terça-feira, 24 de março de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Aposentadoria especial é distorção sem cabimento

Por O Globo

Quatro em cada dez aposentados brasileiros saem da ativa antes da idade mínima válida para os demais

Uma das principais distorções da Previdência no Brasil é a concessão de aposentadoria a grupos específicos antes do prazo em vigor para todos os demais. É o caso de benefícios concedidos a trabalhadores rurais, professores e profissionais expostos a agentes nocivos. Eles respondem por 38,7% das aposentadorias por idade e tempo de contribuição no Brasil, como constatou reportagem do jornal Valor Econômico. Na esfera estadual brasileira, professores da educação básica são quatro em dez aposentados. Não há paralelo em nenhum país comparável ao Brasil.

Tome-se o exemplo da Grécia, país da Europa mais generoso em matéria de aposentadorias especiais. Lá elas não chegam a 12% do total. A média dos demais países do bloco europeu fica entre 5% e 8%, em geral para casos que realmente se justificam (profissionais cuja expectativa de vida é afetada pela atividade). Em vários, tem havido convergência entre as regras adotadas para civis e militares. Por aqui, qualquer tentativa de reduzir as benesses dos servidores das Forças Armadas costuma esbarrar em resistências intransponíveis. “Enquanto em muitos países tem havido convergência, no Brasil a reforma de 2019 e outras mudanças legislativas que a antecederam ampliaram as diferenças em favor dos militares”, diz estudo do economista Rogério Nagamine Costanzi, do Ipea.

A justificativa sensata para aposentadoria antecipadas é compensar quem exerce atividade prejudicial à saúde, que diminui a expectativa de vida. Mas é sempre difícil avaliar efeitos nocivos e estabelecer relação de causa e efeito entre a profissão e a vida mais curta. No fim, acaba pesando mais a capacidade de mobilização dos grupos de pressão. Não é porque um trabalho exige fisicamente que haverá prejuízo à saúde ou à expectativa de vida — trabalhadores rurais podem levar vida mais saudável que a dos sedentários urbanos. Sem contar os avanços tecnológicos, que têm transformado o dia a dia no campo, não apenas nas grandes propriedades. A disseminação de máquinas agrícolas torna as atividades menos árduas e mais produtivas. Tal transformação não se reflete nas leis. A reforma da Previdência de 2019 avançou em várias frentes, mas manteve as distorções na aposentadoria rural (continua valendo o limite de 60 anos para homens e 55 para mulheres, ante 65 e 62 na cidade).

O caso dos professores também chama a atenção. Embora o convívio com estudantes possa ser desgastante e trazer prejuízo à saúde mental, não há comprovação de que o magistério afete de modo negativo a longevidade. Ainda assim, a categoria desfruta aposentadoria antecipada. De 1988 até 2019, não havia nem idade mínima para que se aposentassem. Depois da reforma, passou a valer 60 anos para homens e 57 para mulheres (cinco a menos), com regras de transição. Muitos estados e municípios nunca adotaram a nova regra. Na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), apenas seis países dão aposentadoria especial a professores.

Ao manter um leque amplo de profissões beneficiadas com aposentadorias especiais, o Brasil acaba por incentivar uma competição sem propósito. Todos querem entrar no grupo dos que se aposentam mais cedo. É hora de acabar com essa insanidade. Mais um motivo para o Brasil promover uma nova reforma da Previdência.

Fechamento de estações meteorológicas prejudica previsão do tempo no país

Por O Globo

Desde 2020, Brasil perdeu 46% das unidades convencionais, essenciais para séries que garantem qualidade

A rede de estações convencionais do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) tem diminuído nos últimos anos, afetando a capacidade de previsão do tempo num momento em que o Brasil enfrenta, com frequência e intensidade cada vez maiores, eventos climáticos extremos, como resultado do aquecimento global. De 2020 para cá foram fechadas 83 unidades, reduzindo o total de 180 para 97.

Neste início do ano, chuvas fortes atingiram, segundo a Confederação Nacional de Municípios, 377 cidades, com enxurradas, inundações, deslizamentos, mortes e milhares de desabrigados. Os maiores danos ocorreram na Zona da Mata Mineira — em Juiz de Fora e Ubá, 72 pessoas morreram e 4 mil foram desalojadas. Pois Minas Gerais foi justamente o estado em que mais estações foram desativadas (17, pouco mais que as 15 da Bahia).

