Tribunal de Justiça (TJSP) pela
paralisia do setor imobiliário da capital. Desde fevereiro, uma decisão liminar
do Órgão Especial da corte paulista atendeu a um pedido feito pelo
procurador-geral de Justiça, Paulo Sérgio de Oliveira e Costa, e suspendeu a
emissão de alvarás para demolição ou construção na cidade. E, enquanto não há
uma decisão final, a metrópole, os empresários e os cidadãos sofrem.
Esse congelamento, por óbvio, impacta o
mercado. Segundo a Secretaria Municipal de Urbanismo e Licenciamento (SMUL), a
medida pode travar mais de 4 mil processos, dos quais mais de 1,3 mil
referentes a alvarás de moradia popular. Em recurso apresentado ao Supremo
Tribunal Federal (STF), a Câmara Municipal afirmou que a decisão impede a
arrecadação diária de R$ 4,2 milhões com as licenças, compromete 197 mil postos
de trabalho e ameaça investimentos da ordem de R$ 90 bilhões na construção
civil.
Como se vê, o risco de perdas é alto. E, não
à toa, as incorporadoras estão apreensivas à espera de uma resolução para o
impasse em torno da revisão da Lei de Zoneamento, aprovada há dois anos. Mas,
para Oliveira e Costa, chefe do MPSP, o projeto de lei inicial era sintético e
uma revisão da revisão, aprovada posteriormente pelos vereadores, ampliou seu
escopo sem contar com a devida participação popular, o que, na sua visão, torna
a iniciativa inconstitucional.
O prefeito Ricardo Nunes, claro, reagiu. Para
ele, a liminar é “equivocada” e “invade a competência do Legislativo e do
Executivo”, haja vista que o processo legislativo e a sanção da lei seguiram
todos os trâmites legais. E, segundo Nunes, a liminar causa “insegurança
jurídica, o que é ruim para a cidade”. Tem razão o prefeito: o congelamento da
emissão de alvarás deteriora o ambiente de negócios, põe em risco milhares de
empregos e causa prejuízo à cidade. Mas o problema não é a atuação do
Ministério Público nem do Judiciário.
Quando da tramitação do projeto de lei de
revisão da Lei de Zoneamento, a sociedade civil organizada reclamou de uma
suposta falta de diálogo. O argumento do MPSP é de que, embora tenha havido
audiências públicas na primeira rodada de discussão do projeto de lei, não
houve participação popular a contento durante a revisão da revisão. Faltou, portanto,
prudência à Câmara e à Prefeitura.
As mudanças feitas pelos vereadores autorizaram a construção de prédios maiores e liberaram a verticalização de regiões antes horizontais. Diante de tais mudanças, a participação popular não era um mero formalismo: tratava-se de um instrumento de controle social para assegurar que os cidadãos fossem ouvidos. Portanto, a responsabilidade pela paralisia geral no setor imobiliário é da Câmara, que aprovou a revisão da Lei de Zoneamento, ao que tudo indica, de forma açodada, e da Prefeitura, que a sancionou. Uma lei bem feita não é questionada, suspensa ou derrubada.
Chance de acordo com Irã retarda escalada de
preços
Por Valor Econômico
Mas nunca é possível saber ao certo o que
Trump está planejando
O presidente Donald Trump disse ontem, de
repente, que está negociando o fim da guerra com o governo iraniano. É
importante que ele esteja falando a verdade porque o simples sinal de que
existe alguma possibilidade de entendimento foi suficiente para derrubar em 10%
as cotações do petróleo e aliviar a pressão sobre os juros dos títulos de
dívida emitidos pelos governos, um problema sério potencializado pelo conflito.
A continuidade da guerra ampliaria a escassez que já aparece em vários países,
apertaria as condições financeiras, aumentará muito a conta do petróleo — com a
média do preço do barril subindo a cada dia — além de reduzir danos à
infraestrutura e permitir uma transição menos lenta do mercado para a
normalidade.
Nunca é possível saber ao certo o que Trump
está planejando, o que é tido, pelo menos por ele, como um de seus trunfos
políticos, não importa que com isso desoriente até mesmo seus mais próximos
conselheiros no governo. Antes do ultimato de 48 horas para que o Irã reabrisse
o Estreito de Ormuz, o governo americano pedira US$ 200 bilhões extras ao
Congresso e ordenara o deslocamento de mais 5 mil soldados para a região
conflagrada. Trump anunciou, perto do fim do prazo dado ao Irã, que houve
conversas “produtivas” com o regime dos aiatolás, o que foi entendido pelos
analistas como mais um de seus habituais recuos e como a procura de uma saída
para o que seria o erro de ter começado a guerra contra o Irã, para o qual não
há desenlace fácil, sem custos e sem recuos mútuos.
