Folha de S. Paulo
Sem herdeiro da direita bolsonarista, igrejas
perdem influência na eleição presidencial
Por falta de tempo, pastores e líderes
buscarão seus interesses imediatos
O derretimento de Flávio
Bolsonaro abriu uma oportunidade para seus adversários.
Evangélicos representam um terço do eleitorado e, nos dois últimos pleitos,
votaram consistentemente em Bolsonaro. Agora estão órfãos de candidato.
É equivocado falar em "evangélicos" genericamente —há muitas tensões e diferenças entre igrejas. Esse é parte do nó que Jair Bolsonaro desatou. Ele conseguiu ter apoiadores em todas as igrejas, de presbiterianos a assembleianos. O que mais ele fez?
Primeiro, Bolsonaro não quis parecer
evangélico. Mesmo tendo sido batizado várias vezes no Jordão, não se comporta
como Flávio, que se apresenta como cristão sem ter muita familiaridade com a
Bíblia e envolvimento com sua comunidade de fé.
Jair também dedicou atenção especial a
pastores. Evangélicos chegaram à arena política como o primo pobre —vistos ora
como ultraconservadores, ora como manipuladores ambiciosos. O ex-presidente os
recebeu pela porta da frente, como representantes de um setor numeroso da
sociedade. Demonstrou respeito e gratidão por sua atuação.
Há ainda a esposa, Michelle, percebida como
crente legítima. Esse vínculo sinalizava a esperança de que Jair se
converteria. E contou com a interlocução do pastor Silas
Malafaia, líder de uma igreja relativamente pequena, mas presente há
décadas como voz evangélica na TV.
Por isso, Flavio foi aceito como herdeiro
desse legado, mesmo tendo dado uma rasteira nos pastores que preferiam
Tarcísio. E tinha a vantagem de não falar palavrões nem ter recusado tomar
vacina. Mas essa confiança erodiu quando foi pego pedindo dinheiro a um
banqueiro corrupto, depois de ter negado a existência dessa relação.
Evangélicos entendem que o envolvimento com a
política é um mal necessário. Querem representação. Mas a força desagregadora
do olavismo nas igrejas e casos como o do pastor da Lagoinha envolvido no
escândalo do Master tornaram
esse eleitor mais cético ao uso político dos púlpitos.
Outro desafio é definir como abordar esse
eleitor. Debater liberdade de expressão é importante —no rechaço ao
identitarismo, especialmente em relação à sexualidade infantil. Mas há outros
assuntos caros: ter mais incentivos para prosperar pelo trabalho e a pauta da
segurança.
Nas palavras do desembargador William
Douglas, pentecostal e observador do mundo político: "O erro de Lula e de
outros candidatos é sentar com um grupo pequeno, ou com um ou outro, e achar
que falam com o grupo todo. Não conseguem ter a visão do todo".
Temos um segmento numeroso de eleitores
brasileiros órfãos de candidato. Mas, pela falta de tempo, pastores e
lideranças buscarão seus interesses imediatos, negociando a partir do tamanho
de suas denominações.
Nesse cenário, retornamos à lógica pré-2018:
igrejas perdem influência nacional, beneficiando pré-candidatos com menos
acesso a púlpitos, como Lula e Renan Santos. Até o segundo turno.

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