Folha de S. Paulo
Há chance de que a troca de fogo pare ou
diminua, mas conflito seguirá por outros meios
Principais autoridades do mundo esperam meses
de efeitos econômicos ruins, mesmo com 'paz'
Estados
Unidos e Irã querem
cantar vitória e dar um jeito de acabar com a guerra, do modo que puderem, não
tão rápido que pareça fuga, nem tão devagar que pareça provocação.
Donald Trump quer evitar mais estrago econômico-eleitoral e o risco de ver uma tripulação de avião abatido se tornar refém do inimigo, por exemplo. O Irã quer salvar o que resta das suas armas, do regime e tomar posse de Hormuz de vez, sua bomba nuclear sem radiação.
Americanos e iranianos aceitaram até
esse cessar-fogo improvisado, trôpego e obscuro, acordo que não
cancelaram mesmo com tantas violações básicas (tiros) neste primeiro dia de
vigência. É indício do desejo de se livrar do fogo desta guerra.
Ainda que se livrem, os efeitos econômicos
mais imediatos deste conflito específico vão demorar a passar. A reabertura
de Hormuz será lenta, gradual e insegura. Pelas informações
disponíveis, não estamos nem no começo do fim. Se depender de Israel,
sabe-se lá.
Empresas de navegação estão com navios presos
no golfo Pérsico faz mais de mês, pelo menos 800, dizem empresas especializadas
nesse monitoramento. Mais da metade deles transporta combustíveis. No mais, são
embarcações que carregam fertilizantes, minérios, alimentos, carros,
eletrodomésticos etc. Há até transatlânticos de turismo.
Suponha-se que esses navios passem agora a
fugir da zona de guerra, a sair pelo estreito de Hormuz, suposição otimista. No
máximo quatro navios teriam saído do Golfo nesta quarta (8), o menor tráfego
deste mês de abril (antes da guerra, eram pelo menos 100 por dia).
O Irã diz que navios apenas passarão por
Hormuz depois de que forem verificados carga e destino —isso se passarem, a
depender de decisão das Forças Armadas. Há relatos de que os iranianos estariam
cobrando pedágio de pelo menos US$ 1 milhão por embarcação, a serem pagos em
moeda chinesa ou em criptomoedas.
De certo, sabe-se que o Parlamento do Irã
aprovou tal cobrança, em março, e dirigentes do país afirmaram em público que
levariam a lei à prática.
Depois de dar o fora da zona de guerra do
Golfo, essas empresas de navegação darão como certo que o trânsito voltou ao
normal? Que não haverá risco de bomba ou de novo fechamento de Hormuz? Decerto
o trânsito de navios deverá aumentar, no caso de algum acordo de interrupção da
guerra. Pelo menos 15% do petróleo consumido
no mundo ainda estará lá, no Golfo, para ser transportado, além de produtos
essenciais como fertilizantes.
Mas as empresas vão voltar à região em qual
ritmo? Além do mais, vai demorar para haver tanto petróleo e gás a ser
transportado quanto havia antes da guerra. As autoridades da União Europeia,
por exemplo, não acreditam na volta ao normal tão cedo (meses), mesmo que o Irã
libere o tráfego, mediante pedágio, com um "acordo de paz" (entre
aspas, pois paz não será).
O preço do
barril do tipo Brent, para os contratos a serem liquidados em junho,
caiu da casa dos US$ 110 para perto de US$ 95, com a notícia do cessar-fogo,
ainda uns 32% mais caro do que logo antes do início da guerra, quando estava
perto de US$ 72. Os contratos para dezembro estão em US$ 80. Mesmo com alívio
paulatino, difícil haver queda de preços em relação ao imediato pré-guerra.
A pressão inflacionária vai permanecer por
meses, pois. Resta saber se vai se espalhar para outros preços ou também
prejudicar a atividade econômica. A direção dos principais bancos centrais do
mundo, o do Brasil inclusive, não sabe.
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