Por Folha de S. Paulo
Governo dos EUA interfere no pleito húngaro
para tentar ajudar autocrata, no poder há 16 anos
Presidente diz estar ansioso para 'investir
na prosperidade criada pela liderança contínua" de Orbán
O presidente dos Estados
Unidos, Donald Trump,
disse nesta sexta-feira (10) que vai "fortalecer a economia da Hungria"
caso o primeiro-ministro Viktor Orbán,
que enfrenta uma
eleição acirrada neste domingo (12), permaneça no poder.
"Meu governo está pronto para usar todo
o poderio econômico dos EUA para fortalecer a economia da Hungria, como fizemos
para nossos aliados no passado, se [Orbán] e o povo húngaro precisarem",
escreveu Trump em sua plataforma, a Truth Social. "Estamos ansiosos para
investir na prosperidade futura gerada pela liderança contínua de Orbán!"
Trata-se da mais recente e flagrante interferência de Trump e seu governo no pleito da Hungria —que, segundo pesquisas, pode acabar com o longo período de Orbán no poder. O autocrata comanda o país do Leste Europeu há 16 anos e transformou suas instituições para permanecer no cargo, aparelhando o Judiciário, alterando regras eleitorais e controlando a imprensa.
O vice-presidente americano, J. D. Vance,
esteve no país nesta semana e transmitiu
juras de amor de Trump a Orbán. "O presidente ama você",
disse Vance. O secretário de Estado americano, Marco Rubio, já havia estado no
país fazendo campanha para o primeiro-ministro. Mais cedo, o próprio Trump
pediu votos para o premiê húngaro em postagem no Truth Social: "SAIAM E
VOTEM EM VIKTOR ORBÁN".
Apesar da pesada interferência —ou talvez por
causa dela—, levantamentos apontam que o primeiro-ministro pode perder a
eleição desta vez: a coalizão centrista de Péter Magyar está dez pontos
percentuais à frente do Fidesz, partido de Orbán.
No domingo, 8,1 milhões de húngaros aptos a
votar responderão se Orbán seguirá no poder após 16 anos de gestões
controversas, marcadas por conservadorismo e mudanças institucionais.
O governo brasileiro, por sua vez, vê as
eleições húngaras como um teste para uma possível interferência dos Estados
Unidos no pleito presidencial no Brasil em outubro. Parte do governo monitora
a votação para avaliar a eficiência das ações do governo Trump em
favor de Orbán.
Nas palavras de um integrante do
governo Lula,
a eleição húngara será a primeira lição de casa de observação para o Planalto
avaliar como lidar com as tentativas de interferência americana. As eleições na
Colômbia (em 31 de maio, em que concorre um candidato de esquerda apoiado por
Gustavo Petro) e do Peru (também no próximo domingo) serão outros dois pontos
de observação.
Reportagens investigativas revelam que, além
dos EUA, serviços de inteligência russos trabalham ativamente para a recondução
do primeiro-ministro húngaro, cuja
proximidade com Vladimir Putin incomoda a União Europeia.
O presidente russo é tratado como uma ameaça
existencial pela maioria dos integrantes do bloco desde a invasão da Ucrânia, em
2022, e os seguidos vetos de Orbán à medidas de apoio à Ucrânia transformaram o
pleito atual em um dos maiores desafios para Bruxelas nos últimos anos.
Em uma carta endereçada à presidente da
Comissão Europeia, Ursula
von der Leyen, membros do Parlamento Europeu que monitoram o Estado de
Direito na Hungria alertaram para o risco de manipulação do pleito patrocinada
por Moscou.
O Kremlin estaria repetindo ações híbridas já
detectadas em eleições recentes do Leste Europeu,
que vão de canais de notícias criados por inteligência artificial a conteúdo
viralizado por canais do Telegram. Segundo o jornal americano The Washington
Post, assessores
russos chegaram a recomendar um atentado encenado contra Orbán, entre
outras medidas de impacto para tentar reverter a tendência das pesquisas de
opinião.
A notícia de que explosivos teriam sido encontrados
em um gasoduto na Sérvia, outro
país na esfera de influência de Moscou, também foi percebida como armação. A
campanha de Orbán tenta resgatar um sentimento nacionalista, acusando Ucrânia e
UE de sabotarem a segurança energética do país e tentarem arrastar a Hungria
para a guerra.

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