Revista Será?
No debate público, certas palavras funcionam como insultos automáticos. Não descrevem nada, não explicam nada, mas servem para encerrar conversas. “Comunismo” é uma delas. Basta pronunciá-la para que alguém faça o sinal da cruz, olhe ao redor procurando fantasmas e comece a falar de Cuba, da Venezuela ou de um primo distante de quem “tiraram tudo”. O comunismo, nesse registro, não é uma teoria nem um horizonte histórico: é uma metáfora do medo e, sobretudo, da ignorância.
O curioso é que quase ninguém que o abomina
leu Marx. Nem uma página. Nem um parágrafo mal sublinhado. Ainda assim, falam
com uma segurança invejável. Juram que Marx odiava a riqueza, que queria
repartir pobreza, que sonhava com um mundo cinzento onde ninguém possui nada e
todos obedecem. A ironia é simples e cruel: Marx jamais foi contra a criação de
riqueza. Pelo contrário, entendia que sem abundância material não há qualquer
possibilidade de justiça social. Parafraseando-o sem solenidade: não se pode
repartir miséria. Antes de sonhar com outra coisa, o capitalismo precisava
fazer seu trabalho sujo, porém eficaz: desenvolver forças produtivas, gerar
riqueza, criar excedente.
O problema, para Marx, nunca foi a riqueza em
si, mas sua forma social: a maneira como ela se concentra. Não que alguém
trabalhe e ganhe dinheiro, mas que poucos fiquem — não por talento, e sim por
estrutura — com aquilo que milhões produzem. Mas essa distinção costuma se
perder no grito. Dizer que o capitalismo é uma etapa necessária dentro do
próprio esquema marxista geralmente provoca olhares de espanto, como se alguém
tivesse acabado de afirmar que a água molha. Claro, para saber disso seria
preciso ter lido algo além de memes, assistido aos telejornais ou ido a alguma
igreja evangélica onde um pastor fala de Marx como se fosse o anticristo.
Daí que seja quase cômico ouvir que Cuba ou
Venezuela são “comunistas”. Não são, nem teórica nem praticamente. Chamá-los
assim é uma forma confortável de não pensar, de evitar discussões mais sérias
sobre corrupção, autoritarismo, bloqueios, erros internos ou responsabilidades
compartilhadas. Dizer “comunismo” funciona como um feitiço: dispensa análise.
Talvez o verdadeiro problema não seja o
comunismo, mas a preguiça intelectual. Esse hábito de opinar sem ler, de odiar
conceitos que nunca foram compreendidos, de repetir slogans como se fossem
ideias próprias. “A ignorância é atrevida.”
Mas há algo ainda mais incômodo de admitir:
talvez o comunismo, entendido no sentido marxista mais profundo, seja hoje
praticamente impossível. Não porque Marx estivesse completamente errado, mas
porque as condições históricas que ele imaginou acabaram levando a outra coisa.
O capitalismo realmente produziu uma capacidade material inédita. Gerou
tecnologia, automação, redes globais, uma abundância potencial que teria
parecido ficção científica no século XIX. O problema é que essa abundância não
desembocou numa consciência coletiva, mas sim em um individualismo feroz — e
produziu criaturas como Donald Trump.
Marx supunha que o próprio desenvolvimento do
capitalismo criaria as condições para superar o capitalismo. Mas o sistema fez
algo mais sofisticado: transformou até mesmo a rebeldia em mercadoria. O
sujeito revolucionário acabou absorvido pelo consumo, pelo espetáculo, pela
ansiedade de sobreviver e competir. A ideia de comunidade foi substituída pela
ideia de sucesso pessoal. Quase ninguém mais sonha em transformar o mundo; a
maioria apenas aspira a não afundar nele.
Além disso, Marx escreveu em uma época que
ainda acreditava no progresso histórico. O século XX destruiu boa parte dessa
fé. As guerras mundiais, os totalitarismos, as burocracias estatais e os
fracassos autoritários realizados em nome do socialismo deixaram uma ferida
moral profunda demais. Até mesmo aqueles que criticam o capitalismo costumam
fazê-lo a partir do cansaço ou do cinismo, e não da esperança de uma
civilização diferente.
E existe outro limite que Marx mal chegou a
vislumbrar: o ecológico. Durante muito tempo, inclusive dentro do marxismo,
acreditou-se que o desenvolvimento ilimitado das forças produtivas resolveria a
escassez. Hoje sabemos que o planeta não suporta um modelo universal baseado em
consumo infinito. A contradição contemporânea é brutal: nunca houve tanta
capacidade tecnológica e, ao mesmo tempo, nunca foi tão evidente a fragilidade
material do mundo.
Por isso o comunismo contemporâneo parece
condenado a um paradoxo. Para existir, precisaria de uma humanidade mais
solidária, menos dominada pelo mercado e capaz de pensar em termos coletivos.
Mas o próprio capitalismo global produz exatamente o contrário: indivíduos
isolados, exaustos, hiperindividualizados, treinados para competir até mesmo
com os amigos, os parceiros e consigo próprios. A lógica do mercado já não
organiza apenas a economia: organiza a imaginação.
Talvez aí resida a tragédia filosófica do
nosso tempo. O capitalismo conseguiu algo mais profundo do que controlar os
meios de produção: colonizou a própria ideia do possível. As pessoas conseguem
imaginar o fim do mundo com mais facilidade do que o fim do sistema. Fala-se de
catástrofes climáticas, guerras nucleares ou inteligências artificiais fora de
controle com mais naturalidade do que de uma sociedade baseada em outra lógica
moral.
Talvez por isso o comunismo sobreviva apenas
como fantasma, como lembrete de que a desigualdade não é natural e de que o
mundo poderia ser organizado de outra maneira. Não como uma utopia pronta para
ser instalada amanhã, mas como uma pergunta moral que o capitalismo ainda não
consegue responder: como uma civilização pode produzir tanta riqueza e, ao
mesmo tempo, tanta solidão, tanta miséria e tanta indiferença?
Talvez Marx não tenha compreendido totalmente o futuro. Mas aqueles que o reduzem a uma caricatura definitivamente também não entendem o presente.
*Escritor equatoriano, gestor comunitario.
Professor de literatura em colégios de Cuenca e Galápagos (Equador).
Colaborador de revistas literárias em Equador, Colômbia, México, Espanha,
Dinamarca, Estados Unidos.

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