Correio Braziliense
O Palácio do Planalto teme
que o choque do petróleo frustre uma das principais apostas políticas de Lula
para sua campanha de reeleição: a “economia do afeto”
A guerra no Oriente Médio introduziu uma variável externa que pode alterar significativamente o cenário político brasileiro em pleno ano eleitoral, sobretudo a estratégia de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A escalada do conflito e o risco de interrupção do fluxo de petróleo pelo Estreito de Ormuz provocaram a disparada do preço do barril, que chegou a ultrapassar a casa dos US$ 120 antes de recuar para a faixa de US$ 90. Governos do mundo inteiro estão diante da ameaça de inflação doméstica e desgaste político.
No Brasil, diante da ameaça externa, o
presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou um pacote emergencial para conter
a alta do diesel. As medidas incluem a zeragem de PIS e Cofins sobre o
combustível, uma subvenção de R$ 0,32 por litro para produtores e importadores
e a criação de um imposto extraordinário de 12% sobre a exportação de petróleo.
A engenharia fiscal apresentada pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad,
busca compensar a renúncia estimada de R$ 30 bilhões do PIS e Cofins com o
aumento de arrecadação proveniente da exportação de petróleo.
Lula quer evitar que o diesel, principal
combustível da logística brasileira, provoque uma onda inflacionária. O
transporte rodoviário responde por cerca de dois terços do escoamento da produção
agrícola e industrial. Qualquer aumento expressivo no diesel rapidamente se
transmite aos preços de alimentos, fretes e serviços. Em termos políticos, pode
ter efeito devastador em ano eleitoral. É um cenário de tirar o sono.
A crise energética ocorre em um momento
econômico delicado. Depois de um período de crescimento moderado e aumento do
emprego, o Banco Central (BC) manteve a taxa básica de juros em níveis elevados
— cerca de 15% ao ano — para conter a inflação. O resultado é um ambiente de crédito
caro, que tem pressionado as finanças das famílias brasileiras.
Dados recentes da Pesquisa de Endividamento e
Inadimplência do Consumidor mostram que 80,2% das famílias estavam endividadas
em fevereiro de 2026 — o maior patamar da série histórica iniciada em 2010.
Mais preocupante é o avanço da inadimplência, que voltou a subir e já atinge
29,6% das famílias. Quase metade dessas dívidas está em atraso há mais de 90
dias, evidenciando uma deterioração do quadro financeiro doméstico.
Essa situação cria um triângulo de fogo. A
inflação corrói a renda real, enquanto o endividamento limita a capacidade de
consumo — dois fatores que afetam diretamente a percepção da população sobre o
desempenho econômico do governo. Num ambiente eleitoral, mesmo quando os
indicadores macroeconômicos permanecem relativamente equilibrados, o sentimento
econômico pode se deteriorar rapidamente e encandecer a campanha dos candidatos
de oposição.
“Economia do afeto”
O Palácio do Planalto teme que o choque do
petróleo frustre uma das principais apostas políticas de Lula para sua campanha
de reeleição: a chamada “economia do afeto”, para usar a feliz expressão do
historiador Alberto Aggio. A estratégia do governo vinha se baseando na
recuperação do emprego, na expansão de programas sociais e na recomposição do
poder de compra das camadas mais pobres. O objetivo era reconstruir um clima de
bem-estar econômico capaz de sustentar a popularidade presidencial. Faltou
combinar com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e os aiatolás
iranianos.
Com crescimento moderado e renda em expansão,
eleitores tendem a valorizar estabilidade e continuidade. Foi esse ambiente que
permitiu a Lula construir sua hegemonia eleitoral nos anos 2000, quando a
combinação de commodities em alta e políticas sociais ampliou a base de apoio
do governo. O cenário atual, porém, é outro: juros altos, endividamento recorde
das famílias e um choque externo nos preços de energia. Essa mistura não estava
prevista.
As pesquisas eleitorais recentes já indicam
um cenário competitivo. Levantamentos divulgados nas últimas semanas mostram
uma redução da vantagem de Lula em cenários de segundo turno contra adversários
da direita, especialmente o senador Flávio Bolsonaro. O crescimento do principal
candidato do campo bolsonarista reflete, em parte, o desgaste natural de um
governo em seu quarto ano, mas também a sensibilidade do eleitorado à situação
econômica.
Inflação e custo de vida são fatores
decisivos em eleições. É impossível convencer o eleitorado de que choques
externos são os verdadeiros responsáveis por aumentos de preços, ainda mais
quando os agentes econômicos atribuem a inflação e juros altos ao déficit
fiscal do governo. Para a maioria dos cidadãos, a responsabilidade recai inevitavelmente
sobre quem está no poder. O desafio de Lula, portanto, é essencialmente
político. A eficácia das medidas anunciadas dependerá da rapidez com que a
redução do diesel chegará às bombas e, sobretudo, do comportamento do preço
internacional do petróleo nas próximas semanas. Se a guerra no Oriente Médio se
prolongar e a volatilidade energética persistir, o impacto inflacionário poderá
neutralizar boa parte dos ganhos sociais obtidos pelo governo nos últimos anos.

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