O petróleo ultrapassou os US$ 100 desde 8 de
março e lá continua. O Goldman Sachs refez projeções, agora contemplando
cenário de maior duração da guerra e a possibilidade de o barril ultrapassar o
recorde de US$ 147, durante a guerra na Ucrânia. O banco calcula que a média do
preço em 2026 se elevará para US$ 85, partindo da premissa de um fluxo de
apenas 5% do petróleo que normalmente transita pelo estreito durante seis
semanas, antes do início de lenta normalização. A destruição já realizada
retiraria por algum tempo dois milhões de barris diários e a corrida para repor
estoques manteria preços aquecidos até 2027, com média de US$ 80 o barril.
O abastecimento pelo Estreito de Ormuz tem
grande importância principalmente para a Ásia, onde vários países começaram a
racionar o produto, controlar preços e sobretudo executar medidas para reduzir
o consumo. O Japão tem 81% de suas importações de combustível vindas da região,
e a Coreia do Sul, 62%. Em vários países, os estoques não são altos. Os da
Índia, por exemplo, duram 74 dias (FT, 20 de março). A diminuição do escoamento
do gás natural provocou disputa pelo produto, que disparou de preço no mercado
europeu. Trump ameaçou a União Europeia de retirar-lhe a preferência de venda
do gás americano caso ela não faça um acordo comercial, hoje suspenso, após a
Suprema Corte considerar ilegais as tarifas.
A guerra inverteu o rumo das políticas
monetárias. De um lado, o choque do petróleo deve espalhar a inflação por alimentos,
transportes e serviços em geral, o que provocou uma reação dos bancos centrais
em sua primeira linha de defesa: interromper a redução dos juros, como nos EUA
e Reino Unido. Os investidores, porém, já avaliam como provável uma nova rodada
de alta dos juros, em resposta aos aumentos de preços. A alta dos juros de
curto prazo, que são os que os BCs têm capacidade de influenciar, já vem
ocorrendo, mas o fator preocupante é que os juros de longo prazo também estão
se deslocando para cima.
Como maiores tomadores de recursos, os
governos estão com dívidas muito altas, um legado da covid que foi acentuado, e
necessitam de mais dívidas para pagar as que vencem. O financiamento desses
títulos encareceu. O título do Tesouro de dez anos, antes da promessa de negociação
Trump, chegou a 4,4%, pouco abaixo da maior marca anual, 4,5%. Os papéis do
Reino Unido estão sob forte pressão, enquanto sobem os rendimentos exigidos
para adquirir bônus da França, Alemanha e Itália.
Juros maiores tenderão a deprimir os preços
das ações, perturbando também a trajetória das empresas que investem na
inteligência artificial. Por Ormuz passa um terço do suprimento de gás hélio,
usado para resfriamento na produção de chips, vorazmente consumidos pelos data
centers.
A geopolítica explosiva do Oriente Médio põe em dúvida a conveniência de localização dos investimentos em data centers na região — a explosão de duas instalações da Amazon perto de Dubai e em Bahrein é um lembrete sobre isso. A guerra poderá impulsionar a reprecificação ampla dos ativos, que pode ser tumultuosa. O choque do petróleo no Brasil pode ser intenso, mesmo sendo o país um grande produtor. O diesel, que move as safras e transporte rodoviário, é em boa parte importado e subiu 20% de preço. O dólar voltou a se fortalecer, o que não é um bom sinal para a inflação. A perspectiva de o Fed ter de subir os juros coloca algum limite para a queda aqui. Com o conflito no Oriente Médio, os juros de médio e longo prazo subiram, mesmo quando o BC reduziu a Selic, uma prova da enorme desconfiança sobre a trajetória da dívida pública, que o governo Lula, com aumentos de gastos, nada fez para diminuir.
Hora da verdade para a ONU
Por Correio Braziliense
Na arena das relações internacionais, o
desafio lançado para todas e cada uma das nações é resgatar o espírito sob a
qual a ONU foi fundada
A guerra de Estados Unidos e Israel contra o
Irã, com seus desdobramentos pelo Oriente Médio, avança pela quarta semana com
uma entre poucas certezas, em meio ao bombardeio de notícias falsas e versões
conflitantes. Variáveis e incógnitas à parte, desfila pelos noticiários, aos
olhos de governos, autoridades, estudiosos e quem mais acompanhe os
acontecimentos, a absoluta impotência do sistema multilateral de relações
internacionais para responder a mais um conflito.
São agravantes, no caso, as implicações
imediatas sentidas pela economia global. Em especial, a instabilidade extrema
no mercado de petróleo e derivados e, por tabela, das demais commodities exerce
desde logo pressões inflacionárias em escala planetária. A trava nos índices de
crescimento acende sinais de alerta para todos os extratos: desde as potências
industriais aos bolsões de pobreza extrema, passando pelos países emergentes,
todos refazem as contas.
No fim de semana, em sua fala durante
encontro entre países latino-americanos e africanos, na Colômbia, o presidente
Lula voltou a bater na tecla da impotência da ONU para fazer frente a mais uma
guerra — desta vez, com potencial evidente para abarcar toda uma região do
globo e, eventualmente, o conjunto do planeta. Desde seus primeiros mandatos, a
política externa brasileira tem entre seus focos o esforço pela reforma das
Nações Unidas, em especial de seu centro de decisões, o Conselho de Segurança.
