sexta-feira, 3 de abril de 2026

Trump afunda em contradições, por Celso Ming

O Estado de S. Paulo

O pronunciamento do presidente Donald Trump perante a nação, na quarta-feira, veio carregado de contradições. Foi o primeiro depois do início da guerra, feito por meio de texto previamente preparado, apresentado via teleprompter, e não por tiradas improvisadas em “quebra-queixos” diários aos repórteres reunidos em cada ocasião.

Ele disse que o Irã está militarmente aniquilado pelos ataques conjuntos dos Estados Unidos e de Israel. Mas, em seguida, afirmou que a guerra prosseguiria por pelo menos “duas ou três semanas”. Não ficou claro o que seriam essas operações destinadas a “completar o trabalho”. Em outras declarações, Trump já afirmara que a guerra não duraria mais do que duas ou três semanas, prazo que acabaria sucessivamente dilatado.

Queixou-se de que os aliados europeus se recusam a colaborar para reabrir o Estreito de Ormuz. Os Estados Unidos não dependem do petróleo do Oriente Médio – disse ele. Caberá agora a esses países trabalharem para reabrir a passagem. Mas, ao mesmo tempo, assegurou que o estreito “se reabriria “naturalmente” uma vez terminada a guerra, desfecho tão próximo para ele.

E sugeriu que os importadores de petróleo desistissem da navegação por meio do estreito e comprassem o petróleo dos Estados Unidos, que agora contam com o reforço da Venezuela. No entanto, se há essa disponibilidade de oferta, ela já teria se refletido na baixa dos preços de mercado.

Também afirmou que os ataques derrubaram o regime teocrático “ruim e maligno” dos aiatolás. Mas a substituição do líder supremo Ali Khamenei por comandantes da

Guarda Revolucionária não pode ser entendida como garantia de queda do regime, até porque a tendência é a de que o poder seja repassado para agrupamentos mais extremistas. No seu discurso, Trump afirmou que a mudança de regime nunca foi o objetivo dos Estados Unidos na guerra.

Repetiu que as instalações nucleares de Fordow, Natanz e Isfahan foram desmanteladas e estão “sob escombros”. E nisso, manteve a narrativa de junho do ano passado de que essas instalações tinham sido “completamente destruídas”. E, no entanto, uma das justificativas para os ataques que começaram em 28 de fevereiro e mantidas no seu pronunciamento foi a de que o Irã estava muito próximo de obter a bomba atômica.

A principal razão desse pronunciamento de quarta-feira foi afastar os temores de inflação e de recessão cujas manifestações estão cada vez mais frequentes nos comentários dos analistas e de líderes políticos. Trump pretendeu recuperar a popularidade perdida e evitar seu custo político nas eleições de novembro. Não dá para garantir que esse objetivo tenha sido atingido.

O ambiente de incertezas foi reforçado, como indicou o comportamento do mercado financeiro ontem.

 

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