domingo, 5 de abril de 2026

Um fardo para o candidato Lula, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Lula errou ao colar no STF na fase das vacas gordas e erra ao tentar se descolar na das vacas magras

O presidente Lula errou duas vezes. A primeira, ao colar no Supremo e em Alexandre de Moraes na época das vacas gordas, a da resistência, do julgamento e da condenação de Bolsonaro e generais do golpe. A segunda, agora, ao tentar se descolar da época das vacas magras, com um ministro atrás do outro caindo na esparrela do Master e a imagem do Supremo definhando com a seca.

Fez sentido Lula assumir a liderança pró-democracia contra o quebra-quebra de Planalto, Supremo, Câmara e Senado no fatídico 8/1, reunindo presidentes dos demais Poderes e governadores de toda a Federação para dizer “não”, condenar os atos e atrair a repulsa da população contra a barbárie. Apesar da natural casquinha política, ele estava no seu papel de chefe de Estado e da Nação.

O problema começou quando Lula, o Planalto e o PT quiseram tirar casquinha também dos louros do Supremo, porque embolaram decisões jurídicas com política, puseram o pé no Supremo e sugaram não só a Corte, mas principalmente Moraes, para o balaio petista. Como se tudo não passasse de um conluio político – versão maliciosa que as redes bolsonaristas se esgoelam para ratificar.

Juiz com lado, ministro do

Supremo com partido? Foi péssimo para Moraes, mas também para Lula. Quando veio a seca, sob as revelações de contratos, jatinhos, jantares e intimidades de ministros com Vorcaro, “vazando” que estava “irritado” com Dias Toffoli e “incomodado” com Moraes.

O presidente não tem opção. Não pode atacar Moraes diretamente, muito menos defendê-lo. Então, tenta sair de fininho do campo de batalha e lavar as mãos, sem passar pelo ridículo de combater a seca feroz com um pequeno regador.

Não há até agora, pelo menos, um fiapo de ligação de Lula com Master, Vorcaro, Fabiano Zettel e Augusto Lima, a não ser uma conversa no Planalto, dessas que acontecem toda hora, em todo governo, aparentemente, neste caso, sem causa e efeito. E lá foi Lula classificar o escândalo como “ovo da serpente” do governo Bolsonaro.

Ou seja, tentou empurrar o escândalo para o lado oposto da polarização. O foco nem é Jair Bolsonaro, mas seu oponente Flávio. O escândalo, porém, atinge em cheio é o Supremo, apesar de afetar a política e contaminar a eleição de outubro. Depois de Toffoli, Moraes, agora Nunes Marques em jatinhos, além do filho de Fux em camarotes da Sapucaí…

O que arranha Lula não é um ato dele, do Planalto ou do governo favorecendo ilegal ou ilegitimamente Master ou Vorcaro, é a ligação com o STF e Moraes. Além de atingir o Supremo, o ministro que liderou a resistência ao golpe tornou-se um fardo para o candidato Lula.

 

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