quinta-feira, 9 de abril de 2026

No Brasil, trocar de partido não é desvio, é estratégia de sobrevivência eleitoral, por Carlos Pereira

O Estado de S. Paulo

Enquanto o sistema premiar estratégias individuais acima de identidades partidárias, a migração seguirá sendo regra

Sistemas eleitorais com representação proporcional de lista aberta, como o brasileiro, tornam a reeleição significativamente mais incerta. A competição, tanto intra quanto extrapartidária, é intensa. Entre 1962 e 2022, em 16 eleições para a Câmara dos Deputados, a taxa média de reeleição foi de apenas 63% (nas duas últimas eleições, 2018 e 2022 esse patamar foi ainda menor, 47% e 55%, respectivamente). Em outras palavras, quase 40% dos parlamentares não conseguem renovar seus mandatos.

É muito inferior ao observado nos Estados Unidos, onde a taxa de reeleição no mesmo período alcança cerca de 93%.” O incumbente americano tem uma carreira legislativa muito mais estável e tranquila do que o brasileiro.

Diante desse cenário, deputados brasileiros precisam reduzir incertezas e aumentar suas chances de sobrevivência eleitoral. Para isso, constroem conexões individuais com redes locais de interesse, frequentemente por meio da alocação de recursos e políticas públicas que reforçam essas bases.

Mas isso pode não ser suficiente. Como, na maioria dos casos, os parlamentares mantêm vínculos ideológicos ou programáticos frágeis — quando não inexistentes — com seus partidos, precisam também decidir estrategicamente por qual legenda disputar a reeleição. É esse cálculo que explica o volume expressivo de trocas partidárias durante as chamadas “janelas partidárias”.

Neste ano, cerca de 115 deputados federais — aproximadamente 23% da Câmara — mudaram de partido. A migração, portanto, segue uma lógica clara de sobrevivência eleitoral.

O movimento recente foi particularmente influenciado pelo chamado “fenômeno Flávio Bolsonaro”. O crescimento de sua intenção de voto à presidência da república em um ambiente polarizado contra a reeleição de Lula tornou o PL um polo de atração para parlamentares. Muitos vieram de partidos que optaram por não lançar candidatura presidencial e adotaram uma postura ambígua na disputa, como o União Brasil — que figura entre as legendas com maior número de defecções.

Fenômeno semelhante não se observa no campo governista. A candidatura de Lula parece ter atingido um teto de intenção de votos, sem capacidade de atrair novos parlamentares para o PT.

Além da dinâmica da disputa presidencial, há também fatores organizacionais. Deputados tendem a migrar para partidos com maior capilaridade nacional e estrutura eleitoral mais consolidada, como Podemos e PSDB, em busca de melhores condições para competir.

No fim das contas, a migração partidária não é um desvio do sistema – é uma consequência direta dos incentivos que ele cria. A volatilidade partidária no Brasil revela menos uma crise de convicção e mais uma lógica de sobrevivência. Enquanto o sistema premiar estratégias individuais acima de identidades partidárias, a migração seguirá sendo regra – não exceção.

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