O Estado de S. Paulo
O partido precisa decidir se deve focar no eleitor anti-Lula ou ir além da polarização
A eleição presidencial de 2026 tende a
ocorrer em um ambiente marcado por escândalos, investigação e desgaste
institucional – um típico “clima de devassa”. Em contextos assim, a indignação
se generaliza, a política passa a ser percebida como estruturalmente corrompida
e a competição eleitoral se organiza menos em torno de propostas e mais em
torno de rejeições.
De um lado, o incumbente paga o custo da crise. De outro, adversários exploram a narrativa de ruptura. Ainda assim, há um elemento novo: a fadiga crescente com os dois polos. A elevada rejeição tanto de Lula quanto do “Bolsonaro da hora” abre espaço para uma candidatura alternativa – desejada por um contingente expressivo do eleitorado, mas ainda sem uma conexão e narrativa clara.
É nesse ponto que emerge o dilema do PSD. O
partido precisa decidir entre duas estratégias difíceis de conciliar. A
primeira é ser competitivo agora, entrando no jogo polarizado e disputando
votos sobretudo no campo da direita. A segunda é mais ambiciosa: construir uma
alternativa real, capaz de atrair eleitores cansados da polarização, e
interessada em reconstruir um eixo de moderação.
As possíveis candidaturas do partido ilustram essa tensão. Ronaldo Caiado representa uma direita democrática, com trajetória institucional e sem envolvimento em escândalos. Ainda assim, sua identidade política o aproxima mais do campo conservador. Em um ambiente polarizado, seu espaço de crescimento tende a estar entre eleitores que rejeitam Lula e, em menor medida, entre aqueles da direita que hoje orbitam o bolsonarismo sem aderir plenamente a ele. Sua dificuldade está em avançar sobre eleitores de centro-esquerda, o que limita seu potencial de expansão.
Eduardo Leite, por sua vez, apresenta um
perfil mais claramente equidistante aos polos. Sua principal vantagem é
justamente poder dialogar com segmentos que rejeitam simultaneamente Lula e
Bolsonaro — mas também com eleitores que hoje se alinham a um dos polos mais
por rejeição ao outro do que por convicção. Isso amplia seu potencial de
crescimento.
A escolha entre esses caminhos não é apenas
eleitoral, mas estratégica. Um desempenho competitivo de curto prazo pode não
se traduzir em construção de futuro. Por outro lado, uma candidatura que
consolide uma posição alternativa pode reposicionar o partido para os ciclos
seguintes.
No fundo, o desafio do PSD é maior do que
escolher um nome. É decidir se quer disputar a próxima eleição ou redefinir seu
papel no sistema político. Em um ambiente dominado pela indignação, essa pode
ser a escolha mais difícil — e decisiva.

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