terça-feira, 26 de maio de 2026

Derretimento de Flávio fragmenta o voto religioso e ajuda Lula, por Juliano Spyer

Folha de S. Paulo

Sem herdeiro da direita bolsonarista, igrejas perdem influência na eleição presidencial

Por falta de tempo, pastores e líderes buscarão seus interesses imediatos

O derretimento de Flávio Bolsonaro abriu uma oportunidade para seus adversários. Evangélicos representam um terço do eleitorado e, nos dois últimos pleitos, votaram consistentemente em Bolsonaro. Agora estão órfãos de candidato.

É equivocado falar em "evangélicos" genericamente —há muitas tensões e diferenças entre igrejas. Esse é parte do nó que Jair Bolsonaro desatou. Ele conseguiu ter apoiadores em todas as igrejas, de presbiterianos a assembleianos. O que mais ele fez?

Primeiro, Bolsonaro não quis parecer evangélico. Mesmo tendo sido batizado várias vezes no Jordão, não se comporta como Flávio, que se apresenta como cristão sem ter muita familiaridade com a Bíblia e envolvimento com sua comunidade de fé.

Jair também dedicou atenção especial a pastores. Evangélicos chegaram à arena política como o primo pobre —vistos ora como ultraconservadores, ora como manipuladores ambiciosos. O ex-presidente os recebeu pela porta da frente, como representantes de um setor numeroso da sociedade. Demonstrou respeito e gratidão por sua atuação.

Há ainda a esposa, Michelle, percebida como crente legítima. Esse vínculo sinalizava a esperança de que Jair se converteria. E contou com a interlocução do pastor Silas Malafaia, líder de uma igreja relativamente pequena, mas presente há décadas como voz evangélica na TV.

Por isso, Flavio foi aceito como herdeiro desse legado, mesmo tendo dado uma rasteira nos pastores que preferiam Tarcísio. E tinha a vantagem de não falar palavrões nem ter recusado tomar vacina. Mas essa confiança erodiu quando foi pego pedindo dinheiro a um banqueiro corrupto, depois de ter negado a existência dessa relação.

Evangélicos entendem que o envolvimento com a política é um mal necessário. Querem representação. Mas a força desagregadora do olavismo nas igrejas e casos como o do pastor da Lagoinha envolvido no escândalo do Master tornaram esse eleitor mais cético ao uso político dos púlpitos.

Outro desafio é definir como abordar esse eleitor. Debater liberdade de expressão é importante —no rechaço ao identitarismo, especialmente em relação à sexualidade infantil. Mas há outros assuntos caros: ter mais incentivos para prosperar pelo trabalho e a pauta da segurança.

Nas palavras do desembargador William Douglas, pentecostal e observador do mundo político: "O erro de Lula e de outros candidatos é sentar com um grupo pequeno, ou com um ou outro, e achar que falam com o grupo todo. Não conseguem ter a visão do todo".

Temos um segmento numeroso de eleitores brasileiros órfãos de candidato. Mas, pela falta de tempo, pastores e lideranças buscarão seus interesses imediatos, negociando a partir do tamanho de suas denominações.

Nesse cenário, retornamos à lógica pré-2018: igrejas perdem influência nacional, beneficiando pré-candidatos com menos acesso a púlpitos, como Lula e Renan Santos. Até o segundo turno.

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