sábado, 30 de maio de 2026

Quem ganha com um Brasil mais frágil? Por Juliana Diniz*

O Povo (CE)

O que verificamos é que, para o núcleo familiar central do bolsonarismo, o interesse nacional não é mais importante que seu projeto pessoal do poder. Vale tudo para derrotar seu adversário político, inclusive ignorar a soberania do Brasil

O reconhecimento do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas pelos Estados Unidos deve inspirar muita preocupação em todos nós. O potencial de intervenção americana no território brasileiro é, agora, uma ameaça real. Para além da preocupação com a integridade territorial, há um risco para os cidadãos nacionais, que ficam vulneráveis à captura e encarceramento sem qualquer possibilidade de controle do excesso pelo estado brasileiro.

Lembremos dos episódios em que barcos foram abatidos na Costa do Caribe e no Oceano Pacífico. Foram mais de 145 mortos, numa ofensiva militar sobre a qual se sabe muito pouco. A comunidade internacional levanta o questionamento sobre a ocorrência de verdadeiras execuções extrajudiciais, sem acusação, sem processo, sem identificação clara dos alvos: apenas o abatimento, a longa distância, de embarcações tidas por suspeitas.

Em termos de efeitos práticos, é como se uma guerra fosse declarada, e o cenário da batalha fosse o nosso país, mesmo que não participemos como Estado soberano. Considerando as consequências possíveis para além da ação militar violenta, sanções econômicas podem alcançar instituições financeiras, empresas e quaisquer entidades que, de algum modo, sejam utilizadas para "auxiliar" o trabalho das organizações criminosas, mesmo que sem intenção direta. É temerário e arriscado para setores da economia doméstica.

O anúncio da medida se deu logo após a visita do senador Flávio Bolsonaro a Donald Trump. O parlamentar, pré-candidato à presidência, comemorou a medida como uma conquista. É importante lembrar que o político faz parte de uma casa parlamentar que, enquanto instituição, já havia desaprovado o reconhecimento das duas facções como organizações terroristas, justamente por considerar que risco dessa designação vai além da questão simbólica e têm impactos legais importantes.

O fato de que Flávio Bolsonaro tenha trabalhado pessoalmente para deixar o Brasil mais vulnerável, ignorando a decisão legislativa da casa de que faz parte, precisa ser demarcado. O que verificamos é que, para o núcleo familiar central do bolsonarismo, o interesse nacional não é mais importante que seu projeto pessoal do poder. Vale tudo para derrotar seu adversário político, inclusive ignorar a soberania do Brasil.

É mais um capítulo de um antipatriotismo que já havia sido revelado com o esforço da família pela aprovação de sanções econômicas contra o país e com a obsessão de inclusão de autoridades nacionais na lista oriunda da Lei Magnitsky. Qual o limite do admissível para se realizar um projeto de poder? Pode o eleitor admitir um cenário em que, para tornar um candidato vitorioso, tenha que abrir mão da própria segurança? 

*Professora de Direito da UFCE

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