quarta-feira, 15 de abril de 2026

Um bolsonarista na rede do ICE, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Em janeiro de 2025, pousou em Manaus o primeiro avião com brasileiros deportados pelo governo de Donald Trump. Os imigrantes viajaram algemados e acorrentados, mesmo sem histórico criminal.

Questionado sobre o assunto, Jair Bolsonaro disse que o republicano estava “fazendo a coisa certa”. “No lugar dele, eu faria o mesmo”, defendeu.

Quinze meses depois, um aliado do capitão caiu na rede do ICE. Alexandre Ramagem foi preso, fichado e recolhido a uma penitenciária em Orlando. Segundo as autoridades americanas, ele desembarcou com visto de turista e ignorou o limite de seis meses de permanência no país.

Ramagem não é um bolsonarista qualquer. Chefiou a Abin, elegeu-se deputado e disputou a Prefeitura do Rio com apoio do clã. No ano passado, o Supremo o condenou a 16 anos de cadeia por tentativa de golpe.

Dias antes do julgamento, o valentão escapuliu do país para não ser preso. Foragido, perdeu o passaporte diplomático e o mandato parlamentar.

O ex-delegado não foi solidário com os comparsas da trama golpista. Enquanto capitão e generais puxavam cadeia no Brasil, ele curtia o sol da Flórida. Vivia com mulher e filhos numa casa de cinco quartos, situada à beira de um lago e avaliada em R$ 4,5 milhões.

Apesar da fuga, continuava com prestígio na ultradireita nativa. No mês passado, desfilou como anfitrião de Flávio Bolsonaro na CPAC, onde o senador pediu à Casa Branca que interfira na eleição brasileira.

A prisão de Ramagem teve lances de anedota. Ex-chefe do serviço de inteligência, ele se deixou flagrar com documento vencido na terra do Pateta. Estava na lista da Interpol, mas julgava-se imune à polícia migratória.

Na segunda-feira, os bolsonaristas espalharam a falsa versão de que o ex-deputado teria sido detido por uma infração de trânsito. Agora tentam apresentá-lo como perseguido político. A conversa não deve convencer os agentes do ICE, acostumados a tratar latino-americanos como lixo a ser varrido.

Para escapar da deportação, Ramagem precisa torcer por um socorro de Trump. Mas o presidente americano parece ocupado com outros afazeres, como as ameaças ao Irã e a cruzada contra o Papa.

 

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