O encolhimento da rede afeta a base de dados que sustenta as previsões do tempo. É certo que, além das 97 estações convencionais, o Inmet conta com 639 automáticas. Mas 198 delas estão inoperantes. E, mesmo mais numerosas, elas não substituem as convencionais, que contam com instrumentos mais robustos, não precisam de aferição e manutenção frequentes.

Os modelos de previsão do tempo dependem de longas séries de dados colhidos sem interrupção, por isso a preferência pelas estações convencionais, onde tudo é vigiado de perto. “Estações convencionais são fundamentais porque formam séries históricas essenciais para testar e validar modelos”, afirma a meteorologista Márcia Akemi Yamasoe, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP. Um tipo de estação não substitui o outro. Os dois se complementam, de acordo com o presidente da Sociedade Brasileira de Meteorologia, Romulo da Silveira Paz.

Um problema das estações convencionais é que a aposentadoria de servidores do Inmet reduz a equipe de coletores de dados. Uma que funcionava em São Simão (SP) desde 1920 foi fechada em2025, porque a última funcionária se aposentou. Se houvesse uma política de recursos humanos sensata, o problema não existiria. Mas a governança fragmentada da meteorologia brasileira não ajuda.

O Inmet foi criado no século XIX, voltado para necessidades do produtor rural, e até hoje está subordinado ao Ministério da Agricultura e Pecuária. É natural que os gargalos na coleta de dados meteorológicos sejam tratados com prioridade menor. A coleta e o processamento de dados de satélites meteorológicos estão a cargo do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. O modelo brasileiro contrasta com o dos Estados Unidos, onde a Administração Nacional de Oceanos e Atmosfera (NOAA) coordena previsão do tempo, satélites, pesquisa do clima e monitoramento de oceanos e atmosfera. O Brasil tem o que aprender com o modelo americano. Se houvesse um mínimo de coordenação, a rede de estações meteorológicas atenderia melhor às necessidades do país.

Farra fiscal eleva gastos das famílias com juros

Por Folha de S. Paulo

Encargos financeiros chegam a 29% dos orçamentos domésticos, mesmo com avanço da massa salarial

Ciclos econômicos também deterioram a qualidade do crédito; reformas e cuidados básicos atenuariam fenômeno

No trimestre final do ano passado, a parcela dos rendimentos das famílias dedicada ao pagamento de juros e amortização de seus débitos bancários superou os 29%, na média, cifra inédita em 20 anos. É notável que o peso do endividamento nos orçamentos domésticos tenha crescido em anos como os recentes, de alto crescimento da massa de salários.

O nível de endividamento em si mesmo não é necessariamente indício de problemas. O aumento da proporção dos empréstimos em relação ao tamanho da economia, do PIB, pode ser um sinal de democratização do crédito, acesso ao financiamento de bens mais caros e mesmo de atividade empreendedora.

O aumento do custo do serviço da dívida, no entanto, pode ser sintoma de deficiências.

No Brasil, é necessária mais cautela, dado o nível das taxas de juros, insuportavelmente elevado por problemas estruturais, como baixa taxa de poupança nacional, insegurança jurídica e irresponsabilidade fiscal —hoje em grau particularmente elevado sob Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Além do mais, os ciclos econômicos, de intensidade e frequência exageradas no país, deterioram também a qualidade do crédito e a condição financeira de famílias e empresas. O caso recente de aumento do custo do serviço da dívida é outro exemplo de reflexo de um ciclo em parte insustentável, pois artificial, de crescimento de curto prazo.

Em 2024 já apareciam sinais de economia aquecida em excesso. De resto, o real passava por outra onda de desvalorização, em parte devida à percepção de piora fiscal e ao afrouxamento das metas oficiais de ajuste.

Banco Central havia reduzido sua taxa, a Selic, de 13,75% anuais, a partir de agosto de 2023, para 10,5%, em maio de 2024. Em setembro daquele ano, o BC teve de voltar a elevar os juros.

O custo do crédito bancário livre para pessoas físicas passou a subir. O peso da amortização em relação aos rendimentos familiares ficou maior. Ao longo de 2025, subiu a inadimplência —alguns analistas sugerem a hipótese de que isso também tenha sido causado pela inexperiência da população recentemente bancarizada em lidar com o crédito.

O aumento do peso do serviço da dívida deveu-se na maior parte aos juros nas alturas, indicam as estatísticas do Banco Central. Além do mais, em relação à renda total das famílias, o aumento relativo do serviço foi maior do que o do endividamento.

