domingo, 15 de março de 2026

Morre o filósofo alemão Jürgen Habermas, aos 96 anos

Por O Globo com agências internacionais 

Autor de obra extensa, ele foi um dos nomes centrais do pensamento europeu do pós-guerra

O filósofo e sociólogo alemão Jürgen Habermas morreu neste sábado (14), aos 96 anos, em Starnberg, no sul da Alemanha. A morte foi informada pela editora Suhrkamp. Com uma obra que atravessou a filosofia, a sociologia e a teoria política, Habermas foi um dos nomes centrais do pensamento europeu do pós-guerra.

Considerado uma das vozes mais influentes do debate público alemão nas últimas décadas (e o intelectual alemão mais influente de sua geração), Habermas ficou associado a reflexões sobre democracia, racionalidade e vida em sociedade. Seu trabalho ajudou a consolidar conceitos como o da esfera pública e o da ação comunicativa, que se tornaram referências dentro e fora da academia.

Jürgen Habermas esteve envolvido em todos os grandes debates do pós-guerra. Ele considerava a Europa o único remédio frente ao auge dos nacionalismos. Ao longo de sua vida, vinculou filosofia e política, pensamento e ação. Sua autoridade moral lhe rendeu reconhecimento internacional.

Testemunha do Nazismo

Nascido em Düsseldorf, em 18 de junho de 1929, Habermas cresceu sob o impacto da ascensão e da queda do nazismo, experiência que marcou profundamente sua formação intelectual. Ainda bem jovem, ele foi incorporado, por insistência do pai, à Juventude Hitlerista, embora fosse jovem demais para participar ativamente da guerra. Sua adolescência acabou sendo marcada pelo colapso do nazismo, pouco antes de atingir a idade para ser convocado.

Jürgen Habermas estudou nas universidades de Göttingen (1949/50), Zurique (1950/51) e Bonn (1951–54) e obteve um doutorado em filosofia em Bonn, em fevereiro de 1954, com uma dissertação sobre a tensão entre o absoluto e a história no pensamento do filósofo alemão Friedrich Wilhelm Joseph Schelling.

Em 1956, Habermas tornou-se assistente de pesquisa de Theodor W. Adorno no Instituto de Pesquisa Social (IfS) da Universidade de Frankfurt am Main. De 1956 a 1959, estudou filosofia e sociologia com Adorno e o também teórico crítico Max Horkheimer no IfS. Na época, esteve envolvido no início do movimento antinuclear.

Mais tarde, o alemão se tornaria um dos principais representantes da chamada segunda geração da Escola de Frankfurt, em diálogo com a tradição crítica inaugurada por Adorno e Horkheimer.

Entre seus trabalhos mais conhecidos está a obra em dois volumes “Teoria do agir comunicativo”, em que propõe a linguagem e o debate racional como bases para a construção do entendimento social. Ao longo da carreira, Habermas também escreveu sobre direito, modernidade, ética e cidadania, sempre combinando elaboração teórica e intervenção nos temas políticos de seu tempo.

A defesa da modernidade e da sociedade civil feita por Habermas foi fonte de inspiração para muitos pensadores e é considerada uma importante alternativa filosófica às diversas vertentes do pós-estruturalismo. Ele também ofereceu uma análise influente do capitalismo tardio.

O alemão argumentava que a competência comunicativa se desenvolveu ao longo da evolução, mas na sociedade contemporânea ela é frequentemente suprimida ou enfraquecida pela forma como importantes domínios da vida social, como o mercado, o Estado e as organizações, foram entregues ou absorvidos pela racionalidade estratégica/instrumental, de modo que a lógica do sistema suplanta a lógica do mundo vivido.

Além da produção acadêmica, ele teve participação ativa em discussões públicas decisivas na Alemanha. Manifestou-se contra a radicalização do movimento estudantil dos anos 1960 e enfrentou teses que relativizavam os crimes do nazismo durante a chamada “disputa dos historiadores”. Trinta anos depois, tornou-se alvo de criticas, ao denunciar os riscos de um "fascismo de esquerda" para o Estado de Direito.

Em 1989, Habermas criticou as modalidades da reunificação alemã, guiadas principalmente pelas exigências do mercado e que faziam do Deutsche Mark (o marco alemão) seu estandarte. Nas últimas décadas, defendeu a integração europeia e criticou o esvaziamento do debate político. Em seus últimos anos, dedicou seu tempo a promover um projeto federal europeu, a fim de evitar que o Velho Continente caísse novamente, como ocorreu no século XX, nas rivalidades nacionalistas.

 

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