Valor Econômico
Deportações nos EUA em condições deploráveis
ignoram o fato de que esse imigrante, mesmo irregular, cria riqueza por preço
muito menor que o cobrado pelos nativos
A cada tantos dias, um avião fretado pelo
governo americano traz de volta ao Brasil algumas dezenas de brasileiros que
desembarcam em diferentes aeroportos. Um deles é o de Confins, em Belo
Horizonte. A mídia tem descrito as não raro deploráveis formas de detenção
dessas pessoas nos EUA e igualmente deploráveis condições da viagem de volta à
pátria.
Isso não é propriamente muito diferente do que foi a vinda para cá de ancestrais, até não muito antigos, de milhões de brasileiros de hoje. As viagens em navios cuja terceira classe trouxe para o Brasil milhares de imigrantes europeus e asiáticos, durante décadas, para trabalhar nas fazendas brasileiras em condições que não eram propriamente muito diferentes das dos escravizados da escravidão recém-abolida. Não eram viagens turísticas. Meus avós maternos e meus tios lembravam dos penosos detalhes da travessia, em 1913.
Essa memória provavelmente está nas razões
para que netos e bisnetos dessas pessoas se sintam motivados a “voltar à
estrada” pela qual os antepassados enveredaram há mais de cem anos.
Foi quando a chamada acumulação originária
deu no capitalismo que se expandia sobre realidades sociais pré-capitalistas,
especialmente no campo, com a modernidade desenraizando camponeses pré-modernos
e tradicionalistas. Com a disponibilidade para emigrar a um país estrangeiro
mais próspero que o país de origem, ampliou-se a sequência de gerações de uma
mesma linhagem, como nos lugares de origem seus parentes ainda se definem.
Dispostas a continuar a busca de um lugar.
Portanto, massas humanas sociologicamente
definíveis como de pessoas sem lugar. Uma anomalia de alta motivação para
migrar porque são pessoas originadas de sociedades comunitárias, vinculadas a
um lugar ancestral. Em busca do lugar utópico perdido.
Se, nos EUA, milhões de cidadãos daquele país
para lá emigraram, especialmente da Europa e da China, em condições não
necessariamente muito diferentes nos últimos mais que cem anos, há ali uma
diferença: esses americanos de terceira ou quarta geração têm uma consciência
histórica de sua origem e de sua realidade culturalmente peculiar, porque
residual, de integração na sociedade americana. Uma consciência, no fundo,
antropologicamente protetiva contra a discriminação e a eventual inferiorização
social.
A sociedade americana é também consciente de
que deve proteger suas fronteiras contra os que chegam por último e às pressas,
supostamente para colher sem ter semeado, sem ter seguido as regras da ascensão
social possível, mas limitada e relativamente lenta, penosa.
Essa não deveria ser uma concepção cultural
de recepção de estranhos e forasteiros em países propriamente civilizados, que
em alta dose muito devem ao imigrante, mesmo ao irregular, porque este cria
riquezas por preço muito menor do que o preço cobrado pelos nativos.
Do imigrante, o preço que a sociedade de
livre mercado cobra é o de quem nele é tratado como equivalente de mercadoria
antes de ser reconhecido como gente. As deportações americanas de brasileiros
são deportações de equivalentes de coisas, de certo modo têm essa
característica. Uma mal disfarçada característica de todas as emigrações de
massa desde o século XIX.
Frequentemente, é injusta porque naquele
país, como em outros na Europa, são os que trabalham clandestinamente por
salários um tanto maiores do que os salários brasileiros, mas muito menores do
que os salários americanos. O brasileiro que acaba sendo deportado é
sociologicamente um brasileiro barato. A deportação o define por isso como
brasileiro descartável, porque como tal é tratado.
Os serviçais dessa tarefa têm mostrado que
com facilidade ajustam sua concepção da vítima da deportação para o estereótipo
redutivo de um ser que não há como classificar na estrutura social peculiar que
vigora no interior de uma aeronave de passageiros: primeira classe, classe
executiva, classe turística.
Na prática, as deportações americanas criaram
uma permanente sociedade transitória que dura o tempo que vai da detenção e da
desorganização da sociedade do imigrante até o seu desembarque num aeroporto
brasileiro. A sociedade temporariamente de ninguéns. Gente que não é coisa
nenhuma.
Quando se agravou o surto das expulsões
decorrentes da nova política “social” de Trump, a da América para os
americanos, a do fazer a América grande de novo, o lema teve adeptos não só lá,
mas aqui também. Muitos se lembrarão de políticos brasileiros com o boné
vermelho da campanha de Trump do “make America great again”. No mesmo momento
em que brasileiros eram lá considerados descartáveis para desembarcarem em
aeroportos brasileiros, depois de viagens penosas e descabidas.
*José de Souza Martins é sociólogo. Professor Emérito da Faculdade de Filosofia da USP. Professor da Cátedra Simón Bolivar, da Universidade de Cambridge e fellow de Trinity Hall (1993-94). Pesquisador Emérito do CNPq. Membro da Junta de Curadores do Fundo Voluntário da ONU contra as Formas Contemporâneas de Escravidão, em Genebra (1996-2007. Entre outros livros, é autor de “Desavessos” (Editora Com Arte).

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