terça-feira, 24 de março de 2026

Lagoinha, igreja de Vorcaro, já foi palco de revolução evangélica, por Juliano Spyer

Folha de S. Paulo

Escândalo reacende críticas à associação entre fé, poder e dinheiro

Nos anos 90, igreja se conecta ao dinâmico evangelicalismo dos EUA

Para quem conheceu a Lagoinha pelo noticiário recente, ela aparece associada a luxo, política e ao escândalo do Banco Master. Mas essa mesma igreja já ocupou um lugar muito diferente no protestantismo brasileiro.

Nos anos 1970 e 1980, em Belo Horizonte, a Lagoinha era uma igreja de bairro. Membros antigos a descrevem como uma extensão da vida doméstica: famílias próximas, crianças crescendo juntas, vínculos duradouros. Era uma igreja batista típica, que incorporou uma liturgia mais viva, próxima ao estilo pentecostal.

A mudança se acentua nos anos 1990. O novo templo, construído após anos de campanha, sinaliza uma ambição maior. A igreja se moderniza, cria sua rede de televisão e passa a se conectar com o que havia de mais dinâmico no evangelicalismo dos Estados Unidos.

No fim da década, Ana Paula Valadão assume o ministério de música, funda o Diante do Trono, e a experiência de culto muda. O hinário cede espaço a canções longas, emocionais, marcadas por repetição, intensidade e participação do público. A música deixa de ser acompanhamento e passa a organizar a liturgia.

A Lagoinha ajuda a introduzir no Brasil a experiência que ganharia escala global com igrejas como a australiana Hillsong —hoje também envolvida em escândalos. Os shows de Ana Paula atraem multidões e Belo Horizonte se torna referência nacional para jovens cristãos.

Essa transformação não se limitou à música. As mudanças ajudam a levar, para um público de classe média, um tipo de espiritualidade que mistura avivamento, linguagem contemporânea e protagonismo do fiel.

O culto se torna menos roteirizado. A espontaneidade ganha espaço. A experiência pessoal com Deus passa a ser mais valorizada do que a forma. Para muitos, aquilo representou uma libertação de uma religiosidade estagnada e fria.

A partir dos anos 2000, a Lagoinha cresce apoiada em múltiplas frentes: música, mídia, formação teológica, atuação social e ação missionária. Mas a expansão traz outra mudança. A igreja se torna mais institucional e conectada a redes de influência de empresários e políticos.

Ao longo dos anos 2010, ganha força uma visão mais pragmática. A sucessão no comando —com a escolha de André Valadão— consolida essa inflexão. Suas irmãs, Ana Paula e Mariana, se afastam, deixando um mal-estar que permanece.

A Lagoinha passa a operar como marca e se torna um projeto padronizado, em formato de franquia, associado à eficiência e à ocupação de espaço. Perde lugar o que havia dado identidade à igreja: a diversidade, a ênfase missionária, a atuação social e a abertura a experiências distintas.

O caso Master ampliou a exposição negativa. Após a divulgação de um repasse de R$ 41 milhões à igreja, a assessoria da Lagoinha afirmou que cada pastor é responsável pelas finanças de sua unidade.

Valadão diz que as denúncias têm motivação política. Mas o escândalo alimenta a associação entre fé, poder e dinheiro, amplia a decepção entre cristãos e lança dúvidas sobre a credibilidade de avivamentos.

 

 

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