Folha de S. Paulo
Escândalo reacende críticas à associação
entre fé, poder e dinheiro
Nos anos 90, igreja se conecta ao dinâmico
evangelicalismo dos EUA
Para quem conheceu a Lagoinha pelo noticiário
recente, ela aparece associada a luxo, política
e ao escândalo do Banco Master. Mas essa mesma igreja já ocupou um
lugar muito diferente no protestantismo brasileiro.
Nos anos 1970 e 1980, em Belo Horizonte, a Lagoinha era uma igreja de bairro. Membros antigos a descrevem como uma extensão da vida doméstica: famílias próximas, crianças crescendo juntas, vínculos duradouros. Era uma igreja batista típica, que incorporou uma liturgia mais viva, próxima ao estilo pentecostal.
A mudança se acentua nos anos 1990. O novo
templo, construído após anos de campanha, sinaliza uma ambição maior. A igreja
se moderniza, cria sua rede de televisão e passa a se conectar com o que havia
de mais dinâmico no evangelicalismo dos Estados Unidos.
No fim da década, Ana Paula Valadão assume o
ministério de música, funda o Diante do Trono, e a experiência de culto muda. O
hinário cede espaço a canções longas, emocionais, marcadas por repetição,
intensidade e participação do público. A música deixa de ser acompanhamento e
passa a organizar a liturgia.
A Lagoinha ajuda a introduzir no Brasil a
experiência que ganharia escala global com igrejas como a australiana Hillsong —hoje também envolvida em
escândalos. Os shows de Ana Paula atraem multidões e Belo Horizonte se torna
referência nacional para jovens cristãos.
Essa transformação não se limitou à música.
As mudanças ajudam a levar, para um público de classe média, um tipo de
espiritualidade que mistura avivamento, linguagem contemporânea e protagonismo
do fiel.
O culto se torna menos roteirizado. A
espontaneidade ganha espaço. A experiência pessoal com Deus passa a ser mais
valorizada do que a forma. Para muitos, aquilo representou uma libertação de
uma religiosidade estagnada e fria.
A partir dos anos 2000, a Lagoinha cresce
apoiada em múltiplas frentes: música, mídia, formação teológica, atuação social
e ação missionária. Mas a expansão traz outra mudança. A igreja se torna mais
institucional e conectada a redes de influência de empresários e políticos.
Ao longo dos anos 2010, ganha força uma visão
mais pragmática. A sucessão no comando —com a escolha de André Valadão—
consolida essa inflexão. Suas irmãs, Ana Paula e Mariana, se afastam, deixando
um mal-estar que permanece.
A Lagoinha passa a operar como marca e se
torna um projeto padronizado, em formato de franquia, associado à eficiência e
à ocupação de espaço. Perde lugar o que havia dado identidade à igreja: a
diversidade, a ênfase missionária, a atuação social e a abertura a experiências
distintas.
O caso Master ampliou
a exposição negativa. Após a divulgação de um repasse de R$ 41 milhões
à igreja, a assessoria da Lagoinha afirmou que cada pastor é
responsável pelas finanças de sua unidade.
Valadão diz que as denúncias têm motivação
política. Mas o escândalo alimenta a associação entre fé, poder e dinheiro,
amplia a decepção entre cristãos e lança dúvidas sobre a credibilidade de
avivamentos.

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