sexta-feira, 15 de maio de 2026

Em cartaz: Corra que a Polícia Federal vem aí! Por Andrea Jubé

Valor Econômico

Cúpula do PL sabe que a revelação dos laços de Flávio com Vorcaro coloca em xeque o projeto presidencial, mas decide testar resiliência do pré-candidato

E por falar em cinema, outro sucesso de bilheteria é o sugestivo “Corra que a Polícia vem aí!”, comédia pastelão que, entretanto, ao invés de risos, vem provocando lágrimas em parte do público de Brasília. Nas telas ou nas ruas, a história recente mostra que a Polícia Federal (PF) em ação tem força para abalar ou, até mesmo, sepultar candidaturas.

Um dos personagens mais populares desse roteiro foi o “Japonês da Federal”, o temido agente Newton Ishii, que ganhou fama, nos tempos da Lava-Jato, ao escoltar presos célebres da investigação, como o empresário Marcelo Odebrecht, o ex-deputado Pedro Corrêa, o ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto. Ele chegou a virar máscara e inspirar marchinhas no Carnaval de 2016: “Ai meu Deus, me dei mal, bateu na minha porta o Japonês da Federal”.

Ainda não surgiu o “Japonês da Federal” da Operação Compliance Zero, que investiga a fraude bilionária do Banco Master. Mas no passado como agora, o temor das batidas na porta ao amanhecer dos agentes da PF é o mesmo, e vem tirando o sono de quem se relacionou com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, ou com seu entorno.

Na quarta-feira (13), enquanto o pré-candidato à Presidência do PL, senador Flávio Bolsonaro (RJ), tentava explicar os valores milionários ajustados com Daniel Vorcaro para financiar o filme “Dark Horse” sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro, circulavam rumores em Brasília de que uma nova fase da operação seria deflagrada na manhã seguinte, mirando outro cacique do Centrão, aumentando a ansiedade no Congresso.

A ação policial se confirmou, mas na sexta fase da Compliance Zero, o alvo foi o pai do ex-banqueiro, Henrique Vorcaro. Vale lembrar que a Lava-Jato estendeu-se por 80 fases, ao longo de sete anos.

Enquanto a investigação avança, a cúpula do PL testa a resiliência da candidatura de Flávio Bolsonaro. Em retrospectiva, a história demonstra que alguns candidatos resistem às denúncias, outros sucumbem.

Foi assim em abril de 2002, quando uma operação da PF abateu, em pleno voo, a pré-candidatura de Roseana Sarney, então no PFL, ao Palácio do Planalto. Agentes apreenderam R$ 1 milhão em espécie, não declarados, na sede da empresa Lunus de seu marido, Jorge Murad, e as imagens das pilhas de dinheiro circulando intensamente na imprensa fulminaram o projeto eleitoral de Roseana.

Na ocasião, o então senador José Sarney (MDB-AP) foi a público acusar o ex-ministro da Saúde José Serra - pré-candidato do PSDB à Presidência - de instrumentalizar a instituição contra sua família para tirar Roseana do jogo. “Quem acredita, neste país, qual o idiota, que uma ação desta magnitude seria armada sem que a máquina estatal de nada soubesse ou dela não participasse? Quem nesse país não sabe que foi uma ação política suja, com propósito determinado?”, desafiou Sarney da tribuna. Ao fim, Roseana abortou o voo presidencial, e se elegeu senadora pelo Maranhão.

Outro clássico da política nacional foi o “escândalo dos aloprados”, que atingiu a candidatura à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2006. A duas semanas do primeiro turno, a polícia deteve duas pessoas ligadas ao PT em um hotel em São Paulo, com R$ 1,1 milhão e US$ 249 mil em espécie. A quantia seria para a compra de um suposto dossiê contra José Serra, que disputava o governo paulista com o petista Aloizio Mercadante.

Sobrevivente do escândalo do Mensalão, que feriu o coração do PT, Lula enfrentava o ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB) - hoje seu vice-presidente - nas urnas. Assim como se deu no caso Lunus, as imagens das pilhas de dinheiro apreendido foram exploradas à exaustão no noticiário e na propaganda da oposição. Mas em um efeito “teflon”, Lula saiu ileso do episódio, e se reelegeu.

Chama a atenção como, em duas décadas, as cifras dos desvios tenham aumentado exponencialmente, do “modesto” patamar de R$ 1 milhão para valores na casa dos R$ 100 milhões. Na investigação que envolve Flávio Bolsonaro, a quantia negociada com Vorcaro seria de R$ 134 milhões. Ainda em relação ao Banco Master, veio à tona o contrato de Vorcaro com o escritório de Viviane Barci, esposa do ministro Alexandre de Moraes, no valor de R$ 129 milhões.

A cúpula do PL sabe que a revelação dos laços de Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro coloca em xeque o projeto presidencial, mas - alinhada com Jair Bolsonaro - decidiu testar a resiliência do pré-candidato antes de partir para um substituto. Nos próximos dias, o senador se revezará entre vídeos e entrevistas dando explicações sobre o áudio em que combina com Vorcaro o repasse de recursos, enquanto seu time de campanha monitora a reação do eleitor nas redes e nas pesquisas.

Na quinta-feira (14), circulou no mercado financeiro a análise de uma consultoria sobre o impacto das denúncias ligando Flávio a Vorcaro nas redes sociais. Sem surpresas, o monitoramento detectou expressiva perda de credibilidade do postulante do PL. O volume de menções negativas sobre ele nas 24 horas após a divulgação do áudio teve alta de sete pontos percentuais. Segundo o relatório, 64,7% do que se falou no período sobre Flávio nas plataformas foi negativo, sendo o pior desempenho desde que ele estreou na corrida presidencial.

 

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