terça-feira, 19 de maio de 2026

Flávio Bolsonaro na rede com Xandão, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

Se você desconfia do que Daniel Vorcaro contratava ao contratar o escritório de advocacia da mulher de Alexandre de Moraes, desconfiará da intenção do banqueiro ao investir, sob o aval da família Bolsonaro, no filme sobre Jair Bolsonaro. Este é o incômodo que perturba o bolsonarismo: ter caído na rede vorcárica, emaranhado Flávio Bolsonaro na mesma trama de suspeição em que está Xandão.

Não se trata – não ainda – de questão policial; em nenhum dos casos havendo prova de que vantagem fora barganhada em troca do contrato-investimento. A questão tem natureza política e impacto limitador sobre o discurso eleitoral – sobre a porção do discurso que pautará os humores eleitorais. Porque há um padrão vorcárico–defácilreconhecimento – para estabelecimento de relações de interesse, a pergunta fundamental permanecendo a mesma: o que Vorcaro comprava, ou desejava comprar, ao comprar, usando um fundo-fachada, parte da parte de Dias Toffoli no hotel?

O uso de fachadas, pilar do padrão vorcárico, compõe a rede por meio da qual o sujeito, invisível, estava em todos os lugares, sabido já que ao menos alguns dos milhões de dólares que destinou ao filme foram remetidos – para fundo administrado pelo advogado de Eduardo Bolsonaro – por meio de empresa-laranja, metida com firmas suspeitas de lavar recursos para PCC e máfia italiana, de que o banqueiro se servia quando até o compliance do Master recusava uma operação.

O que Vorcaro contratava, ou desejava contratar, ao contratar a banca da esposa de ministro do STF? É pergunta que o bolsonarista não pode fazer sem que a outra se imponha. O que Vorcaro adquiria, ou desejava adquirir, ao adquirir cota em filme sobre expresidente cuja família controla os destinos da direita brasileira?

Ninguém pode provar que Flávio – ou Moraes, ou Toffoli – tenha pactuado contrapartida aos dinheiros despendidos por Vorcaro. Ninguém pode dizer que Flávio não tivesse contrapartida a lhe oferecer. Um senador, com liderança sobre bancada, proponente de projetos de lei, filho de ex-presidente, com acesso a nomeados pelo pai na administração federal, com acesso fácil ao governo Castro no Rio e, senão candidato ele próprio, palavra decisiva sobre quem seria o escolhido a concorrer contra Lula. Tipo a ser conquistado, investimento com mais futuro do que aquele em Ciro Nogueira – também um senador de oposição.

E há a questão das datas, que os Bolsonaro instrumentalizam para apregoar que os contatos com Vorcaro seriam anteriores às revelações sobre as pilantragens do sujeito. Proponha-se marco temporal conservador para o que seria a eclosão pública do affair Master, impossível desde então desconhecer as traficâncias vorcáricas: 3 de setembro de 2025, o dia em que o BC rejeitou a compra do banco pelo BRB. É de cinco dias depois, 8 de setembro, o áudio em que Flávio pede o dinheiro devido ao “irmão” que também passava “por um momento dificílimo”. É de 16 de novembro, véspera da prisão de Vorcaro, a mensagem em que declara – “estou e estarei sempre contigo” – não haver “meia conversa” entre eles.

 

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