É fato, confirmado e reforçado a cada
episódio, que o modelo atual, moldado para responder à realidade do pós-Segunda
Guerra Mundial, parece vencido. E não faltam razões aos que clamam pela
demolição pura e simples do sistema ONU. A realidade cotidiana do mundo, porém,
sugere que uma solução do tipo, sob a aparência de tratamento
"radical" e "profundo" para o problema, pode dar
legitimidade ao que se manifesta de mais grave no presente: a aplicação, na
prática, da "lei do mais forte".
Iniciativas como a lançada e articulada pelo
presidente dos EUA, Donald Trump, na forma de uma "ONU" em que ele
próprio — ou os EUA — detenha o comando vitalício terão pouco ou nada a aportar
para o verdadeiro impasse. O chamado da realidade, do ponto de vista dos
interesses humanos globais, é para quebrar o "cartel" dos cinco
membros permanentes do Conselho de Segurança, com seu poder de veto exclusivo.
Não será solução oficializar o monopólio de apenas um deles sobre as decisões
de interesse comum.
Na arena das relações internacionais, o
desafio lançado para todas e cada uma das nações é resgatar o espírito sob o
qual a ONU foi fundada, em 1945, sobre as ruínas, as cicatrizes e os milhões de
cadáveres legados pelo maior conflito armado da história humana.
Que as primeiras oito décadas de vida das Nações Unidas tenham servido, ao menos, para plantar as raízes de um mundo verdadeiramente multipolar. Onde problemas de alcance global, como a miséria, a fome e as mudanças climáticas, sejam tratados efetivamente como questões de todos. O contrário, o retorno fácil ao "cada um por si", ao "quem pode mais chora menos", é promessa de sofrimento certo para muitos, com o risco de falência segura — esta, para todos.
A morte do secretário e o crime organizado
Por O Povo (CE)
Os investigadores da Polícia Civil do Ceará
trabalham, nesse momento, com a suspeita de que o assassinato do secretário de
Administração de São Luís do Curu, Ricardo Abreu Barroso, ocorrido na manhã da
última quinta-feira, deu-se a mando do chefe local de uma facção criminosa. No
caso, o Comando Vermelho.
É o que consta no Auto de Prisão em Flagrante
(APF) de Gleiciane Barbosa Diniz e Laila Aparecida Rodrigues Menezes, ambas de
24 anos e acusadas de terem feito o monitoramento da vítima e indicado para os
executores o momento de agir. Elas foram flagradas em câmaras de vídeo
circulando repetidamente, a bordo de uma moto, próximo à loja de material de
construção que pertencia ao secretário.
O crime, que abalou a população do município
localizado na Região Metropolitana de Fortaleza, aconteceu à luz do dia, à
vista de uma gente assustada e com medo. Uma afronta, que as autoridades
policiais devem se sentir obrigadas a responder com eficiência e rapidez, agora
que tiveram a indicação, pelas presas, de que o mandante teria sido Wesley
Pereira Albino, o "Guaxinim".
Prender o suspeito deve ser prioridade
máxima, nesse momento. Menos por razões eleitorais, considerando-se que o
governo do Ceará deva ser cobrado nas urnas pelo quadro crítico na área de
segurança pública, e mais porque a sociedade foi desafiada pelo assassinato
cruel, executado de maneira fria e cruel, do ocupante de um cargo público,
expondo o nível de desproteção a que se encontram submetidos os cidadãos em
geral.
Consta que havia pressão da facção sobre o
secretário, que é pai do atual presidente da Câmara de Vereadores do município,
Júnior Abreu, e tio do prefeito, Tiago Abreu, para que usasse a influência da
família para reduzir a pressão da polícia sobre a atividade criminosa do
Comando Vermelho. A recusa dele em agir, imaginando-se que também não tivesse
força para fazê-lo, caso tentasse, levou ao ato extremo determinado pelo tal
"Guaxinim", que encontra-se hoje foragido, muito possivelmente em
comunidade do Rio de Janeiro controlada pelo grupo do qual faz parte.
É tudo inaceitável e a ação do Estado para se
contrapor ao quadro será fundamental como fator de inibição de outros
movimentos violentos de dimensão igual. As prisões já acontecidas indicam um
esforço nesse sentido, mas parecem insuficientes para gerar umn sentimento
tranquilizador para a sociedade, de São Luís do Curu, inicialmente, mas, na
verdade, do Ceará como um todo.
O ideal seria que o assunto fosse tratado com
a seriedade que requer, inclusive da parte dos adversários do governo da vez.
Reverter o quadro - que diz respeito a uma realidade nacional, ressalvados os
componentes locais que o agravam ou amenizam, dependendo das circunstâncias -,
precisa ser entendido como tarefa de todos, cada qual no limite de sua
competência. E, sim, quem está no poder tem responsabilidade maior nesse
esforço.
O crime não pode vencer as forças de bem, isso é ponto pacífico. O governador e sua equipe da área de segurança pública têm, nesse momento, o desafio e a obrigação de garantir que no Estado prevaleça, mais uma vez.

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