domingo, 17 de maio de 2026

Comunismo: Uma Metáfora da Ignorância, por Johnny Jara Jaramillo*

Revista Será?

No debate público, certas palavras funcionam como insultos automáticos. Não descrevem nada, não explicam nada, mas servem para encerrar conversas. “Comunismo” é uma delas. Basta pronunciá-la para que alguém faça o sinal da cruz, olhe ao redor procurando fantasmas e comece a falar de Cuba, da Venezuela ou de um primo distante de quem “tiraram tudo”. O comunismo, nesse registro, não é uma teoria nem um horizonte histórico: é uma metáfora do medo e, sobretudo, da ignorância.

O curioso é que quase ninguém que o abomina leu Marx. Nem uma página. Nem um parágrafo mal sublinhado. Ainda assim, falam com uma segurança invejável. Juram que Marx odiava a riqueza, que queria repartir pobreza, que sonhava com um mundo cinzento onde ninguém possui nada e todos obedecem. A ironia é simples e cruel: Marx jamais foi contra a criação de riqueza. Pelo contrário, entendia que sem abundância material não há qualquer possibilidade de justiça social. Parafraseando-o sem solenidade: não se pode repartir miséria. Antes de sonhar com outra coisa, o capitalismo precisava fazer seu trabalho sujo, porém eficaz: desenvolver forças produtivas, gerar riqueza, criar excedente.

O problema, para Marx, nunca foi a riqueza em si, mas sua forma social: a maneira como ela se concentra. Não que alguém trabalhe e ganhe dinheiro, mas que poucos fiquem — não por talento, e sim por estrutura — com aquilo que milhões produzem. Mas essa distinção costuma se perder no grito. Dizer que o capitalismo é uma etapa necessária dentro do próprio esquema marxista geralmente provoca olhares de espanto, como se alguém tivesse acabado de afirmar que a água molha. Claro, para saber disso seria preciso ter lido algo além de memes, assistido aos telejornais ou ido a alguma igreja evangélica onde um pastor fala de Marx como se fosse o anticristo.

Daí que seja quase cômico ouvir que Cuba ou Venezuela são “comunistas”. Não são, nem teórica nem praticamente. Chamá-los assim é uma forma confortável de não pensar, de evitar discussões mais sérias sobre corrupção, autoritarismo, bloqueios, erros internos ou responsabilidades compartilhadas. Dizer “comunismo” funciona como um feitiço: dispensa análise.

Talvez o verdadeiro problema não seja o comunismo, mas a preguiça intelectual. Esse hábito de opinar sem ler, de odiar conceitos que nunca foram compreendidos, de repetir slogans como se fossem ideias próprias. “A ignorância é atrevida.”

Mas há algo ainda mais incômodo de admitir: talvez o comunismo, entendido no sentido marxista mais profundo, seja hoje praticamente impossível. Não porque Marx estivesse completamente errado, mas porque as condições históricas que ele imaginou acabaram levando a outra coisa. O capitalismo realmente produziu uma capacidade material inédita. Gerou tecnologia, automação, redes globais, uma abundância potencial que teria parecido ficção científica no século XIX. O problema é que essa abundância não desembocou numa consciência coletiva, mas sim em um individualismo feroz — e produziu criaturas como Donald Trump.

Marx supunha que o próprio desenvolvimento do capitalismo criaria as condições para superar o capitalismo. Mas o sistema fez algo mais sofisticado: transformou até mesmo a rebeldia em mercadoria. O sujeito revolucionário acabou absorvido pelo consumo, pelo espetáculo, pela ansiedade de sobreviver e competir. A ideia de comunidade foi substituída pela ideia de sucesso pessoal. Quase ninguém mais sonha em transformar o mundo; a maioria apenas aspira a não afundar nele.

Além disso, Marx escreveu em uma época que ainda acreditava no progresso histórico. O século XX destruiu boa parte dessa fé. As guerras mundiais, os totalitarismos, as burocracias estatais e os fracassos autoritários realizados em nome do socialismo deixaram uma ferida moral profunda demais. Até mesmo aqueles que criticam o capitalismo costumam fazê-lo a partir do cansaço ou do cinismo, e não da esperança de uma civilização diferente.

E existe outro limite que Marx mal chegou a vislumbrar: o ecológico. Durante muito tempo, inclusive dentro do marxismo, acreditou-se que o desenvolvimento ilimitado das forças produtivas resolveria a escassez. Hoje sabemos que o planeta não suporta um modelo universal baseado em consumo infinito. A contradição contemporânea é brutal: nunca houve tanta capacidade tecnológica e, ao mesmo tempo, nunca foi tão evidente a fragilidade material do mundo.

Por isso o comunismo contemporâneo parece condenado a um paradoxo. Para existir, precisaria de uma humanidade mais solidária, menos dominada pelo mercado e capaz de pensar em termos coletivos. Mas o próprio capitalismo global produz exatamente o contrário: indivíduos isolados, exaustos, hiperindividualizados, treinados para competir até mesmo com os amigos, os parceiros e consigo próprios. A lógica do mercado já não organiza apenas a economia: organiza a imaginação.

Talvez aí resida a tragédia filosófica do nosso tempo. O capitalismo conseguiu algo mais profundo do que controlar os meios de produção: colonizou a própria ideia do possível. As pessoas conseguem imaginar o fim do mundo com mais facilidade do que o fim do sistema. Fala-se de catástrofes climáticas, guerras nucleares ou inteligências artificiais fora de controle com mais naturalidade do que de uma sociedade baseada em outra lógica moral.

Talvez por isso o comunismo sobreviva apenas como fantasma, como lembrete de que a desigualdade não é natural e de que o mundo poderia ser organizado de outra maneira. Não como uma utopia pronta para ser instalada amanhã, mas como uma pergunta moral que o capitalismo ainda não consegue responder: como uma civilização pode produzir tanta riqueza e, ao mesmo tempo, tanta solidão, tanta miséria e tanta indiferença?

Talvez Marx não tenha compreendido totalmente o futuro. Mas aqueles que o reduzem a uma caricatura definitivamente também não entendem o presente.

*Escritor equatoriano, gestor comunitario. Professor de literatura em colégios de Cuenca e Galápagos (Equador). Colaborador de revistas literárias em Equador, Colômbia, México, Espanha, Dinamarca, Estados Unidos.

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