Folha de S. Paulo
Acuados, ministros do STF vão dando cada vez
mais sinais de destempero
Não parece haver saída para a crise de
credibilidade em que a corte se meteu
Não acho que o chilique de Gilmar Mendes com Romeu Zema, em que pese ter vitaminado o posicionamento do mineiro nas redes sociais, bastará para tornar sua candidatura presidencial uma alternativa realista à polarização. Aliás, nem sei se Zema pretende mesmo manter-se na disputa até o fim ou apenas tenta ganhar pontos para pleitear o posto de vice na chapa de Flávio Bolsonaro. Um dos muitos problemas do Brasil é que a direita sem o sobrenome Bolsonaro não foi capaz de colocar-se inequivocamente na defesa das instituições e rejeitar golpismos e anistias.
No mérito, eu diria que, com boa vontade, até
dá para considerar divertidos os vídeos de
Zema que fazem graça com Lula e ministros do STF. Mas mesmo
quem odiou os filmetes deveria convir que eles estão cobertos pela liberdade de
expressão. Em democracias, nenhuma autoridade, nem as supremas, tem imunidade
contra críticas. O destempero de Mendes, que pediu a inclusão de Zema no
sempiterno inquérito das fake news, se soma a reações igualmente desmedidas de
outros ministros para indicar que eles estão perdendo a cabeça.
Este é o ponto em que eu paro de me divertir.
Por mais que matute, não consigo vislumbrar uma saída para a crise em que o STF
se meteu. O descontrole emocional dos ministros mais enredados no escândalo do
Master é um bom indicativo de que o famoso código de ética, que seria um
primeiro passo ainda muito insuficiente para resgatar a credibilidade da corte,
não sairá do reino dos projetos. Uma reforma do
Judiciário, como proposta de forma algo diversionista por Flávio Dino,
é ainda mais difícil, já que envolveria outros Poderes. Até a agenda
moralizadora esboçada pelo mesmo Dino no caso dos supersalários foi sequestrada
pelo corporativismo do Judiciário e transformada em legalização dos
penduricalhos.
Só o que me surpreende é que ninguém propôs
ainda convocar uma assembleia constituinte exclusiva para lidar com a questão.
Sempre que um problema não tem solução, alguém lembra de invocar a constituinte
exclusiva.
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