quinta-feira, 9 de abril de 2026

EUA e Irã querem fugir da guerra, mas mundo não vai escapar da guerra tão cedo, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Há chance de que a troca de fogo pare ou diminua, mas conflito seguirá por outros meios

Principais autoridades do mundo esperam meses de efeitos econômicos ruins, mesmo com 'paz'

Estados Unidos e Irã querem cantar vitória e dar um jeito de acabar com a guerra, do modo que puderem, não tão rápido que pareça fuga, nem tão devagar que pareça provocação.

Donald Trump quer evitar mais estrago econômico-eleitoral e o risco de ver uma tripulação de avião abatido se tornar refém do inimigo, por exemplo. O Irã quer salvar o que resta das suas armas, do regime e tomar posse de Hormuz de vez, sua bomba nuclear sem radiação.

Americanos e iranianos aceitaram até esse cessar-fogo improvisado, trôpego e obscuro, acordo que não cancelaram mesmo com tantas violações básicas (tiros) neste primeiro dia de vigência. É indício do desejo de se livrar do fogo desta guerra.

Ainda que se livrem, os efeitos econômicos mais imediatos deste conflito específico vão demorar a passar. A reabertura de Hormuz será lenta, gradual e insegura. Pelas informações disponíveis, não estamos nem no começo do fim. Se depender de Israel, sabe-se lá.

Empresas de navegação estão com navios presos no golfo Pérsico faz mais de mês, pelo menos 800, dizem empresas especializadas nesse monitoramento. Mais da metade deles transporta combustíveis. No mais, são embarcações que carregam fertilizantes, minérios, alimentos, carros, eletrodomésticos etc. Há até transatlânticos de turismo.

Suponha-se que esses navios passem agora a fugir da zona de guerra, a sair pelo estreito de Hormuz, suposição otimista. No máximo quatro navios teriam saído do Golfo nesta quarta (8), o menor tráfego deste mês de abril (antes da guerra, eram pelo menos 100 por dia).

O Irã diz que navios apenas passarão por Hormuz depois de que forem verificados carga e destino —isso se passarem, a depender de decisão das Forças Armadas. Há relatos de que os iranianos estariam cobrando pedágio de pelo menos US$ 1 milhão por embarcação, a serem pagos em moeda chinesa ou em criptomoedas.

De certo, sabe-se que o Parlamento do Irã aprovou tal cobrança, em março, e dirigentes do país afirmaram em público que levariam a lei à prática.

Depois de dar o fora da zona de guerra do Golfo, essas empresas de navegação darão como certo que o trânsito voltou ao normal? Que não haverá risco de bomba ou de novo fechamento de Hormuz? Decerto o trânsito de navios deverá aumentar, no caso de algum acordo de interrupção da guerra. Pelo menos 15% do petróleo consumido no mundo ainda estará lá, no Golfo, para ser transportado, além de produtos essenciais como fertilizantes.

Mas as empresas vão voltar à região em qual ritmo? Além do mais, vai demorar para haver tanto petróleo e gás a ser transportado quanto havia antes da guerra. As autoridades da União Europeia, por exemplo, não acreditam na volta ao normal tão cedo (meses), mesmo que o Irã libere o tráfego, mediante pedágio, com um "acordo de paz" (entre aspas, pois paz não será).

O preço do barril do tipo Brent, para os contratos a serem liquidados em junho, caiu da casa dos US$ 110 para perto de US$ 95, com a notícia do cessar-fogo, ainda uns 32% mais caro do que logo antes do início da guerra, quando estava perto de US$ 72. Os contratos para dezembro estão em US$ 80. Mesmo com alívio paulatino, difícil haver queda de preços em relação ao imediato pré-guerra.

A pressão inflacionária vai permanecer por meses, pois. Resta saber se vai se espalhar para outros preços ou também prejudicar a atividade econômica. A direção dos principais bancos centrais do mundo, o do Brasil inclusive, não sabe.

 

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