Valor Econômico
É difícil acreditar que o Estado não
repassará a conta, de maneira a manter a arrecadação
O senador Flávio Bolsonaro subiu à tribuna da Câmara dos Deputados, durante a sessão em que o Congresso Nacional derrubaria uma série de vetos presidenciais, e rapidamente foi ladeado por um punhado de aliados que dependem de um impulso nas eleições de outubro. Em outros tempos, o espaço da tribuna seria respeitado e o plenário se silenciaria. Todos ouviriam com atenção a aguardada explicação do principal candidato da oposição à Presidência da República sobre sua relação com Daniel Vorcaro, do Banco Master, pivô do maior escândalo financeiro do país.
Apartes seriam feitos aqui e ali, tanto de
aliados como de adversários. Ainda que não conseguisse estancar a crise por
completo, o pré-candidato do PL manteria o “ar presidencial” que assustara
aliados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) semanas antes, naquele
mesmo ambiente, quando a oposição impunha importantes derrotas ao Palácio do
Planalto.
Mas seu pronunciamento durou apenas quatro
minutos. E foi feito para um plenário praticamente vazio. Em vez de
justificativas, pediu, de forma teatral, a instalação de uma Comissão
Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) sobre o caso Master.
Flávio Bolsonaro já ia saindo, quando
percebeu que pelo menos um governista conseguiria obter a palavra do presidente
do Congresso, senador Davi Alcolumbre (União-AP). Ficou.
Para contrapô-lo, o deputado Lindbergh Farias
(PT-RJ) usou a prerrogativa de discursar utilizando o tempo da liderança da
maioria. Como o petista citou nominalmente o adversário, inadvertidamente ou de
forma proposital, o senador teve ainda o direito de replicar. No entanto, o
debate não prosseguiu: a deputada Erika Kokay (PT-DF) até pediu, mas não
recebeu a palavra. Foi uma vitória parcial de Flávio, que na verdade tinha
entrado em campo para viabilizar a produção de conteúdo para cortes nas redes
sociais.
Este não foi um fato isolado. É um sinal dos
tempos.
Um estudo do consultor legislativo do Senado
Federal Pedro Duarte Blanco, da área de pronunciamentos, analisou mudanças nas
falas feitas na Casa nos últimos anos. Realizado por meio de técnicas
computacionais e Inteligência Artificial (IA), o trabalho foi publicado em
dezembro de 2025. Ou seja, não tem relação direta com esse pronunciamento
específico de Flávio Bolsonaro. No entanto, joga luz sobre um dos mais nobres
espaços da política.
Segundo “Plenário, Palanque, Estúdio -
Discursos no Plenário do Senado Federal entre 2007 e 2024”, os discursos nesse
período ficaram mais curtos, menos interativos, com uma redução de 90% nos
apartes. Em meio ao crescimento da importância das redes sociais na estratégia
de comunicação dos parlamentares e da polarização política, o trabalho sugere
que o plenário perdeu seu “caráter dialógico” e se converteu “em espaço de
monólogos destinados ao público virtual”, embora seu autor também pondere que
há sinais de possível reversão dessas mudanças.
O texto mostra que 2013, marcado pelas
chamadas “jornadas de junho”, foi de longe o ano em que mais se falou no
plenário do Senado. Foram cerca de 6,5 mil discursos, muitos deles no contexto
das discussões sobre mudanças constitucionais que atenderiam ao pleito popular
ou de possível convocação de uma constituinte exclusiva para reformar o sistema
político. O ponto baixo da série analisada foi 2020, em razão da pandemia.
Em geral, aponta o consultor legislativo, a
queda substancial nos apartes sugere uma redução do diálogo entre os
parlamentares em plenário. Além disso, foi possível captar sinais de
“mansplaining”, ou seja, o comportamento atribuído aos homens que fazem
explicações desnecessárias a mulheres. O termo é bastante difundido nos debates
sobre gênero e evidencia o desrespeito às mulheres na vida privada, no trabalho
e na atividade pública.
Os gráficos do estudo também demonstram uma
maior interação das senadoras entre si. “Essa correlação sustenta a hipótese de
que os apartes ganharam, ao menos na representação de gênero, um caráter
estratégico, constituindo-se em meio de articulação de pautas femininas.”
Em suas conclusões, Pedro Duarte Blanco anota
que as tendências observadas na pesquisa demandam preocupação e reflexão.
“Considerando as virtudes do Poder Legislativo como esfera pública - ainda que
imperfeita -, subordinar o plenário às redes sociais significa delegar as suas
funções a uma instância privada, à margem de um regime político-jurídico
republicano.”
Naquela última sessão do Congresso, Flávio
deixou o plenário sem falar do encontro que manteve com Daniel Vorcaro após a
prisão domiciliar do ex-banqueiro. Coube ao próprio presidente do PL, Valdemar
Costa Neto, contradizê-lo em entrevista à GloboNews. Na opinião do dirigente
partidário, Flávio Bolsonaro foi à casa de Vorcaro na tentativa de obter o
restante dos recursos para bancar o filme em homenagem ao pai - e não para
cortar relações, como foi dito pelo aliado.
A estratégia do senador também poupou-o de
ter que rebater eventuais apartes constrangedores. Até mesmo entre aliados no
PL e potenciais doadores no setor privado, há quem pergunte sobre o que poderia
ainda surgir do material apreendido pela Polícia Federal (PF) e a real
destinação dos recursos direcionados à empreitada bolsonarista.

Nenhum comentário:
Postar um comentário