O Estado de S. Paulo
Fragilidade política e impulsividade de Trump podem levar a decisões ainda mais erráticas
A derrubada de um caça americano e a destituição do comandante do exército dos EUA introduzem novas fragilidades na condução da campanha no Golfo Pérsico, sobretudo quando Donald Trump demonstra não ter um plano para uma saída politicamente viável dessa guerra. Ele insiste na tese, materialmente falsa, de que obteve mudança de regime no Irã, de que o país está militarmente aniquilado e de que a reabertura do Estreito de Ormuz deve ser tarefa dos países que dependem da energia que transita por lá.
Se tudo isso fosse verdade, não haveria mais
razão para o engajamento dos EUA. Trump ao mesmo tempo planeja escalar a guerra
e empregar paraquedistas, marines e tropas terrestres, o que prova que seu
governo não reúne condições políticas para declarar vitória e encerrar a
campanha. Para coroar o impasse, a defesa antiaérea iraniana, que Trump
declarou neutralizada, derrubou um caça F15E no sudoeste do país.
Trump ameaçou atacar a infraestrutura de
energia e de dessalinização do Irã. Isso é crime de guerra. Há resistência
interna nas forças armadas americanas a cumprir ordens como essa, pelas quais
os militares podem responder futuramente perante a Justiça. O Pentágono
anunciou a ida precoce para a reserva do general Randy George, comandante do
exército. Nomeado em 2023 para o cargo, ele tipicamente ficaria até 2027. Os
deputados republicanos Rich McCormick e Austin Scott, assim como o general da
reserva Jack Keane, vieram a público defender George.
Outros dois generais, David Hodne, chefe do
Comando de Transformação e Treinamento, e William Green Jr., chefe do Corpo de
Capelães, também foram destituídos. Em dezembro, o almirante Alvin Holsey,
chefe do Comando Sul, deu baixa após um ano no cargo, quando o mandato típico é
de três anos. O Comando Sul executava os bombardeios de embarcações no Caribe,
igualmente considerados crimes de guerra.
A destituição de comandantes é incomum nos
EUA, ainda mais no meio de uma guerra. A crise política se agrava com a
resistência, no Congresso, à proposta de US$ 1,5 trilhão de orçamento de defesa
para o próximo ano fiscal, que começa em outubro – aumento de 40%. Isso no
contexto de cortes para outras áreas e de eleições legislativas em novembro.
Pesquisa Ipsos/Reuters indica que apenas 12%
dos americanos acham que a guerra terá impacto positivo e 86% estão preocupados
com a segurança dos militares. Esse ambiente de fragilidade política, combinado
com a personalidade impulsiva de Trump, pode levar a decisões ainda mais
erráticas e impensadas.

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.