A inadimplência talvez venha a cair nos próximos meses, com as renegociações de dívidas bancárias. Se a guerra entre os EUA e o Irã não o impedir, as taxas de juros devem cair, assim como o peso do endividamento, se não houver desaceleração maior no mercado de trabalho.

Variações cíclicas são comuns em qualquer economia. No Brasil, as flutuações são mais intensas e frequentes. Reformas e cuidados macroeconômicos rudimentares atenuariam tais ciclos.

Gatilho da violência doméstica, álcool exige regulação

Por Folha de S. Paulo

Média de 70 ocorrências diárias em SP expõe a importância de sobretaxar bebidas e ampliar campanhas educativas

A exemplo do que se faz com sucesso na indústria tabagista, publicidade deve ser restrita e trazer alertas

Um dos efeitos mais perversos do uso abusivo do álcool, de longe a droga mais consumida no país, é servir de gatilho para os já predispostos à violência doméstica: pode reduzir o autocontrole e aumentar a impulsividade; facilitar interpretações equivocadas, como ciúmes ou ameaças imaginárias; escalar qualquer discussão banal para agressões verbais e físicas.

Essa associação explosiva ganha contornos dramáticos em levantamento do Instituto Sou da Paz e da ACT Promoção da Saúde, com base em dados obtidos via Lei de Acesso à Informação.

Entre 2023 e 2024, os pesquisadores identificaram 50.805 ocorrências de violência doméstica envolvendo consumo de álcool apenas no estado de São Paulo —uma média de 70 casos por dia.

Em sua maioria, o roteiro se assemelha: os ataques são concentrados aos fins de semana, no período noturno, dentro de casa e, como imaginado, praticados por homens; mulheres são as principais vítimas, mas crianças e idosos também podem ser alvos.

O álcool é um psicoativo legalizado —e assim deve permanecer; os quase 14 anos de Lei Seca nos EUA provocaram consequências desastrosas, com produção clandestina, crises sanitárias e fortalecimento do crime organizado.

Legalização, contudo, não implica permissividade. Associadas a campanhas educativas massivas, as restrições precisam permanecer rigorosas.

A começar pela proibição efetiva da venda para menores, nem sempre observada, e por limites a horários de funcionamento de bares, que já colheram bons resultados ao reduzir taxas de homicídio em regiões violentas.

tributação elevada de bebidas alcoólicas, tema que constará da regulamentação da reforma dos impostos, deve evitar preços irrisórios e desincentivar o consumo, além de angariar recursos para o sistema de saúde pública.

Por fim, as restrições à publicidade precisam ser reexaminadas com regularidade —hoje há brechas legais para cerveja e parte dos vinhos e forte dependência da autorregulação do Conar, organização privada que fiscaliza a ética publicitária.

Cumpre avaliar a eficácia de alertas como "se beber, não dirija" e "beba com moderação". À indústria tabagista, por exemplo, foram aplicados com sucesso mensagens duras sobre as consequências do consumo.

Abominável por si só, a associação do etilismo à violência doméstica também pode impulsionar desestruturação familiar, crises psicossociais duradouras e risco considerável de repetição de padrão na próxima geração.

Trump piscou

Por O Estado de S. Paulo

Recuo de Trump de seu ultimato ao Irã, sob o argumento de que houve avanços em negociações – que Teerã nega –, indica que a guerra está causando mais prejuízos do que ele é capaz de justificar

O ultimato foi claro. O recuo, ainda mais. Após ameaçar, no sábado, “obliterar” a infraestrutura energética do Irã caso o país não reabrisse o Estreito de Ormuz em 48 horas, Donald Trump suspendeu ontem a ofensiva por cinco dias, alegando avanços diplomáticos – que Teerã logo desmentiu. Trump quis vender progresso, mas só expôs seus limites.

Desde o início da guerra, a condução americana oscila entre declarações de vitória iminente, promessas de escalada e sinais de desengajamento. Os objetivos mudam conforme os acontecimentos: conter o programa nuclear, destruir capacidades militares, forçar uma mudança de regime, impor rendição. O que se vê é uma campanha militar eficaz em termos táticos, mas carente de um eixo político que a organize.

A ambiguidade cobra seu preço porque a guerra não se desenrola apenas no campo de batalha. Ao fechar o Estreito de Ormuz, o Irã encontrou uma forma eficiente de compensar sua inferioridade militar. Não precisa vencer; basta perturbar. O bloqueio nem sequer precisa ser total: a mera incerteza já é suficiente para afastar navios, elevar prêmios de seguro, pressionar preços e contaminar as expectativas em cadeia. O custo de causar disrupção é baixo, e o de restaurar a normalidade é alto e crescente.

