quinta-feira, 26 de março de 2026

Master é dilema que ronda Gonet, por Julia Duailibi

O Globo

A Procuradoria-Geral da República é a titular da ação penal e tem o poder de denunciar o delator à Justiça

Um fantasma ronda o gabinete do procurador-geral da República, e ele atende pelo nome de Augusto Aras. O caso Master atropelou o atual PGR, Paulo Gonet, impondo-lhe um dilema que leva aos tempos do antecessor: tocar para valer a delação de Daniel Vorcaro ou colocar freios na investigação.

Uma proposta de delação é confeccionada dentro da Superintendência da Polícia Federal, em Brasília, na mesma sala que há pouco teve Jair Bolsonaro como inquilino e que agora serve de prisão ao ex-banqueiro. Ele se reúne lá, diariamente, com um time de advogados para organizar informações, colocá-las no papel e dividi-las em partes que poderão ser futuros anexos de uma colaboração. É um trabalho que deve durar mais três semanas e que, ao final, resultará numa proposta formal de delação, a ser apresentada aos delegados da PF e aos procuradores liderados pelo dono do dilema, Paulo Gonet.

No dia 3 de março, véspera de sua prisão, Vorcaro assinou com eles um termo de confidencialidade dando início às tratativas. Em tese, a assinatura servia para blindá-lo da prisão. Não foi o que aconteceu. A PF pediu a prisão de Vorcaro ao ministro-relator, André Mendonça, e ela acelerou a negociação em curso. De Taormina, na Sicília, para a realidade das nossas “masmorras medievais”. Vorcaro ficou 15 dias no isolamento, quatro deles sem contato com ninguém. Na cela, só um exemplar da Bíblia. A realidade distinta do Four Seasons ajudou a formar a convicção de que a delação era a melhor aposta.

Vorcaro tem muito a contar, mas tudo depende do que vão querer ouvir. A investigação da PF, blindada por Mendonça, tem delegados dispostos a ir até o fim, vide o caso Tayayá de Dias Toffoli. Na PGR, o clima é mais complexo. Independentemente das qualidades técnicas de Gonet, ele chegou à PGR numa campanha promovida por ministros do STF. Daí a dúvida se teria interesse numa delação que chegasse ao Supremo.

Um caminho seria colaborar só com a PF, mas esse não parece ser o mais provável, apesar de o STF já ter dito que acordo com os policiais é constitucional — como se sabe, os ministros sempre podem revisitar o tema e mudar de ideia, mas isso seria uma tremenda avacalhação, já que a condenação de Bolsonaro foi baseada na delação de Mauro Cid com a PF.

A Procuradoria-Geral da República é a titular da ação penal e tem o poder de denunciar o delator à Justiça. Vorcaro quer entregar o que sabe para conseguir um benefício maior que o de Cid, condenado a dois anos em regime aberto. Por isso, interessa atender aos anseios da equipe de Gonet, desde que se entendam em pontos que serão críticos, como o volume de dinheiro a devolver e o teor das informações sobre quem delatará.

Vorcaro pode revelar detalhes de conversas com ministros, mas sem conectá-los a um ato de ofício que o tenha beneficiado. Ou seja, sem implicá-los em crime. Para a PGR, seria um caminho interessante — a afastaria do fantasma Aras, sem comprar briga com o STF. Resolve o dilema para Gonet. A dúvida é se esse caminho será o dos delegados da PF e, principalmente, de Mendonça.

 

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