O Globo
Em geral, quando um governo diz que tem um
problema de comunicação, o problema está no governo, não na comunicação. Lula
3.0, no entanto, tem um problema de comunicação e ele se chama Lula. O
presidente ocupa os espaços do governo com uma agenda repetitiva e arcaica.
Esse sistema malvado fritou o ministro Paulo
Pimenta e mostrou a frigideira a Sidônio Palmeira, seu substituto.
Tome-se como exemplo a ida de Lula ao Ceará na terça-feira. No palanque, com um boné do ITA, Lula falou por 27 minutos, tratou de suas realizações na educação, louvou suas greves, o ministro Camilo Santana e a militância política. Maltratou a “elite brasileira”e “os banqueiros da Faria Lima”. Fora dele, tratou do mandato de oito anos dos senadores, da sucessão no governo daquele estado, chamou o ex-governador Ciro Gomes de “destemperado”.
Tudo bem, mas o que Lula foi fazer no Ceará?
Ele inaugurou a primeira etapa do campus do Instituto Tecnológico da
Aeronáutica, o ITA.
Trata-se de uma das principais iniciativas do
Lula 3.0. O ITA, com seu campus de São José do Campos, é uma joia da coroa do
ensino superior público. Fundado em 1950 pelo brigadeiro visionário Casimiro
Montenegro, formou milhares de engenheiros e gerou um polo industrial onde
reluz a Embraer. A criação do campus de Fortaleza é um poço de virtudes, revela
investimento em tecnologia, na educação pública de qualidade e na valorização
do Nordeste. Lula tratou do ITA perfunctoriamente. Seu tema era outro:
— Por que esse Lula fica colocando R$ 18
bilhões para filho de pobre ir à escola se podia estar no banco rendendo para a
gente ficar mais rico? Governar um país e fazer uma ponte é fácil. Governar
para 30% do país é fácil. O desafio é escolher entre a ponte e um prato de
comida, entre a ponte e uma escola, entre a ponte e uma creche. O país precisa
dos dois. Mas você precisa definir que o ser humano é prioritário — disse o
mandatário.
Nada contra, o velho pode ser bom, mas não
deixa de ser velho. O ITA e seu campus no Ceará mereciam mais que um boné, uma
generalização repetitiva. O presidente Lula perdeu uma oportunidade de falar
bem de seu governo mostrando o que a expansão do ITA significa para a educação,
a tecnologia e o próprio mundo dos negócios.
Lula é um grande comunicador e confia nos
seus improvisos. Disso resulta que suas falas ganham destaque, mesmo quando são
repetitivas e anacrônicas.
Antes da ida de Lula ao Ceará,o chefe da Casa
Civil, Rui Costa, havia dado um puxão de orelhas (a pedido do presidente) no
ministro da Comunicação, Sidônio Palmeira. Nas suas palavras:
— Acho que a gente tem que colocar como foco
comparar e mostrar. O povo tem o direito de conhecer esses números, esses
dados, porque, repito, é a mudança da água para o vinho, de um deserto de
governança para um governo que tem um líder que montou uma equipe para
trabalhar e produzir esses resultados — afirmou.
Os eleitores não digerem estatísticas, e as
falas do líder atropelam as realizações. Por algum motivo, os ministros evitam
ocupar um espaço que pode ser dele. Falar dos oito anos de mandato dos senadores
nada tem a ver com o campus do ITA. Isso num governo que tem um Ministério da
Tecnologia e Inovação. Ganha um fim de semana em Teerã quem souber o nome do
titular. (É Luciana Santos.)
Trump e a Idade de Pedra
Depois da batatada na qual disse que buscava
uma “rendição incondicional” do Irã, Donald Trump fez mais uma. Anunciou que
“vamos fazê-los voltar à Idade da Pedra, onde é o lugar deles.”
Trump apropria-se de expressões valorizadas
pela História. “Rendição incondicional” era parte do ultimato dos Aliados
contra a Alemanha e o Japão na Segunda Guerra Mundial. Prevaleceu.
Jogar um país na Idade da Pedra foi a ameaça
do general americano Curtis LeMay (1906-1990). Em 1965, ao falar dos ataques
americanos contra o Vietnã do Norte: “Vamos bombardeá-los levando-os de volta à
Idade da Pedra”.
LeMay não comia mel, comia abelha e foi um
grande chefe militar durante a Segunda Guerra. Só em 1965 os Estados Unidos
jogaram 60 mil toneladas de bombas no Vietnã, e o país não foi para a Idade da
Pedra. Deu-se o oposto, em 1975 os americanos foram-se embora, o Norte anexou o
Vietnã do Sul e Saigon, sua capital. Chama-se hoje Ho Chi Minh, em homenagem ao
chefe da insurreição.
Quando a receita desandou, LeMay negava que
tivesse dito a frase.
Trump delira
Em junho ou julho a Corte Suprema decidirá se
foi legal a decisão de Donald Trump negando a nacionalidade americana aos
filhos de imigrantes ilegais nascidos nos Estados Unidos.
Na semana passada, mostrando seu interesse no
caso, fez uma inédita aparição no tribunal.
Pelo andar da carruagem, Trump será
derrotado. Além dos argumentos conhecidos, o presidente americano escreveu que
“os Estados Unidos são o único país do mundo IDIOTA (maiúsculas dele) a ponto
de dar a cidadania a quem nasce em seu território.”
Falso. Dezenas de países, como o Brasil,
seguem esse princípio.
Trump constrangeu a Corte, ela não pode dar
razão a um litigante que não sabe o que defende.
Flávio se move
Flávio Bolsonaro não é um candidato que joga
parado. Ele se mexe, nos Estados Unidos, pregando para pessoas que pensam como
ele.
Seu pai fazia campanha até em aeroporto.
Vagas no STF
Pelo calendário gregoriano, o presidente
eleito em outubro teria duas vagas no Supremo Tribunal. A de Luiz Fux, em 2028,
e a de Cármen Lúcia, em 2029.
Pelo movimento da maré eleitoral e pelas
revelações trazidas pelo Banco Master, as vagas poderão ser quatro, somando-se
as cadeiras de Dias Toffoli e Alexandre de Moraes.
Se o presidente Lula emplacar a reeleição,
governará com sete dos 11 ministros indicados por ele.
Tramitam no Senado 97 projetos impedindo cada
um deles ou os dois, e a bancada inimiga do Senado tende a crescer.
Recordar é viver
Daniel Vorcaro teme que ex-amigos avancem
sobre o seu patrimônio no exterior.
Faz muito bem. Conta a lenda que em março de
1965, quando o empresário Mário Wallace Simonsen morreu em Paris, um amigo de
toda a vida foi para o aeroporto, voou para Genebra e limpou sua conta
bancária.
O empresário era um grande exportador de café
e havia sido dono da empresa de transporte aéreo Panair e da TV Excelsior,
ambas falecidas. Simonsen transitava com desembaraço no governo de João
Goulart, deposto um ano antes.
Falta de sorte
Quando disputava a Presidência contra
candidatos tucanos, Lula foi bafejado pela sorte.
Em anos eleitorais, o governo teve que
aumentar o preço dos combustíveis.
Agora essa maldição caiu no seu colo.

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