segunda-feira, 30 de março de 2026

O dilema do PSD, por Carlos Pereira

O Estado de S. Paulo

O partido precisa decidir se deve focar no eleitor anti-Lula ou ir além da polarização

A eleição presidencial de 2026 tende a ocorrer em um ambiente marcado por escândalos, investigação e desgaste institucional – um típico “clima de devassa”. Em contextos assim, a indignação se generaliza, a política passa a ser percebida como estruturalmente corrompida e a competição eleitoral se organiza menos em torno de propostas e mais em torno de rejeições.

De um lado, o incumbente paga o custo da crise. De outro, adversários exploram a narrativa de ruptura. Ainda assim, há um elemento novo: a fadiga crescente com os dois polos. A elevada rejeição tanto de Lula quanto do “Bolsonaro da hora” abre espaço para uma candidatura alternativa – desejada por um contingente expressivo do eleitorado, mas ainda sem uma conexão e narrativa clara.

É nesse ponto que emerge o dilema do PSD. O partido precisa decidir entre duas estratégias difíceis de conciliar. A primeira é ser competitivo agora, entrando no jogo polarizado e disputando votos sobretudo no campo da direita. A segunda é mais ambiciosa: construir uma alternativa real, capaz de atrair eleitores cansados da polarização, e interessada em reconstruir um eixo de moderação.

As possíveis candidaturas do partido ilustram essa tensão. Ronaldo Caiado representa uma direita democrática, com trajetória institucional e sem envolvimento em escândalos. Ainda assim, sua identidade política o aproxima mais do campo conservador. Em um ambiente polarizado, seu espaço de crescimento tende a estar entre eleitores que rejeitam Lula e, em menor medida, entre aqueles da direita que hoje orbitam o bolsonarismo sem aderir plenamente a ele. Sua dificuldade está em avançar sobre eleitores de centro-esquerda, o que limita seu potencial de expansão.

Eduardo Leite, por sua vez, apresenta um perfil mais claramente equidistante aos polos. Sua principal vantagem é justamente poder dialogar com segmentos que rejeitam simultaneamente Lula e Bolsonaro — mas também com eleitores que hoje se alinham a um dos polos mais por rejeição ao outro do que por convicção. Isso amplia seu potencial de crescimento.

A escolha entre esses caminhos não é apenas eleitoral, mas estratégica. Um desempenho competitivo de curto prazo pode não se traduzir em construção de futuro. Por outro lado, uma candidatura que consolide uma posição alternativa pode reposicionar o partido para os ciclos seguintes.

No fundo, o desafio do PSD é maior do que escolher um nome. É decidir se quer disputar a próxima eleição ou redefinir seu papel no sistema político. Em um ambiente dominado pela indignação, essa pode ser a escolha mais difícil — e decisiva.

 

 

 

 

 

 

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