Folha de S. Paulo
Governo vai jogar a conta do subsídio na
Petrobras e em outros exportadores de petróleo
União Europeia estuda que medidas tomar para
conter o impacto da alta de preços
O governo de Luiz Inácio Lula da
Silva vai usar dinheiro dos impostos a fim de evitar alta maior do preço
do diesel.
Por ora, não se fez nada em relação à gasolina. O economista-padrão não deve
gostar da medida. Mas, no curto prazo, faz sentido. Por falar nisso, a União
Europeia estuda fazer algo parecido. Na Ásia, já se toma providência na mesma
linha.
O governo vai compensar a perda de receita ou o gasto com subsídios cobrando imposto sobre exportação de petróleo. No ano passado, o Brasil exportou petróleo no valor de US$ 44,7 bilhões (dados da Agência Nacional do Petróleo, a ANP). A Petrobras registra que exportou US$ 25,6 bilhões, mais de 50% do total (a proporção é imprecisa, pois os produtos que entram na conta desses dois valores exportados são um pouco diferentes). Os acionistas da petroleira, governo inclusive, e suas irmãs privadas vão pagar a conta.
Se essa coisa durar muito tempo, vai causar
perdas e distorções péssimas. No curto prazo, dá.
Favor prestar atenção a "no curto
prazo", um ano ou menos. Se a guerra causar efeito mais
duradouro sobre o preço e mercado de combustíveis, a discussão é
outra. Como ninguém sabe o que será do conflito ou da economia do petróleo, é
possível discutir o assunto mais adiante, havendo boa fé e entendimento
rudimentar de economia (hum). Não havendo alta preocupante do diesel, é
possível cancelar as providências, embora o governo não deva fazê-lo antes da
eleição.
Um aumento descabelado do diesel teria
impacto em preços, em expectativas de inflação e em taxas de juros, para
começar. Um tumulto talvez provisório poderia, pois, causar danos duradouros. É
razoável tomar providências emergenciais.
A medida é eleitoral também, claro. Mas não
é, por ora, picareta ou irresponsável. Lembra,
claro, Jair Bolsonaro na eleição de 2022. Mas o governo das
trevas baixou imposto sem compensar a perda de arrecadação e na prática obrigou
estados a baixar impostos sobre combustíveis e energia, uma lambança tosca.
Vai dar certo agora?
O governo zerou impostos federais sobre o
diesel, que pesam em média 5,2% no preço final do combustível, na conta da
Petrobras (os impostos estaduais pesam 19%). Levando em conta o valor da venda
total de diesel no ano passado, abrir mão dessa receita custaria uns R$ 22
bilhões. Além do mais, o governo vai subsidiar a venda desse combustível em até
R$ 10 bilhões (pode ser menos).
O imposto de
12% sobre a exportação de petróleo fecharia esse buraco. É
apenas um chute informado. Dá certo se o Brasil exportar tantos barris de
petróleo como em 2025. Se o preço do barril ficar em US$ 79 na média de um ano,
como na estimativa divulgada na quarta (10) pela agência de estudos de energia
dos EUA, a EIA. Se o dólar ficar em R$ 5,26. Se as empresas não mudarem seu
comportamento, dado o imposto. Etc. Enfim, não dá para cravar que não vai
aparecer buraco nas contas federais (ou até ganho de arrecadação), como o fez o
governo. Mas o chute não é doido.
Apesar do subsídio, pode haver efeito da alta
dos combustíveis na inflação para o consumidor. Ainda não aconteceu. Neste ano,
até o início deste mês, os preços médios de diesel e gasolina ficaram estáveis,
segundo a ANP. Mas não se
sabe o que vai fazer a Petrobras. Se levar a sério seu
desempenho econômico e não quiser colocar sob risco a importação de diesel, a
petroleira deveria ajustar preços nos próximos dias. O governo diz que não vai
interferir. Hum.
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