Folha de S. Paulo
Resistência de alguns ministros do STF em
reconhecer erros favorece apenas a extrema direita
A crise do Supremo não se solucionará de
forma mágica
A resistência de alguns ministros do Supremo Tribunal Federal em reconhecer erros e corrigir os rumos do tribunal favorece apenas a extrema direita. Depois de anos criticando e fustigando o Supremo por suas acertadas decisões na defesa dos direitos fundamentais e, sobretudo, na responsabilização dos que atentaram contra a democracia, surge agora uma distinta oportunidade de atacar o Supremo. A conduta de alguns de seus ministros tem deixado o tribunal cada vez mais vulnerável. O tema STF concentrará atenções não apenas na disputa presidencial, mas, sobretudo, na corrida pelas cadeiras do Senado.
A
capacidade do Supremo em resistir não deve ser subestimada. Trata-se
de um dos tribunais mais poderosos do planeta, em decorrência do grande número
de competências que lhe foram delegadas pela Constituição,
alargadas pelo legislador e expandidas pelo modo como diversos de seus
ministros interpretaram suas atribuições ao longo de quase quatro décadas.
Nesse período o tribunal soube construir alianças e se mostrou eficiente na
coordenação de poderosos interesses; ganhou musculatura e aprendeu a se
defender de inimigos externos. O fato de ter se transformado
em um tribunal poderoso não significa, no entanto, que não tenha
vulnerabilidades, especialmente em decorrência de suas falhas internas.
É importante destacar que o poder dos tribunais
depende de forças que lhe são externas. Para que exerça os seus poderes, com
independência, necessita que sua autoridade seja reconhecida pelos demais
poderes, bem como por setores relevantes da sociedade. Esse reconhecimento
decorre em grande medida da capacidade
do tribunal de se demonstrar imparcial, íntegro, mas também efetivo.
A perda de autoridade reduz a capacidade do
tribunal de exercer
com independência e efetividade os seus poderes. Talvez alguns ministros
tenham a ilusão de que a superação da crise se dê pelo silêncio ou pelo emprego
das múltiplas "estratégias de conciliação", arraigadas na cultura
política brasileira, como apontou com precisão Michel Debrun. Ao invés de reconhecer
falhas e corrigir rumos, como propõe a estratégia
republicana traçada pelo ministro Edson Fachin,
a alternativa seria negociar a sobrevivência do tribunal e de seus membros a
cada rodada.
Inúmeros são os riscos em ambas as
estratégias. Creio que o risco maior para a democracia brasileira seja entrar
em um período eleitoral com um tribunal duplamente exposto pelas condutas
repreensíveis de alguns de seus ministros e mais ainda pela tentativa de
encobri-las. Esses casos e a eventual ambiguidade do tribunal serão explorados
ao máximo pelos candidatos, sobretudo pelos que almejam destruir a Constituição
e veem no Supremo uma barreira para alcançarem seu objetivo.
Caso
a extrema direita retorne ao poder ou constitua maioria suficiente no
Senado, o Supremo será capturado e subjugado. Na hipótese de setores do
tribunal conseguirem negociar com a nova maioria, será uma vitória de Pirro,
que se dará inevitavelmente em detrimento da própria independência do tribunal,
assim como de sua capacidade e disposição de levar a cabo a tarefa de defender
direitos fundamentais e guardar a Constituição.
Nesse sentido, melhor seria que o próprio
Supremo assumisse a responsabilidade por corrigir o próprio rumo, fazendo
esforços explícitos para recompor sua autoridade, de forma a ficar menos
exposto. A crise do Supremo não se solucionará de forma mágica. Mas para um
tribunal que sobreviveu ao populismo autoritário e se notabilizou
internacionalmente por defender a democracia, corrigir seus erros não pode ser
visto como uma missão impossível.

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