Valor Econômico
A derrota de Viktor Orbán no domingo vira
revés também para Donald Trump e Vladimir Putin
A Esplanada dos Ministérios, em Brasília,
acompanhou com particular atenção a eleição na Hungria, vista como um teste
para avaliar a real capacidade de ingerência de Donald Trump em eleições
nacionais.
O resultado foi uma vitória sólida do
oposicionista Péter Magyar, com maioria parlamentar confortável para ajudá-lo a
reconstruir instituições democráticas desmontadas ao longo de 16 anos de poder
“iliberal” sob Viktor Orbán.
Na Hungria, a ingerência direta de Trump —
sobretudo nos últimos dias da campanha — não teve, portanto, influência
decisiva sobre o resultado eleitoral. A derrota é compartilhada por Trump e
pelo russo Vladimir Putin, outro que jogou pesado a favor de Orbán.
Se isso trará grande alívio a outros governos que não estão exatamente alinhados com a administração trumpista é outra história. Trump parece pouco preocupado com limites para mobilizar seu poder com o objetivo de influenciar disputas no exterior.
O próximo teste sobre a interferência direta
de Trump será a eleição na Colômbia, em maio, na qual concorre um candidato de
esquerda apoiado pelo presidente Gustavo Petro, chamado de “lunático” por
membros do trumpismo — em um contexto de atualização da Doutrina Monroe,
invocada por Washington para justificar ingerências na América Latina.
O fato é que os Estados Unidos nunca
interferiram de forma tão aberta e virulenta em eleições no exterior como
agora, sob Donald Trump.
O presidente americano fez ingerência clara
nas eleições de meio de mandato de 2025 na Argentina, a favor de Javier Milei,
e também em Honduras, prometendo usar seu “poderio econômico” para ajudar seus
candidatos favoritos — que acabaram vencedores.
Na Europa, a primeira vitória eleitoral
associada a Trump ocorreu na Polônia, em julho do ano passado. Ele enviou a
então secretária de Segurança Interna, Kristi Noem, para exortar os poloneses a
votarem no nacionalista Karol Nawrocki para a presidência, sinalizando que o
futuro da presença militar americana no país poderia depender do resultado da
eleição. Nawrocki, fortemente apoiado pelo movimento Maga, venceu.
Já o apoio de Trump aos conservadores nas
eleições no Canadá e na Austrália resultou em fracasso, e analistas avaliam que
pode ter contribuído para a derrota desses candidatos.
Mas o maior teste até agora da ingerência
direta de Trump e de seu movimento Maga no exterior era esperado no domingo, na
Hungria — país de 9,5 milhões de habitantes que se tornou um campo de batalha
da guerra ideológica global.
Dessa vez, a Casa Branca enviou inclusive o
vice-presidente JD Vance para participar de comício com Viktor Orbán,
prometendo apoio total a esse ícone da luta ideológica contra a corrente
liberal na Europa.
Depois de destacar o ‘’amor’’ de Trump por
Orbán, Vance afirmou que os EUA e Orbán estavam unidos por uma “cooperação
moral” na “defesa da civilização ocidental”. Além de sua política migratória
super-restritiva, ele elogiou a “política familiar” e a “política energética”
do líder húngaro.
Nada disso impediu Orbán de sofrer uma
derrota expressiva para um adversário que, há apenas dois anos, era pouco
conhecido. As promessas americanas, e também dos russos, não conseguiram
convencer uma maioria de húngaros irritados com a forte inflação e com as persistentes
acusações de corrupção no uso de fundos públicos por membros da família de
Orbán.
Vladimir Putin também fez de tudo para
favorecer Orbán, principal defensor dos interesses russos dentro da União
Europeia. A interferência russa na campanha foi significativa, segundo diversos
relatos. A perda para o regime de Putin é evidente. O governo húngaro chegou a
ser acusado de repassar aos russos informações sobre tudo o que se passava nas
reuniões da UE.
A derrota de Orbán deve representar uma
mudança relevante para a União Europeia. Os vetos do líder húngaro no Conselho
Europeu irritavam profundamente outros governos, boicotado, por exemplo, a
aprovação de um pacote de US$ 105 bilhões para a Ucrânia e novas sanções contra
a Rússia. Bruxelas reteve bilhões de euros destinados à Hungria devido ao
retrocesso democrático e à postura cada vez mais pró-Rússia de seu governo.
Ninguém ignora como Trump usa seu poder — e
ele próprio costuma dizer que pode fazer o que quiser. Mas, mesmo entre aliados
tradicionais, ele começa a ser visto como um ativo tóxico, diante de sua
rejeição por boa parte da opinião pública.
A chefe de governo italiana, Giorgia Meloni,
por exemplo, continua tentando impor uma nova hegemonia cultural da direita e
investe em guerras culturais, à semelhança de Trump. Mas busca marcar
diferenças em relação ao líder americano após o tarifaço e diante da guerra dos
Estados Unidos e de Israel contra o Irã, ciente de que enfrentará uma eleição
difícil no ano que vem.

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