O Estado de S. Paulo
Nenhum candidato tentou, ainda, abrir um
debate proveitoso sobre qualquer assunto relevante para a vida econômica e para
a gestão pública do País
Bocejo vai ser a marca da campanha eleitoral, neste ano, se nenhum desastre, escândalo ou alguma grande surpresa mudar o cenário. Por enquanto, nada ou quase nada aparece, no horizonte político, além do conflito grupal entre bolsonarismo e lulismo ou, numa perspectiva mais ampla, entre direita, esquerda e algum liberalismo conservador ou reformista. Num ambiente menos morno e paradão, as aventuras do senhor Vorcaro seriam noticiadas, quase certamente, com menor destaque. O Brasil já teve escândalos financeiros mais notáveis e com envolvimento de instituições mais poderosas. Apesar de mais interessantes, é melhor evitar sua repetição.
Enquanto isso, os cidadãos mais experientes
ou mais velhos e mais habituados a promessas eleitorais com algum sentido,
esperam propostas dos candidatos. Mas propostas de fato, formuladas por pessoas
com ideias sobre planos, programas, projetos de crescimento econômico,
modernização, ampliação do emprego, saneamento, saúde pública, educação básica,
formação profissional, tecnologia, desenvolvimento científico, diplomacia,
segurança nacional, comércio externo e outras questões importantes para as
sociedades modernas e integradas na ordem global.
Ninguém deveria confundir essas propostas com
meras bandeiras eleitorais, preparadas ou sugeridas por especialistas em
promoção. Ações promocionais podem ser importantes para a vitória de um
candidato decente e potencialmente útil. Não substituem, no entanto, o estudo
sério dos grandes temas e desafios identificados e enfrentados por um
administrador preparado e disposto. Administradores desse tipo – governantes ou
integrantes de equipes – são muito mais que figuras vitoriosas numa eleição.
Oficialmente, a campanha presidencial ainda
vai começar, mas os candidatos mais prováveis, o presidente Luiz Inácio Lula da
Silva e o senador Flávio Bolsonaro, são conhecidos. Também se conhecem alguns
dos outros possíveis participantes. O mais destacado nacionalmente, o
governador Ronaldo Caiado, de Goiás, deverá concentrar as forças de direita.
Embora a disputa já esteja presente, as principais figuras continuam, no
entanto, identificadas mais por suas filiações ideológicas do que por propostas
e planos de governo.
O candidato principal da direita apresentou
como projeto mais importante, pelo menos até agora, a anistia aos condenados
pelas depredações de 8 de janeiro de 2023. Isso inclui, em posição especial, o
perdão a seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, sujeito a pena de 27 anos e 3
meses de prisão por golpe de Estado, organização criminosa armada, abolição
violenta do Estado democrático de direito e dano qualificado e deterioração do
patrimônio público tombado. Outros seis foram também condenados como
integrantes do chamado núcleo crucial do golpe.
Sejam quais forem os candidatos
oposicionistas, seus programas poderão incluir, muito facilmente, propostas de
equilíbrio sustentável das contas públicas e iniciativas para elevar a taxa de
investimentos. Um investimento maior em capacidade produtiva, por meio da
aplicação de recursos em infraestrutura, máquinas, equipamentos e instalações,
é uma necessidade evidente. O valor destinado a esse tipo de aplicação continua
oscilando na vizinhança de 18% do Produto Interno Bruto (PIB), uma taxa
inferior à observada em várias outras economias emergentes. Sem um investimento
maior, tanto pelo governo quanto pelo setor privado, o Brasil dificilmente
poderá superar, de forma sustentável por vários anos, as taxas observadas na
maior parte deste século.
Investimento maior em fatores de produção
dependerá, no entanto, de melhores condições de financiamento, isto é, de juros
mais baixos, e de perspectivas econômicas mais claras e mais seguras. Esse
último ponto é especialmente relevante para as decisões do empreendedor
privado. Juros mais baixos dependerão, porém, de uma condução mais prudente das
finanças públicas. Contas federais no vermelho são o principal sustentáculo de
juros elevados, até porque um governo com as contas esburacadas tende a ser um
grande tomador de financiamento. Não adianta o Banco Central (BC) cortar os
juros de forma voluntariosa, porque o efeito principal será um desarranjo maior
na economia. Esse é um dado bem conhecido no mercado, mas ignorado ou
desprezado por muitos políticos e por quem minimiza o valor da boa
administração monetária.
Nenhum possível candidato iniciou, até agora,
uma discussão séria desse conjunto de problemas. Pior que isso: nenhum deles
tentou, ainda, abrir um debate proveitoso sobre qualquer assunto relevante para
a vida econômica e para a gestão pública.
Temas de alguma relevância econômica e política podem ser chatos para muita gente, embora fundamentais para o bem-estar da maioria. Também podem ser importantes para a qualidade do regime. Quem se dispõe a seguir as discussões mais consequentes fica mais facilmente chateado, no entanto, quando os políticos preferem o discurso rasteiro evitam questões complicadas. Falas importantes têm sido escassas. Como as campanhas estão somente esboçadas, alguma surpresa poderá surgir.

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