Valor Econômico
Nomes de Romeu Zema e de Tereza Cristina perdem força para compor chapa depois da operação contra Ciro Nogueira e ligação de presidenciável com Daniel Vorcaro
Se a operação contra o senador Ciro Nogueira (PP-PI)
abriu um dilema na campanha ao Palácio do Planalto de Flávio Bolsonaro (PL)
há algumas semanas, o vazamento de conversas do senador com o
ex-banqueiro Daniel
Vorcaro, dono do Master, embaralhou ainda mais o cenário para a
definição da vaga de vice. Com os dois episódios, os principais cotados para
compor a chapa presidencial - Romeu
Zema (Novo) e Tereza
Cristina (PP-MS) - mergulharam a articulação da
pré-campanha em impasses estratégicos.
Apesar dos imbróglios, interlocutores do pré-candidato do PL afirmam que a definição da vice ainda está longe de acontecer, mas admitem que os últimos episódios devem impactar na configuração da chapa. A orientação agora é tentar dizimar desconfianças em relação ao nome de Flávio para evitar impacto negativo nas pesquisas eleitorais.
De um lado, integrantes da cúpula da
federação União-PP ficaram ressentidos com o posicionamento de Flávio quando
Ciro Nogueira foi alvo de operação da Polícia Federal (PF), sob a suspeita de
envolvimento em negócios ilícitos com Vorcaro. Políticos
desse grupo acusam Flávio de “largar Ciro na chuva” e dizem ter “ficado muito
feio” para o senador cobrar apurações em uma semana, e na outra, também ter
ligações com o ex-banqueiro expostas.
Na outra ponta, é o próprio Flávio Bolsonaro quem
demonstra mágoas com as declarações feitas por Zema após vir à tona a
troca de mensagens entre o senador e Vorcaro. A equipe da campanha viu equívoco
nas falas do ex-governador de Minas Gerais, que classificou como “imperdoável”
o áudio enviado por Flávio ao dono do Banco Master.
Aliados de Flávio avaliam que a definição da
chapa só deve ocorrer após as convenções partidárias, mas os casos abrem
dilemas importantes para a definição dos próximos passos e aumentam a chance de
que outros quadros menos conhecidos passem a ser cotados. Recentemente, Flávio
Bolsonaro reiterou o desejo de uma mulher na vice.
Após a operação contra Ciro Nogueira, uma ala no
entorno de Flávio defendeu que a repercussão do caso fortaleceria uma
composição com Zema -
ainda que a estrutura partidária do Novo não agregasse tanto à campanha. Na
leitura desses aliados, Flávio já tem um perfil mais “moderado” do que o pai e
o nome de Zema tem maior alinhamento ideológico com o bolsonarismo.
Aliados veem Zema 'oportunista'
Porém, depois que
Zema fez críticas públicas ao pré-candidato do PL, ele tem sido considerado
“oportunista”. O próprio senador não deixou de esconder suas mágoas. Em
entrevista à CNN, Flávio disse esperar que o ex-governador “se arrependa” das
declarações dadas.
Flávio afirmou ainda que procurou o empresário
por telefone e tentou falar com Zema após as declarações. Na avaliação do senador, o ex-aliado “foi precipitado” e “se
equivocou”. “Zema, você se precipitou, e eu espero que você se
arrependa”, declarou Flávio. Ele disse que, se Zema quiser “voltar a ajudar”,
será bem-vindo. “Mas é óbvio que, se ficar do jeito que está, fica inviável ter
uma chapa com Flávio e Zema de vice”, disse o senador.
Fontes da cúpula da campanha de Flávio
afirmam que as falas públicas foram interpretadas como uma “porta fechada” para
negociações e eventual composição. Zema divulgou um vídeo nas redes sociais em
que condena a conduta do senador e diz que o episódio enfraquece o discurso de
parte da direita contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o PT.
“Flávio Bolsonaro, ouvir você cobrando o
dinheiro do Vorcaro é imperdoável. É um tapa na cara dos brasileiros de bem”,
afirmou Zema no vídeo.
Depois da resposta de Flávio, Zema suavizou o
tom, no sábado (16), mas manteve críticas e disse que a história é “página
virada”: “Fui duro porque fiquei muito decepcionado,
mas agi de acordo com meus princípios e valores. Para mim, agora é página
virada”, disse. “Sempre respeitei muito o [ex-] presidente
Bolsonaro, e inclusive atuei ativamente no segundo turno dele em 2022 no Estado
de Minas Gerais, mas esse fato me decepcionou e eu agi de acordo com os meus
princípios e valores, eu prezo transparência”, completou.
Flávio mudou tom contra Ciro após também
virar alvo
Em relação a Ciro Nogueira, após o tom duro
adotado inicialmente, Flávio amenizou o discurso. Em nota divulgada após a
operação contra o presidente do PP, o senador defendeu apuração, e, sem citar
nominalmente o senador, afirmou considerar graves as informações divulgadas.
Nos bastidores, porém, aliados o aconselhavam a evitar um rompimento com a
federação União-PP.
Aliados de Flávio reconheceram que a operação
reacendeu divergências internas sobre a composição da chapa presidencial. Parte
do entorno de Jair
Bolsonaro defendia Zema como vice - e apontava que o nome
dele era, inclusive, uma preferência pessoal do ex-presidente. Já o presidente
do PL, Valdemar Costa Neto,
e aliados consideram a aliança com a federação União-PP vantajosa,
especialmente pela estrutura eleitoral que pode agregar à campanha.
No dia seguinte ao vazamento de mensagens
trocadas com Vorcaro, em entrevista à GloboNews, Flávio
mudou o tom e disse que, “se Deus quiser”, Ciro iria provar a inocência.

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