Folha de S. Paulo
Daniel Vorcaro deu carona a tanta gente
pesada em seus jatinhos que eles tinham de cair
Neste momento, ele está consultando suas
listas de passageiros e quanto cobrou de cada um
De tanto ler que o juiz Fulano, o senador Beltrano e o deputado Cicrano voaram "nas asas de Daniel Vorcaro", apelei para a IA a fim de saber mais. Recebi como resposta: "Daniel Vorcaro não tem asas. Seus membros posteriores, como os de qualquer ser humano, são braços. Talvez a pergunta se refira à sua frota de aviões particulares, entre os quais jatinhos dos quais se serviram diversas autoridades. Mesmo nesse caso, elas não voaram nas asas dos jatinhos, mas dentro das aeronaves. ‘Voaram’ é uma metáfora. Na verdade, viajaram confortavelmente sentadas e presas aos assentos por cintos de segurança".
Gosto da IA porque ela nos oferece ângulos
sobre os quais não tínhamos pensado. A idéia de um Vorcaro de asas, como
o Ícaro do mito
grego, é perfeita. O herói saltou de um penhasco em Creta com as
asas construídas por seu pai, o artesão Dédalo, feitas de penas amarradas com
fios e presas por cera de abelha. Mas Ícaro desobedeceu aos conselhos de
Dédalo, de que não voasse muito alto para não ter a cera derretida pelo Sol.
Resultado: foi às alturas, o Sol o castigou e ele despencou lá de cima,
morrendo no mar. Hoje vê-se que Vorcaro voou ainda mais alto do que Ícaro, sem
temer que a cera de suas asas fosse derretida pelo Sol.
Para piorar, Vorcaro, ao invés de voar sozinho como Ícaro, deu carona em suas
asas a uma penca de autoridades, algumas muito pesadas: os ministros do STF Alexandre
de Moraes, Dias Toffoli, Gilmar Mendes e Kassio Nunes Marques, o senador Ciro Nogueira (PP-PI), o ex-governador do
Rio Cláudio
Castro, o ex-ministro de Bolsonaro Fábio Faria e vários deputados
federais, entre os quais Nikolas
Ferreira (PL-MG). Impossível não
cair por excesso de peso.
Neste momento, em função de uma delação premiada, Vorcaro está consultando suas
listas de passageiros para revelar o quanto cobrou de cada um pelo táxi aéreo.
Até lá, os citados devem ser considerados inocentes, claro.
Mesmo porque, como dizia Nelson Rodrigues, "em Brasília, todos são inocentes
e todos são cúmplices".

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