À medida que esse conflito assimétrico se prolonga, a margem de manobra americana se estreita. A pressão sobre mercados, aliados do Golfo e o eleitorado doméstico decorre não exatamente de um fracasso militar, mas de uma realidade estratégica mais incômoda e difícil de superar: domínio aéreo não garante controle sobre as consequências econômicas e políticas do conflito. Para as monarquias árabes, expostas a ataques e dependentes do fluxo contínuo de energia, a guerra é uma ameaça direta à sua estabilidade. Esses países não podem se dar ao luxo de uma guerra aberta nem de uma paz instável. Para Washington, que prometeu ordem, a guerra passou a produzir instabilidade.

O recuo de Trump não inaugura uma fase diplomática. Ele é um reflexo desse impasse. Não se trata propriamente de prudência tática, mas do reconhecimento de um limite político: há um ponto a partir do qual os custos deixam de ser justificáveis. O cálculo do regime iraniano é simples: quanto mais o conflito se prolonga, mais ele pressiona preços, alianças e expectativas internas. Para os Estados Unidos, o que parecia uma campanha de duração limitada e fadada ao sucesso começa a adquirir os contornos de um problema político multifacetado – difícil de explicar, mais difícil ainda de sustentar.

O problema é que nenhuma das alternativas disponíveis oferece uma saída satisfatória. Negociar exigiria concessões que nenhuma das partes parece disposta a fazer. Encerrar a guerra agora deixaria intactos os instrumentos de pressão iranianos – do programa nuclear ao veto energético. Prolongar a campanha elevaria custos sem assegurar resultados decisivos. Escalar ampliaria riscos regionais e poderia aprofundar o choque econômico global. Não há escolha sem ônus estratégico relevante.

E mesmo a escolha não resolve tudo. Washington não decide sozinho o ritmo ou o desfecho do conflito. Israel tem seus próprios objetivos e horizonte político. O Irã, acuado, tem incentivos para prolongar a crise e demonstrar capacidade de infligir custos. Os aliados árabes, diretamente expostos, oscilam entre apoio e cautela. A guerra é cada vez menos um instrumento de decisão unilateral e cada vez mais um sistema de pressões cruzadas.

Daí o paradoxo que se impõe. Os Estados Unidos e Israel avançaram no desmonte das capacidades militares iranianas. Ainda assim, a posição estratégica de Washington se tornou mais delicada. A consequência é uma vitória tática que convive com uma crescente vulnerabilidade estratégica. Quanto mais a campanha progride, mais difícil se torna justificá-la, e, por conseguinte, encerrá-la em termos favoráveis.

O recuo recente não prenuncia o fim da guerra. Indica algo mais relevante: a percepção de que seus custos já ultrapassam o que pode ser politicamente administrado. Em conflitos como esse, iniciar é uma escolha clara. Já terminar, é cada vez menos.

Pacto democrático pela vida das crianças

Por O Estado de S. Paulo

Unicef mostra que a mortalidade infantil no Brasil chegou ao menor patamar em 34 anos. Isso só se tornou possível porque o problema foi enfrentado como política de Estado, e não de governos

A taxa de mortalidade infantil no Brasil está no seu nível mais baixo em mais de três décadas, segundo um relatório do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). O número de crianças que morriam antes de completar 28 dias de vida a cada mil nascimentos caiu de 25,1 em 1990 para 7,1 em 2024. Já o número de crianças que não chegavam ao quinto ano de vida a cada mil nascimentos recuou, no mesmo período, de 62,8 para 14,2.

Não são nada triviais essas conquistas do Brasil: houve uma queda de 72% na taxa de mortalidade neonatal e de 77% na taxa de mortalidade entre os menores de 5 anos de idade. E o País registrou ainda taxas abaixo das médias mundiais, de 17,2, no caso de mortalidade neonatal, e de 37,4, entre os menores de 5 anos.

Ou seja, além de apresentar um desempenho positivo em relação ao seu próprio passado, o Brasil também obteve êxito diante dos indicadores globais. Não à toa, o País já bateu a meta de redução da mortalidade infantil traçada pela ONU para 2030 pelos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), de 12 mortes a cada mil nascidos vivos no caso de mortalidade neonatal e de 25 por mil no caso de mortalidade entre os menores de 5 anos.

