O Estado de S. Paulo
A melhoria da capacidade de atuação das
Forças Armadas tem de ser vista como uma questão de Estado, com uma visão
estratégica de médio e longo prazo
Em janeiro passado, o presidente Lula convocou uma reunião com o ministro da Defesa, os comandantes das três Forças e o chefe do Estado-Maior Conjunto para analisar as vulnerabilidades do Brasil no caso de uma ameaça externa. A preocupação, oportuna neste momento, mas muito atrasada do ponto de vista da defesa da soberania, tem de ser também entendida pela sociedade e pela classe política, distantes desse problema, cada vez mais urgente diante das incertezas globais e pela insegurança interna.
O sinal de alerta foi dado ao se constatar
que o País hoje é indefeso. No encontro com Lula, os militares ofereceram um
quadro realista e preocupante. Foi dado como exemplo o fato de o Brasil não
dispor de uma capacidade de defesa antiaérea que sirva como dissuasão para
qualquer ameaça externa. Evidentemente, o Brasil e qualquer outro país da
região estão longe de dispor da capacidade de dissuasão para impedir a ação
militar de uma superpotência como os EUA. A defasagem dos equipamentos bélicos
disponíveis não poderá ser corrigida nem a curto nem a médio prazo, inclusive
porque o Brasil depende, na sua quase totalidade, de equipamentos dos EUA e da
Europa.
Um plano de investimentos na área de Defesa
para o longo prazo foi apresentado pelo ministro José Múcio. O plano prevê
investimentos de R$ 800 bilhões em 15 anos, sendo R$ 456 bilhões para projetos
do Exército e R$ 250 bilhões para a Marinha e o restante para a Força Aérea. O
valor é bem superior ao programa de defesa nacional de cerca de R$ 15 bilhões
aprovados para 2026 e aos R$ 30 bilhões nos próximos seis anos para projetos
estratégicos de defesa nacional.
O conflito no Oriente Médio começou a ser
estudado pelo Exército para identificar riscos e impactos críticos para a
Defesa a partir da ação e estratégia aplicadas no conflito. Como era de se
esperar, os resultados apontaram para as deficiências e vulnerabilidades
brasileiras nessa área. A nacionalização dos componentes e a diversificação dos
fornecedores para os programas estratégicos e para a produção de munição,
blindados e o desenvolvimento de um sistema de comunicações nacional foram
algumas das conclusões alcançadas. Como uma das primeiras medidas para
fortalecer a Defesa, o Exército tornou a artilharia antiaérea um projeto
estratégico a ser desenvolvido de imediato.
Não será fácil nem rápido, o trabalho para
ajustamentos internos de hábitos e práticas para a definição de uma nova
política de Defesa.
As deficiências da Defesa não se limitam
apenas ao orçamento reduzido e a insuficiente compra de equipamento bélico no
exterior. A melhoria da capacidade de atuação das Forças Armadas (FFAA) tem de
ser vista como uma questão de Estado, com uma visão estratégica de médio e
longo prazo. Ao Ministério da Defesa cabe a liderança de uma ampla discussão
interna corporis – seguida de negociação com outros ministérios relevantes e o
Congresso Nacional – sobre a reestruturação do sistema de Defesa para
implementar mudanças estruturais, como a implantação de uma carreira civil, a
redução gradual dos encargos com o pessoal ativo e inativo e a modernização do
modus operandi das três Forças, inclusive com a criação da Base Logística de
Defesa – difícil de ser aceita pelas FFAA – para coordenar as aquisições
militares, a diversificação das fontes de suprimento dos equipamentos (Índia e
Turquia) e o estímulo à indústria nacional, com o gradual aumento das compras
de empresas nacionais. Um primeiro passo nessa direção pode ser a unificação e,
no futuro, extinção dos escritórios de compras das três Forças no exterior e o
fortalecimento da Secretaria de Produtos de Defesa (Seprod).
A Câmara de Relações Exteriores e Defesa
Nacional do Conselho de Governo (Creden), órgão de assessoramento ao presidente
da República nas áreas de relações exteriores e defesa nacional, poderá
melhorar a coordenação dentro do governo e ter maior interação com a sociedade
civil, conforme previsto no decreto de institucionalização. A Creden poderá
discutir e acompanhar políticas públicas na sua área de competência, em
articulação com os demais órgãos responsáveis; promover a articulação e
acompanhar a implementação de programas e ações interministeriais, incluindo
temas como Defesa e relações exteriores.
O acompanhamento dos temas de Defesa no
contexto dos interesses mais amplos do País e levando em conta os desafios
globais e nacionais indicaria que o primeiro assunto a ser discutido pela
Creden deveria ser a vulnerabilidade da segurança interna e externa do Brasil e
como reforçar a Base Industrial de Defesa.
Em ano eleitoral, é difícil que temas que não
tenham um efeito imediato ou que não sejam prioritários para os eleitores sejam
focados pelo Congresso e pelo governo. Nesse sentido, os primeiros passos para
a implementação das atribuições da Creden, pelo próximo governo, deveriam ser
dados ainda este ano para que o futuro governo possa elaborar uma política de
curto, médio e longo prazo para a Defesa nacional.
A discussão desses temas tão relevantes para
o interesse nacional não deveria estar fora dos debates eleitorais em que os
candidatos se comprometam com um projeto de Estado para as questões
relacionadas com a segurança externa e interna do País.

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