segunda-feira, 30 de março de 2026

Piora o cenário para a inflação de alimentos, por Sergio Lamucci

Valor Econômico

Alta mais forte dos preços de alimentação no domicílio é má notícia para popularidade do governo, que também sofre o impacto do endividamento das famílias

A inflação de alimentos tende a ganhar força nos próximos meses, um mau sinal para a popularidade do governo. Em março, os preços de alimentação no domicílio já subiram 1,1% no IPCA-15, a prévia do indicador que baliza o regime de metas. Depois de uma variação modesta em 2025, de pouco mais de 1%, o grupo pode ter uma alta próxima de 4,5% neste ano, entre outros motivos pelos efeitos dos combustíveis mais caros sobre fretes e fertilizantes. Não é um aumento explosivo, mas parte de um nível de preços de alimentos já muito alto, devido às elevações observadas desde 2019. Esse fato, aliado ao endividamento das famílias, ajuda a explicar uma aprovação menor do governo do que sugere a força do mercado de trabalho, com desemprego baixo e renda em alta.

Os preços de alimentos deram uma trégua em 2023, quando recuaram 0,5%, e em 2025, quando subiram 1,4%. Esse comportamento, porém, não foi suficiente para mudar a percepção de boa parte da população de que a comida continua cara. Entre janeiro de 2019 e março de 2026, os preços de alimentação no domicílio aumentaram 74,11%, enquanto o IPCA-15 “cheio” subiu 47,15%, calcula o economista Fábio Romão, sócio da consultoria Logos Economia. “O nível de preços dos alimentos está muito alto”, resume Romão, que espera aumentos mais fortes desses produtos ao longo deste ano.

Ele observa que as cotações de alimentos tiveram altas expressivas entre 2020 e 2022, num cenário em que a pandemia da covid causou um descasamento das cadeias produtivas globais. No IPCA, alimentação no domicílio subiu 18,2% em 2020, 8,2% em 2021 e 13,2% em 2022, após ter avançado 7,2% em 2019. Em 2023 e 2025, houve alívio, mas nada que tenha alterado o nível de preços desse grupo - além disso, em 2024 a inflação de alimentos voltou a ficar pressionada, subindo 8,2%, especialmente por causa da estiagem severa no segundo semestre daquele ano, lembra Romão.

Nos 12 meses até março, os alimentos no domicílio subiram apenas 0,35% no IPCA-15, bem abaixo dos 3,9% do índice “cheio no período. O quadro, porém, começou a mudar já neste mês - as cotações do grupo subiram 1,1%, e a expectativa de Romão é que a alta no ano fique em 4,6%, muito próximo dos 4,5% estimados para o IPCA de 2026. No segundo semestre, deverá haver pressões sobre alimentos do fenômeno climático El Niño, diz Romão. A projeção também leva em conta as altas da carne bovina ao longo deste ano e os desdobramentos sobre os preços de outros tipos de carne, em virtude do chamado efeito-substituição, pelo qual parte dos consumidores troca a proteína mais cara por outras mais baratas.

Mas, ao comentar a sua projeção maior para os preços de alimentos em 2026, Romão destaca o impacto da alta dos preços dos combustíveis, resultado do aumento das cotações do petróleo causado pelo conflito no Oriente Médio. Apesar do efeito favorável sobre os preços de boas safras em algumas culturas agrícolas e do câmbio mais valorizado, “há o problema inequívoco ligado à alta dos combustíveis”, diz Romão. Isso vai afetar o custo do frete e mais à frente vai atingir os preços de fertilizantes, aponta ele, que já chegou a estimar uma inflação de alimentação no domicílio de 3% neste ano e agora projeta 4,6%.

Preços de alimentos em alta costumam gerar insatisfação nos eleitores, especialmente nos de menor renda, que gastam uma parcela maior de seu orçamento com esses itens. O eleitorado mais pobre é justamente o segmento em que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem a maior aprovação nas pesquisas. Um aumento dos alimentos na casa de 4,5% em 2026 não é uma avanço dos mais fortes, mas ele se dará, se confirmado, em cima de um nível de preços já muito incômodo, dada a alta de pouco mais de 74% nos últimos sete anos.

Além do nível elevado de preços de alimentos, o nível de endividamento das famílias tem aparecido com outro motivo para que o bom momento do mercado de trabalho não se traduza numa popularidade maior do governo. Em dezembro de 2025, o comprometimento da renda mensal com o pagamento de juros e amortização de dívidas atingiu 29,2%, quase 2 pontos percentuais acima do nível atingido em junho de 2024, como aponta relatório do Bradesco, assinado pelo economista Marcelo Gazzano. Segundo o estudo, há “alguma evidência de que nos últimos trimestres o canal do endividamento das famílias tenha contribuído para um menor crescimento do consumo”. Gazzano lembra que, no segundo semestre de 2025, o consumo das famílias ficou praticamente estagnado, de acordo com números do IBGE, “um desempenho historicamente fraco para esse componente [da demanda], que é altamente inercial”.

Gazzano avalia que a redução dos juros deve diminuir gradualmente o comprometimento de renda das famílias nos próximos trimestres, mas pondera que “esse fator ainda pode atuar como um vetor limitante ao avanço do consumo no curto prazo”. Com a alta do petróleo causada pela guerra dos EUA e de Israel contra o Irã, é provável que o Banco Central (BC) seja mais cauteloso no ciclo de cortes da Selic, hoje em 14,75% ao ano. Com isso, o alívio no custo do endividamento pode ser menor do que se esperava.

Inflação de alimentos mais elevada e o peso das dívidas das famílias podem afetar o desempenho de Lula na eleição, ofuscando ainda mais o potencial impacto da situação do mercado de trabalho. Num pleito em que o efeito da economia já tende a ser menor do que em outras ocasiões, porque segurança e corrupção aparecem como grandes preocupações dos eleitores, comida ainda mais cara e um nível alto de comprometimento de renda com dívidas podem tornar o quadro ainda mais complicado para o presidente.

 

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