Nada disso é fruto do acaso. A queda da mortalidade infantil no Brasil decorre de uma acertada decisão das famílias, da sociedade e do Estado brasileiro de elegerem a proteção da infância como uma prioridade absoluta. Isso significa que a questão foi tratada mais ou menos com a mesma seriedade por vários governos de diferentes colorações ideológicas, tornando-se efetiva política de Estado. Não à toa, os bons indicadores coincidem com as transformações recentes do País.

A Constituição federal, de 1988, e o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), de 1990, expressam muito bem essa escolha política. E, com base nas diretrizes dos dois principais marcos legais de proteção da infância, pode-se dizer que os avanços do Brasil são fruto da democracia.

Foi principalmente a partir do governo Fernando Henrique Cardoso que o Brasil abraçou a missão de cuidar das crianças desde a gestação. Ao longo dos anos, esse compromisso foi mantido nos governos do PT, de Michel Temer e de Jair Bolsonaro. Foram as políticas de Estado que permitiram ao Brasil colher tantos feitos hoje.

São todas políticas públicas bem desenhadas e executadas que atravessaram gestões. Entre elas estão a universalização da saúde, o acesso ao pré-natal, as campanhas de vacinação e o estímulo à amamentação. Além disso, houve a universalização da educação, com a obrigação dos pais de matricularem seus filhos na escola, onde as crianças aprendem e se alimentam. Não menos importante, houve o efeito de programas sociais de transferência de renda que exigem frequência escolar e caderneta de vacinação em dia.

Apesar de poder comemorar, o Brasil não pode baixar a guarda. A chefe de Saúde e Nutrição do Unicef no Brasil, Luciana Phebo, afirmou ao Estadão que o País é um exemplo positivo para o mundo, mas precisa ainda fazer muito mais, haja vista que as desigualdades regionais persistem. Para se ter uma ideia, a taxa de mortalidade neonatal no Norte é de 19,7 crianças a cada mil bebês nascidos vivos.

Ainda continuam morrendo crianças com idade neonatal em decorrência de prematuridade, anomalias congênitas e complicações no parto. E isso poderia ser mitigado com um acompanhamento pré-natal com mais consultas. Até os 5 anos de idade, as doenças infecciosas ainda matam: ou seja, é preciso melhorar a cobertura vacinal, após um período de disseminação irresponsável de discursos antivacinas.

As vitórias já acumuladas e os desafios persistentes indicam que o Brasil salvou e pode salvar ainda muito mais vidas. Prova disso é que o número de mortes de recém-nascidos caiu de cerca de 92 mil, em 1990, para menos de 19 mil, em 2024. O País tem expertise para acelerar a queda da mortalidade neonatal e entre as crianças com até 5 anos, dissipando, assim, as desigualdades regionais.

Lei bem feita não cai

Por O Estado de S. Paulo

Câmara de SP e Prefeitura mudam zoneamento de modo duvidoso e agora reclamam da Justiça

A Prefeitura de São Paulo e a Câmara Municipal parecem culpar o Ministério Público (MPSP) e o Tribunal de Justiça (TJSP) pela paralisia do setor imobiliário da capital. Desde fevereiro, uma decisão liminar do Órgão Especial da corte paulista atendeu a um pedido feito pelo procurador-geral de Justiça, Paulo Sérgio de Oliveira e Costa, e suspendeu a emissão de alvarás para demolição ou construção na cidade. E, enquanto não há uma decisão final, a metrópole, os empresários e os cidadãos sofrem.

Esse congelamento, por óbvio, impacta o mercado. Segundo a Secretaria Municipal de Urbanismo e Licenciamento (SMUL), a medida pode travar mais de 4 mil processos, dos quais mais de 1,3 mil referentes a alvarás de moradia popular. Em recurso apresentado ao Supremo Tribunal Federal (STF), a Câmara Municipal afirmou que a decisão impede a arrecadação diária de R$ 4,2 milhões com as licenças, compromete 197 mil postos de trabalho e ameaça investimentos da ordem de R$ 90 bilhões na construção civil.

Como se vê, o risco de perdas é alto. E, não à toa, as incorporadoras estão apreensivas à espera de uma resolução para o impasse em torno da revisão da Lei de Zoneamento, aprovada há dois anos. Mas, para Oliveira e Costa, chefe do MPSP, o projeto de lei inicial era sintético e uma revisão da revisão, aprovada posteriormente pelos vereadores, ampliou seu escopo sem contar com a devida participação popular, o que, na sua visão, torna a iniciativa inconstitucional.

