segunda-feira, 18 de maio de 2026

Crise na pré-campanha de Flávio Bolsonaro dificulta escolha de vice, por Beatriz Roscoe

Valor Econômico

Nomes de Romeu Zema e de Tereza Cristina perdem força para compor chapa depois da operação contra Ciro Nogueira e ligação de presidenciável com Daniel Vorcaro

Se a operação contra o senador Ciro Nogueira (PP-PI) abriu um dilema na campanha ao Palácio do Planalto de Flávio Bolsonaro (PL) há algumas semanas, o vazamento de conversas do senador com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Master, embaralhou ainda mais o cenário para a definição da vaga de vice. Com os dois episódios, os principais cotados para compor a chapa presidencial - Romeu Zema (Novo) e Tereza Cristina (PP-MS) - mergulharam a articulação da pré-campanha em impasses estratégicos.

Apesar dos imbróglios, interlocutores do pré-candidato do PL afirmam que a definição da vice ainda está longe de acontecer, mas admitem que os últimos episódios devem impactar na configuração da chapa. A orientação agora é tentar dizimar desconfianças em relação ao nome de Flávio para evitar impacto negativo nas pesquisas eleitorais.

De um lado, integrantes da cúpula da federação União-PP ficaram ressentidos com o posicionamento de Flávio quando Ciro Nogueira foi alvo de operação da Polícia Federal (PF), sob a suspeita de envolvimento em negócios ilícitos com Vorcaro. Políticos desse grupo acusam Flávio de “largar Ciro na chuva” e dizem ter “ficado muito feio” para o senador cobrar apurações em uma semana, e na outra, também ter ligações com o ex-banqueiro expostas.

Na outra ponta, é o próprio Flávio Bolsonaro quem demonstra mágoas com as declarações feitas por Zema após vir à tona a troca de mensagens entre o senador e Vorcaro. A equipe da campanha viu equívoco nas falas do ex-governador de Minas Gerais, que classificou como “imperdoável” o áudio enviado por Flávio ao dono do Banco Master.

Aliados de Flávio avaliam que a definição da chapa só deve ocorrer após as convenções partidárias, mas os casos abrem dilemas importantes para a definição dos próximos passos e aumentam a chance de que outros quadros menos conhecidos passem a ser cotados. Recentemente, Flávio Bolsonaro reiterou o desejo de uma mulher na vice.

Após a operação contra Ciro Nogueira, uma ala no entorno de Flávio defendeu que a repercussão do caso fortaleceria uma composição com Zema - ainda que a estrutura partidária do Novo não agregasse tanto à campanha. Na leitura desses aliados, Flávio já tem um perfil mais “moderado” do que o pai e o nome de Zema tem maior alinhamento ideológico com o bolsonarismo.

Aliados veem Zema 'oportunista'

Porém, depois que Zema fez críticas públicas ao pré-candidato do PL, ele tem sido considerado “oportunista”. O próprio senador não deixou de esconder suas mágoas. Em entrevista à CNN, Flávio disse esperar que o ex-governador “se arrependa” das declarações dadas.

Flávio afirmou ainda que procurou o empresário por telefone e tentou falar com Zema após as declarações. Na avaliação do senador, o ex-aliado “foi precipitado” e “se equivocou”. “Zema, você se precipitou, e eu espero que você se arrependa”, declarou Flávio. Ele disse que, se Zema quiser “voltar a ajudar”, será bem-vindo. “Mas é óbvio que, se ficar do jeito que está, fica inviável ter uma chapa com Flávio e Zema de vice”, disse o senador.

Fontes da cúpula da campanha de Flávio afirmam que as falas públicas foram interpretadas como uma “porta fechada” para negociações e eventual composição. Zema divulgou um vídeo nas redes sociais em que condena a conduta do senador e diz que o episódio enfraquece o discurso de parte da direita contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o PT.

“Flávio Bolsonaro, ouvir você cobrando o dinheiro do Vorcaro é imperdoável. É um tapa na cara dos brasileiros de bem”, afirmou Zema no vídeo.

Depois da resposta de Flávio, Zema suavizou o tom, no sábado (16), mas manteve críticas e disse que a história é “página virada”: “Fui duro porque fiquei muito decepcionado, mas agi de acordo com meus princípios e valores. Para mim, agora é página virada”, disse. “Sempre respeitei muito o [ex-] presidente Bolsonaro, e inclusive atuei ativamente no segundo turno dele em 2022 no Estado de Minas Gerais, mas esse fato me decepcionou e eu agi de acordo com os meus princípios e valores, eu prezo transparência”, completou.

Flávio mudou tom contra Ciro após também virar alvo

Em relação a Ciro Nogueira, após o tom duro adotado inicialmente, Flávio amenizou o discurso. Em nota divulgada após a operação contra o presidente do PP, o senador defendeu apuração, e, sem citar nominalmente o senador, afirmou considerar graves as informações divulgadas. Nos bastidores, porém, aliados o aconselhavam a evitar um rompimento com a federação União-PP.

Aliados de Flávio reconheceram que a operação reacendeu divergências internas sobre a composição da chapa presidencial. Parte do entorno de Jair Bolsonaro defendia Zema como vice - e apontava que o nome dele era, inclusive, uma preferência pessoal do ex-presidente. Já o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, e aliados consideram a aliança com a federação União-PP vantajosa, especialmente pela estrutura eleitoral que pode agregar à campanha.

No dia seguinte ao vazamento de mensagens trocadas com Vorcaro, em entrevista à GloboNews, Flávio mudou o tom e disse que, “se Deus quiser”, Ciro iria provar a inocência.

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