O Estado de S. Paulo
Enquanto o sistema premiar estratégias individuais acima de identidades partidárias, a migração seguirá sendo regra
Sistemas eleitorais com representação
proporcional de lista aberta, como o brasileiro, tornam a reeleição
significativamente mais incerta. A competição, tanto intra quanto
extrapartidária, é intensa. Entre 1962 e 2022, em 16 eleições para a Câmara dos Deputados, a taxa média de
reeleição foi de apenas 63% (nas duas últimas eleições, 2018 e 2022 esse
patamar foi ainda menor, 47% e 55%, respectivamente). Em outras palavras, quase
40% dos parlamentares não conseguem renovar seus mandatos.
É muito inferior ao observado nos Estados Unidos, onde a taxa de
reeleição no mesmo período alcança cerca de 93%.” O incumbente americano tem
uma carreira legislativa muito mais estável e tranquila do que o brasileiro.
Diante desse cenário, deputados brasileiros precisam reduzir incertezas e aumentar suas chances de sobrevivência eleitoral. Para isso, constroem conexões individuais com redes locais de interesse, frequentemente por meio da alocação de recursos e políticas públicas que reforçam essas bases.
Mas isso pode não ser suficiente. Como, na
maioria dos casos, os parlamentares mantêm vínculos ideológicos ou
programáticos frágeis — quando não inexistentes — com seus partidos, precisam também
decidir estrategicamente por qual legenda disputar a reeleição. É esse cálculo que explica o volume expressivo de
trocas partidárias durante as chamadas “janelas partidárias”.
Neste ano, cerca de 115 deputados federais —
aproximadamente 23% da Câmara — mudaram de partido. A migração, portanto, segue
uma lógica clara de sobrevivência eleitoral.
O movimento recente foi particularmente
influenciado pelo chamado “fenômeno Flávio Bolsonaro”. O crescimento de
sua intenção de voto à presidência da república em um ambiente polarizado
contra a reeleição de Lula tornou o PL um polo de
atração para parlamentares. Muitos vieram de partidos que optaram por não
lançar candidatura presidencial e adotaram uma postura ambígua na disputa, como
o União Brasil — que figura entre as legendas com maior número de defecções.
Fenômeno semelhante não se observa no campo
governista. A candidatura de Lula parece ter atingido um teto de intenção de
votos, sem capacidade de atrair novos parlamentares para o PT.
Além da dinâmica da disputa presidencial, há
também fatores organizacionais. Deputados tendem a migrar para partidos com
maior capilaridade nacional e estrutura eleitoral mais consolidada, como
Podemos e PSDB, em busca de melhores condições para competir.
No fim das contas, a migração partidária não é um desvio do sistema – é uma consequência direta dos incentivos que ele cria. A volatilidade partidária no Brasil revela menos uma crise de convicção e mais uma lógica de sobrevivência. Enquanto o sistema premiar estratégias individuais acima de identidades partidárias, a migração seguirá sendo regra – não exceção.

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