O prefeito Ricardo Nunes, claro, reagiu. Para ele, a liminar é “equivocada” e “invade a competência do Legislativo e do Executivo”, haja vista que o processo legislativo e a sanção da lei seguiram todos os trâmites legais. E, segundo Nunes, a liminar causa “insegurança jurídica, o que é ruim para a cidade”. Tem razão o prefeito: o congelamento da emissão de alvarás deteriora o ambiente de negócios, põe em risco milhares de empregos e causa prejuízo à cidade. Mas o problema não é a atuação do Ministério Público nem do Judiciário.

Quando da tramitação do projeto de lei de revisão da Lei de Zoneamento, a sociedade civil organizada reclamou de uma suposta falta de diálogo. O argumento do MPSP é de que, embora tenha havido audiências públicas na primeira rodada de discussão do projeto de lei, não houve participação popular a contento durante a revisão da revisão. Faltou, portanto, prudência à Câmara e à Prefeitura.

As mudanças feitas pelos vereadores autorizaram a construção de prédios maiores e liberaram a verticalização de regiões antes horizontais. Diante de tais mudanças, a participação popular não era um mero formalismo: tratava-se de um instrumento de controle social para assegurar que os cidadãos fossem ouvidos. Portanto, a responsabilidade pela paralisia geral no setor imobiliário é da Câmara, que aprovou a revisão da Lei de Zoneamento, ao que tudo indica, de forma açodada, e da Prefeitura, que a sancionou. Uma lei bem feita não é questionada, suspensa ou derrubada.

Chance de acordo com Irã retarda escalada de preços

Por Valor Econômico

Mas nunca é possível saber ao certo o que Trump está planejando

O presidente Donald Trump disse ontem, de repente, que está negociando o fim da guerra com o governo iraniano. É importante que ele esteja falando a verdade porque o simples sinal de que existe alguma possibilidade de entendimento foi suficiente para derrubar em 10% as cotações do petróleo e aliviar a pressão sobre os juros dos títulos de dívida emitidos pelos governos, um problema sério potencializado pelo conflito. A continuidade da guerra ampliaria a escassez que já aparece em vários países, apertaria as condições financeiras, aumentará muito a conta do petróleo — com a média do preço do barril subindo a cada dia — além de reduzir danos à infraestrutura e permitir uma transição menos lenta do mercado para a normalidade.

Nunca é possível saber ao certo o que Trump está planejando, o que é tido, pelo menos por ele, como um de seus trunfos políticos, não importa que com isso desoriente até mesmo seus mais próximos conselheiros no governo. Antes do ultimato de 48 horas para que o Irã reabrisse o Estreito de Ormuz, o governo americano pedira US$ 200 bilhões extras ao Congresso e ordenara o deslocamento de mais 5 mil soldados para a região conflagrada. Trump anunciou, perto do fim do prazo dado ao Irã, que houve conversas “produtivas” com o regime dos aiatolás, o que foi entendido pelos analistas como mais um de seus habituais recuos e como a procura de uma saída para o que seria o erro de ter começado a guerra contra o Irã, para o qual não há desenlace fácil, sem custos e sem recuos mútuos.

O petróleo ultrapassou os US$ 100 desde 8 de março e lá continua. O Goldman Sachs refez projeções, agora contemplando cenário de maior duração da guerra e a possibilidade de o barril ultrapassar o recorde de US$ 147, durante a guerra na Ucrânia. O banco calcula que a média do preço em 2026 se elevará para US$ 85, partindo da premissa de um fluxo de apenas 5% do petróleo que normalmente transita pelo estreito durante seis semanas, antes do início de lenta normalização. A destruição já realizada retiraria por algum tempo dois milhões de barris diários e a corrida para repor estoques manteria preços aquecidos até 2027, com média de US$ 80 o barril.

O abastecimento pelo Estreito de Ormuz tem grande importância principalmente para a Ásia, onde vários países começaram a racionar o produto, controlar preços e sobretudo executar medidas para reduzir o consumo. O Japão tem 81% de suas importações de combustível vindas da região, e a Coreia do Sul, 62%. Em vários países, os estoques não são altos. Os da Índia, por exemplo, duram 74 dias (FT, 20 de março). A diminuição do escoamento do gás natural provocou disputa pelo produto, que disparou de preço no mercado europeu. Trump ameaçou a União Europeia de retirar-lhe a preferência de venda do gás americano caso ela não faça um acordo comercial, hoje suspenso, após a Suprema Corte considerar ilegais as tarifas.

