sábado, 25 de abril de 2026

Que tal uma constituinte exclusiva? Por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Acuados, ministros do STF vão dando cada vez mais sinais de destempero

Não parece haver saída para a crise de credibilidade em que a corte se meteu

Não acho que o chilique de Gilmar Mendes com Romeu Zema, em que pese ter vitaminado o posicionamento do mineiro nas redes sociais, bastará para tornar sua candidatura presidencial uma alternativa realista à polarização. Aliás, nem sei se Zema pretende mesmo manter-se na disputa até o fim ou apenas tenta ganhar pontos para pleitear o posto de vice na chapa de Flávio Bolsonaro. Um dos muitos problemas do Brasil é que a direita sem o sobrenome Bolsonaro não foi capaz de colocar-se inequivocamente na defesa das instituições e rejeitar golpismos e anistias.

No mérito, eu diria que, com boa vontade, até dá para considerar divertidos os vídeos de Zema que fazem graça com Lula e ministros do STF. Mas mesmo quem odiou os filmetes deveria convir que eles estão cobertos pela liberdade de expressão. Em democracias, nenhuma autoridade, nem as supremas, tem imunidade contra críticas. O destempero de Mendes, que pediu a inclusão de Zema no sempiterno inquérito das fake news, se soma a reações igualmente desmedidas de outros ministros para indicar que eles estão perdendo a cabeça.

Este é o ponto em que eu paro de me divertir. Por mais que matute, não consigo vislumbrar uma saída para a crise em que o STF se meteu. O descontrole emocional dos ministros mais enredados no escândalo do Master é um bom indicativo de que o famoso código de ética, que seria um primeiro passo ainda muito insuficiente para resgatar a credibilidade da corte, não sairá do reino dos projetos. Uma reforma do Judiciário, como proposta de forma algo diversionista por Flávio Dino, é ainda mais difícil, já que envolveria outros Poderes. Até a agenda moralizadora esboçada pelo mesmo Dino no caso dos supersalários foi sequestrada pelo corporativismo do Judiciário e transformada em legalização dos penduricalhos.

Só o que me surpreende é que ninguém propôs ainda convocar uma assembleia constituinte exclusiva para lidar com a questão. Sempre que um problema não tem solução, alguém lembra de invocar a constituinte exclusiva.

 

 

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