A guerra inverteu o rumo das políticas monetárias. De um lado, o choque do petróleo deve espalhar a inflação por alimentos, transportes e serviços em geral, o que provocou uma reação dos bancos centrais em sua primeira linha de defesa: interromper a redução dos juros, como nos EUA e Reino Unido. Os investidores, porém, já avaliam como provável uma nova rodada de alta dos juros, em resposta aos aumentos de preços. A alta dos juros de curto prazo, que são os que os BCs têm capacidade de influenciar, já vem ocorrendo, mas o fator preocupante é que os juros de longo prazo também estão se deslocando para cima.

Como maiores tomadores de recursos, os governos estão com dívidas muito altas, um legado da covid que foi acentuado, e necessitam de mais dívidas para pagar as que vencem. O financiamento desses títulos encareceu. O título do Tesouro de dez anos, antes da promessa de negociação Trump, chegou a 4,4%, pouco abaixo da maior marca anual, 4,5%. Os papéis do Reino Unido estão sob forte pressão, enquanto sobem os rendimentos exigidos para adquirir bônus da França, Alemanha e Itália.

Juros maiores tenderão a deprimir os preços das ações, perturbando também a trajetória das empresas que investem na inteligência artificial. Por Ormuz passa um terço do suprimento de gás hélio, usado para resfriamento na produção de chips, vorazmente consumidos pelos data centers.

A geopolítica explosiva do Oriente Médio põe em dúvida a conveniência de localização dos investimentos em data centers na região — a explosão de duas instalações da Amazon perto de Dubai e em Bahrein é um lembrete sobre isso. A guerra poderá impulsionar a reprecificação ampla dos ativos, que pode ser tumultuosa. O choque do petróleo no Brasil pode ser intenso, mesmo sendo o país um grande produtor. O diesel, que move as safras e transporte rodoviário, é em boa parte importado e subiu 20% de preço. O dólar voltou a se fortalecer, o que não é um bom sinal para a inflação. A perspectiva de o Fed ter de subir os juros coloca algum limite para a queda aqui. Com o conflito no Oriente Médio, os juros de médio e longo prazo subiram, mesmo quando o BC reduziu a Selic, uma prova da enorme desconfiança sobre a trajetória da dívida pública, que o governo Lula, com aumentos de gastos, nada fez para diminuir.

Hora da verdade para a ONU

Por Correio Braziliense

Na arena das relações internacionais, o desafio lançado para todas e cada uma das nações é resgatar o espírito sob a qual a ONU foi fundada

A guerra de Estados Unidos e Israel contra o Irã, com seus desdobramentos pelo Oriente Médio, avança pela quarta semana com uma entre poucas certezas, em meio ao bombardeio de notícias falsas e versões conflitantes. Variáveis e incógnitas à parte, desfila pelos noticiários, aos olhos de governos, autoridades, estudiosos e quem mais acompanhe os acontecimentos, a absoluta impotência do sistema multilateral de relações internacionais para responder a mais um conflito.

São agravantes, no caso, as implicações imediatas sentidas pela economia global. Em especial, a instabilidade extrema no mercado de petróleo e derivados e, por tabela, das demais commodities exerce desde logo pressões inflacionárias em escala planetária. A trava nos índices de crescimento acende sinais de alerta para todos os extratos: desde as potências industriais aos bolsões de pobreza extrema, passando pelos países emergentes, todos refazem as contas.

No fim de semana, em sua fala durante encontro entre países latino-americanos e africanos, na Colômbia, o presidente Lula voltou a bater na tecla da impotência da ONU para fazer frente a mais uma guerra — desta vez, com potencial evidente para abarcar toda uma região do globo e, eventualmente, o conjunto do planeta. Desde seus primeiros mandatos, a política externa brasileira tem entre seus focos o esforço pela reforma das Nações Unidas, em especial de seu centro de decisões, o Conselho de Segurança.

É fato, confirmado e reforçado a cada episódio, que o modelo atual, moldado para responder à realidade do pós-Segunda Guerra Mundial, parece vencido. E não faltam razões aos que clamam pela demolição pura e simples do sistema ONU. A realidade cotidiana do mundo, porém, sugere que uma solução do tipo, sob a aparência de tratamento "radical" e "profundo" para o problema, pode dar legitimidade ao que se manifesta de mais grave no presente: a aplicação, na prática, da "lei do mais forte".

Iniciativas como a lançada e articulada pelo presidente dos EUA, Donald Trump, na forma de uma "ONU" em que ele próprio — ou os EUA — detenha o comando vitalício terão pouco ou nada a aportar para o verdadeiro impasse. O chamado da realidade, do ponto de vista dos interesses humanos globais, é para quebrar o "cartel" dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança, com seu poder de veto exclusivo. Não será solução oficializar o monopólio de apenas um deles sobre as decisões de interesse comum.

Na arena das relações internacionais, o desafio lançado para todas e cada uma das nações é resgatar o espírito sob o qual a ONU foi fundada, em 1945, sobre as ruínas, as cicatrizes e os milhões de cadáveres legados pelo maior conflito armado da história humana.

Que as primeiras oito décadas de vida das Nações Unidas tenham servido, ao menos, para plantar as raízes de um mundo verdadeiramente multipolar. Onde problemas de alcance global, como a miséria, a fome e as mudanças climáticas, sejam tratados efetivamente como questões de todos. O contrário, o retorno fácil ao "cada um por si", ao "quem pode mais chora menos", é promessa de sofrimento certo para muitos, com o risco de falência segura — esta, para todos.

A morte do secretário e o crime organizado

Por O Povo (CE)

Os investigadores da Polícia Civil do Ceará trabalham, nesse momento, com a suspeita de que o assassinato do secretário de Administração de São Luís do Curu, Ricardo Abreu Barroso, ocorrido na manhã da última quinta-feira, deu-se a mando do chefe local de uma facção criminosa. No caso, o Comando Vermelho.

É o que consta no Auto de Prisão em Flagrante (APF) de Gleiciane Barbosa Diniz e Laila Aparecida Rodrigues Menezes, ambas de 24 anos e acusadas de terem feito o monitoramento da vítima e indicado para os executores o momento de agir. Elas foram flagradas em câmaras de vídeo circulando repetidamente, a bordo de uma moto, próximo à loja de material de construção que pertencia ao secretário.

O crime, que abalou a população do município localizado na Região Metropolitana de Fortaleza, aconteceu à luz do dia, à vista de uma gente assustada e com medo. Uma afronta, que as autoridades policiais devem se sentir obrigadas a responder com eficiência e rapidez, agora que tiveram a indicação, pelas presas, de que o mandante teria sido Wesley Pereira Albino, o "Guaxinim".

Prender o suspeito deve ser prioridade máxima, nesse momento. Menos por razões eleitorais, considerando-se que o governo do Ceará deva ser cobrado nas urnas pelo quadro crítico na área de segurança pública, e mais porque a sociedade foi desafiada pelo assassinato cruel, executado de maneira fria e cruel, do ocupante de um cargo público, expondo o nível de desproteção a que se encontram submetidos os cidadãos em geral.

Consta que havia pressão da facção sobre o secretário, que é pai do atual presidente da Câmara de Vereadores do município, Júnior Abreu, e tio do prefeito, Tiago Abreu, para que usasse a influência da família para reduzir a pressão da polícia sobre a atividade criminosa do Comando Vermelho. A recusa dele em agir, imaginando-se que também não tivesse força para fazê-lo, caso tentasse, levou ao ato extremo determinado pelo tal "Guaxinim", que encontra-se hoje foragido, muito possivelmente em comunidade do Rio de Janeiro controlada pelo grupo do qual faz parte.

É tudo inaceitável e a ação do Estado para se contrapor ao quadro será fundamental como fator de inibição de outros movimentos violentos de dimensão igual. As prisões já acontecidas indicam um esforço nesse sentido, mas parecem insuficientes para gerar umn sentimento tranquilizador para a sociedade, de São Luís do Curu, inicialmente, mas, na verdade, do Ceará como um todo.

O ideal seria que o assunto fosse tratado com a seriedade que requer, inclusive da parte dos adversários do governo da vez. Reverter o quadro - que diz respeito a uma realidade nacional, ressalvados os componentes locais que o agravam ou amenizam, dependendo das circunstâncias -, precisa ser entendido como tarefa de todos, cada qual no limite de sua competência. E, sim, quem está no poder tem responsabilidade maior nesse esforço.

O crime não pode vencer as forças de bem, isso é ponto pacífico. O governador e sua equipe da área de segurança pública têm, nesse momento, o desafio e a obrigação de garantir que no Estado prevaleça, mais uma vez. 

 

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